15/04/2012

Cap.41_"Homem bom é homem viado!"

Atenção: Este texto é recomendado só para maiores de 18 anos!
– Homem bom é homem viado! – Lina gritava sozinha dentro do apê vazio que acabara de se mudar. Com a espátula na mão descascava as paredes amareladas do próprio passado. Irrompendo a década de 90 com novo roteiro.
– O resto só se for pra me fazer gozar! Mais do que isso, tô fora, tô fora, TÔ FORA! – Ela repetia pra si mesma como se para ter certeza de que agora era pra valer. Toda suja de pó, preparava o cenário do próprio futuro. E a peça era um monólogo:
– Tô nem aí que me chamem de reacionária. No Brasil mané diz: bandido bom é bandido morto! E eu digo: homem bom é homem viado! A começar pelo meu primo, o Guido, que me trouxe pra Viena e me ensinou o caminho das pedras, aliás todos os caminhos. Porque além de dar as melhores dicas de como se embrenhar na selva da língua: "Se você não sabe qual artigo usar, bota tudo no plural e pronto, não tem erro!", foi ele que me ensinou o "caminho da felicidade": "Homem você tem que lamber o saco, o cu... ", "Que é isso, Guido, isto é coisa de viado!", "Não, priminha careta! Homem que é homem não tem medo de prazer! E cu faz parte do sexo tanto quanto buceta e pau! Se alguém te proibir de "brincar nestas áreas", pode ter certeza que é bicha enrustida!", Não!!,– eu retrucava– "Sim, sou macaca velha, digo bicha velha, HAAHAHA!"– E Guido soltava sua gargalhada gostosa, escandalosa!
Lina continuava com seus botões:
– Ou mesmo o Hans, bicha bacana, inteligente e honesta. Se ofereceu pra casar comigo sem cobrar nada. Putz, ele foi a tábua de salvação. Agora sim consegui essa porra de visto e já vou logo dar entrada na cidadania. Brasil é muito lindo quando se está em Ipanema, mas mostrar o verdinho em qualquer aeroporto é roubada total.
Os pensamentos vinham como enxurrada na cabeça de Lina. Depois do expediente no restaurante, ela corria pra casa pra acabar a pintura da sala e ia botando a vida como uma bússola no rumo certo:
– Homem nunca mais! O negão rastafári lindo que me comeu e tá reformando a cozinha, sim! Faz o serviço "completo" e vai embora na mesma hora. Sem promessas, sem expectativas. Ótimo assim, por que eu não descobri isto antes? Por que tive que chorar rios de lágrimas por babacas que só sabiam dizer: "Não quero compromisso!", "Você é boa demais pra mim.", "Ich will meine Freiheit!". Aliás, acho que esta foi a primeira frase em alemão que eu aprendi: Eu quero a minha liberdade! Então vai bater punheta e não me encha o saco! Agora sim, sozinha, eu e minhas paredes brancas, meu trabalho, meus amigos, a faculdade. Até que Saturno tá sendo bom, entrou na minha vida na hora certa...também, quase 30 anos no escórnio. Já estava na hora de acordar do sonho de cinderela. Só não sei se o dinheiro vai dar pra pagar as contas...
Cuidava das paredes destruídas como se fosse seu próprio passado. Raspar a tinta velha, tapar os buracos, pintar de branco. Arrancar o passado, tratar as feridas, usufruir da liberdade.
– Até agora só conheci dois tipos de homem: os que querem roubar minha independencia ou os que querem usufruir dela. Por isso,assim que acabar a reforma da cozinha, o negão vai rodar! É lindo, gostoso, cheiroso mas euzinha virar amante a esta altura do campeonato? Tô fora, tô fora, TÔ FORA!
Arrancava das paredes o que não prestava: Vícios, vacilos, ceguerias.
– Este mês não vai dar. Paguei depósito, mudança, comprei tintas... Mas mês que vem compro um vibrador e pronto, a emancipação será completa: cabeça, coração e buceta!
