10/04/2012

Cap.40_Anéis cheios de dedos, colares cheios de pescoços.


Escrevi esta crónica, há muito tempo atrás, guardei, esqueci. Não, no momento não estou desempregada. Só preciso de mais contratos :) Espero que gostem! xxx

No momento em que forcei ela a me dar a mão, percebi por que consigo viver aqui. Meu egocentrismo não me deixa enxergar o outro como ele é ou como ele gostaria de ser visto mas sim como eu quero. E por isso minha mão permaneceu firme estendida até ser recompensada com o aperto.
Escritórios modernos esterelizados geram trabalhadores esterelizados. No chão, nas paredes, nas mesas só existe petróleo em forma de plástico. Alguns mais sensíveis não aguentam tanta falta de vida e trazem plantas, decoram com bichinhos de pelúcia, fotos das crianças… Mas esta não, esta dava pra perceber que era a do tipo super organizada, lápis e canetas fazendo uma fileira certinha na mesa, segurando o desfile: de um lado o apontador, do outro a borracha. 
Ela tinha as raízes em algum lugar juntas comigo. Só se via pelos olhos. As pálpebras faziam aquela curvinha doce típica latino-americana. No mais era a eficiência em pessoa. A funcionária correta, certinha. Só uma coisa não se encaixava na cena: para cada anel, vários dedos, para cada colar, vários pescoços. E isso tornava ela bonita, até linda. Por que era imperfeita, por que por trás de tanta eficiência e perfeição, os anéis teimavam em ter mais dedos que poderiam e os colares mais pescoços do que cabíveis. Nervosa, procurava no computador um "remédio" pra esta paciente tão exótica. Depois de uma rápida análise computadorial ela vira seu tronco que se separava de mim por uma mesa, e diz decisiva:
– A senhora está desempregada faz muito tempo e precisa a partir de agora fazer um curso... qualquer curso. Diga: o que a senhora precisa?" Os anéis e colares debochavam me encarando: "Isto mesmo, bota um curso nela, um curso pra concurso, hahaha"
– Tipografia seria bom...Mas tem que ser em MacIntosh.
– Tipo o quêeêê, Mac waaass? – Ela procura desesperada no computador por uma solução. Alguém já tentou explicar em dois minutos pra um (a) funcionário(a) público(a) do ministério do trabalho austríaco por que Macintosh ou o que significa Layout? 
– Ah, tá aqui, achei a solução: Deutschkurs (Curso de alemão)! Não é ótimo, senhora... senhora.. – ela procura rápido pelo meu nome no computador – Senhora Mares?
– È, é... acho que sim"– respondi meio surpresa com o novo destino.
No Brasil quando você tá desempregado, corre pra mamãe, papai, não consegue pagar o aluguel, volta pra casa deles e eles te mandam fazer um desses cursos pra concurso. Na Áustria a mamãe e papai se chama Arbeitsamt (Secretaria do trabalho) que funciona no mesmo esquema: Te dão uma mesadinha (salário desemprego) e te mandam ir á luta. Dai passa uns meses e você não consegue emprego, te empurram um cursinho qualquer. Desta forma você não aparece nas estatísticas como desempregado e o partido regente enche a boca pra dizer que existem cada vez menos desemprego no pais. E nada melhor do que um cursinho de alemão pra uma "Ausländerin" (Estrangeira).
Enquanto ela passava os anéis em cima do papel me explicando aonde ir, eu pensava na solução tão repentina tomada por colares e pescoços alheios. Depois de vinte anos de Austria, de novo um cursinho de alemão. Mas vai ser bom, Lina, afinal até hoje você se esquece que a palavra amor é feminino assim como o trabalho, o sol... Ai, pra quê saber tudo isto se sei amar, ralar e procurar desesperadamente pelo sol nos dias cinzas sem encontrar? Ela se irrita com meu olhar distante.
- A senhora está prestando a atenção? Trim, trim, os colares em forma de cascavel: "Taca um curso nela, um curso pra concurso, Siiisss, siiisss". 
- Claro, claro. Estou entendendo tudo.
Ela levou a folha de papel ofício com o logo da repartição pra mais perto do meu rosto. Anéis debochados bailando sobre o papel me apontavam o dever de casa. Seus olhos impacientes pedindo atenção. Endereço, hora, data... 
- A senhora entendeu tudo? Senhora... Senhora... - Mais uma olhadinha no computador (ou melhor chamar de oráculo?) Senhora Mares?
- Sim, sim. Levantei-me e num gesto puramente intuitivo estendi a mão pra agradecer, me despedir, coisa normal mesmo, sorriso nos lábios, espontânea eu fui. Ela já tinha se virado para o computador, eu era um caso encerrado e já tinha liberado o teu "Aufwiedersehen" (=Tchau). O próximo "paciente" já irrompendo a cena. Mas entre eu e o próximo, tinha aquela mão, a minha mão estendida na cara dela. Uma mão espontânea, amigável, agradecida. Ela não teve escolha nem tempo pra pensar. Estendeu a mão pra mim. Ainda a olhei nos olhos enquanto as mãos se uniam. Sorrisos, tatos, impressões entrelaçadas digitais. No meio de tanta esterelidade, algo orgânico acontecendo. Colares tilintaram, anéis se esfregaram e ela em fração de segundos foi outra, foi mais natural por trás da maquiagem e dos apetrechos, até sorriu. E no próximo segundo, ela se tocou que não fazia parte do trabalho dela, que não era normal apertar a mão de qualquer requerido/a. Mas não dei chance de ela se irritar. Me permitindo uma comparação perversa, é tipo quando vc não tá afins mas a figura te pega de um jeito e com um jeito que a gente sem perceber como, já gozou. Pois acabado o aperto, ela ficou lá com a mão parada me olhando com cara de besta enquanto eu dava passagem para o próximo. A expressão no rosto maquiado era uma confusão de emoções: bem-estar, inquietude, espanto. Também me espantei com esta fração de segundos que se procedeu da "Trepada". Retomei minha postura mais rápido do que ela que ficou ali parada com aquela mão "gozada". Meio sem graça, meio perdida pra logo depois voltar a ter as feições duras, a coluna travada, as pulseiras voltaram a ter mil braços, os brincos cheios de orelhas. Recomposta, se ajeitou na cadeira, colares fazendo sssii, ssiisss. Travou a boca pra falar um "pois não" com o próximo enquanto eu fechava a porta de vidro levando comigo o tilintar dos pescoços. Siiisss, siiisss.