Lina pintava, limpava e decorava o apê como podia. Móveis doados por amigos, comprados nas pulgas, a casa ficando não do jeito que ela sonhava mas do jeito que era a sua realidade: improvisada e sem compromissos. A vida se tornando mais palpável, mais além do horizonte das emoções.
– E filhos eu posso fazer com uma bicha amiga qualquer. O Carlinhos por  exemplo, daria um ótimo pai. Boto uma divisória aqui na sala, um berço neste cantinho e pronto: Felicidade completa!
Pela primeira vez ela sentia o gosto da verdadeira liberdade, dona da própria vida e acima de tudo da própria buceta. Tentou em vão realizar seu sonho Disney mas todos os candidatos eram inadequados para príncipes, tanto quanto ela era inadequada para cinderela. Mas o último pé na bunda além de doer, deixou marcas. Perdeu o amor, o teto e o pior de tudo: o chão! A bússola rodava fazendo ela ficar tonta, enjoada. Acordou da rebordose decidida: – Primeiro: análise, nem que eu tenha que dar o cu na esquina pra pagar; segundo: casar com a bicha amiga; terceiro: um apê só pra mim!
E assim foi. Os amigos fizeram questão de ir na "cerimônia", riram muito. O padre, que era amigo de infãncia do Hans, até desconfiou. Hans vinha de uma cidade do interior e todo mundo conhecia a bicha doce.
– Você? Casar?
E ele segurava legal o perucão:
– Sim, algum problema?– E desmunhecava mais ainda.
Comemoraram numa Gasthaus. Encheram a cara e depois que todos foram embora, pediram dois quartos na pensão do andar de cima: Num quarto, Lina dormiu com o garçom da Gasthaus e no outro, Hans com seu namorado.
Lina E Hans: Casal perfeito, nunca brigaram. Cada um na tua casa. Hans entregou à ela todos os documentos que precisava pra dar entrada no visto e na cidadania.
Passaram-se alguns meses e tudo estava bem, Lina feliz sozinha no seu apê, trabalhando, estudando e a um passo da cidadania, quando bateram na porta de manhã bem cedo, bateram não, esmurraram a porta:
– POLIZEI! Abre, é a polícia!
Lina acordou assustada. Eles foram logo entrando, empurrando ela pro lado. Abriram armários, reviraram gavetas, levantaram cobertores.
Lina em pânico:
– O que está acontecendo? O que eu fiz?
Eles responderam com perguntas:
– Cadê o seu marido? Cadê as coisas do teu marido? Nem travesseiro ele tem!
„Fudeu!“ Lina pensou. „Fudeu!“ Diz ela até hoje que foi a pomba gira que desceu naquele momento, ela abriu os braços, arregalou os olhos e, tomada de uma expressão corporal fenomenal, esbravejou:
–Cadê? Não sei, não sei e não quero saber! Aquele canalha não entra mais aqui! Eu tirei todas as coisas dele, tudo, tudo e botei numa mala e mandei ele pra casa da mãe dele.
Lágrimas de desespero rolaram, Lina gritava, se contorcia, deu tudo de si na performance:
– Ele... ele... não me deixa em paz! Eu estou cozinhando, ele quer, eu estou estudando, ele quer. Dormir? Não posso mais! Olha minhas olheiras! – Os restos de maquiagem da noite anterior caíram como uma luva. E Lina continuava possuída pela personagem, os policiais de boca aberta, ela não deixava tempo pra eles reagirem. Estufou a barriga por cima do roupão:
– Nem grávida ele me deixa em paz!
Estava de bom tamanho, os policiais se desculparam pelo incômodo e se despediram justificando que havia a suspeita de Scheinehe (Casamento de fachada) por isso foi feita uma vistoria, mas agora não havia dúvidas que era realmente um casamento... Lina ainda tremendo de nervoso fechou a porta e esperou atenta ouvir o barulho do elevador descer. Quando teve a certeza de que eles já estavam longe, soltou uma sonora gargalhada:
– Eu sabia que um dia as aulas de teatro me serviriam para alguma coisa...