20/06/2010

Cap.35_ A brasileira "Wahnsinnada"

Dois amigos austríacos tomando cerveja numa Gasthaus (Restaurante tipo pensão) austríaca.
Os copos de meio litro de cerveja se encontram:
– Prost! (Tin-tin!)
– Prost! Você lembra daquele meu amigo de escola que virou artista?
– Aquele que se casou com uma brasileira?
– É, esse mesmo. Rapaz, você sabe que ele me convidou pra assistir ao jogo da Copa na casa dele e pô, nem te conto... Des is a wahnsinn *... (Maior Loucura!)
– Por quê?
– Cheguei lá, a mulher dele me recebeu cheia de beijos, me colocou um copo de cerveja na mão e me puxou pelo braço falando nervosa: "Já começou o jogo! Vamos lá pra sala". E não parava de falar e eu perguntei pelo marido dela e ela disse que depois ele vinha, estava dando banho nas crianças. Pô, na hora do jogo e ele que tem que cuidar das crianças?
– Casal moderno...
– Eu sempre achei ele meio esquisito, fora do esquema, varstehst?* (sabe?) Mas escolher uma mulher dessas pra casar? I waß des ned...(Sei não... ) Imagina só: A casa fede a alho, eles fedem a alho, é comida e bagunça o tempo todo. Eu mal sentei no sofá e ela me empurrou um prato na mão...
– Eles não têm mesa?
– Doch! (Tem!) Mas ela disse que no Brasil é assim, não sentam na mesa, todo mundo come em qualquer lugar, falam ao mesmo tempo e veem televisão a todo volume.
– Des gibts net (Não é possível!). A Wahnsinn! (que doideira!)
– E a comida? Rapaz, des is a echt Wahnsinn (É uma verdadeira loucura!), ela veio me explicar que aquilo era Fusionsküche (Cozinha fusionada) por que era meio um Beuschel** e meio um prato lá, sei lá o nome que ela deu...
– E era o quê?
– Ah, era os nossos miúdos do Beuschel mas ao invés de Sauerrahm (Creme azedo) ela colocou um molho de tomate que tinha alho e cebola que era uma Wahnsinn! (Loucura!)
– Au weh! (Ai caramba!) Eles misturam alho e cebola? A Wahnsinn...
– Misturam tudo! E ao invés do nosso Semmelknödel, ela fez uns bolinhos de Polenta com queijo... Aliás de miúdo só tinha coração de galinha. Des is ka Scherz (Não tô brincando)
– Então de Fusão tinha muito pouco, não deu nem para o prato atravessar o Atlântico. Mas estava bom?


– Bom tava, muito bom mas diferente né? Mas muito bom. E o pior de tudo é que ela foi me explicando as estratégias dos jogadores: "Kaká tá vacilando, tem que furar este paredão de coreanos...Passe errado! Investe no contra-ataque, Brasil". Toda histérica, vestida de verde e amarelo...
– A Wahnsinn das Waib... (Mulher louca)
– Rapaz, até sombra amarela a mulher botou! E os berros? "Ai, UUUUUiiii, NÃO,NÃO, VAI, VAI!!" Parecia que estava fazendo outra coisa...
– E quando foi gol, ela deu um berro?
– Berro? Além de berrar, a Waib (perua) pulou em cima do sofá e começou a se balançar toda! A Wahnsinn...
– Samba?
– Ka Ahnung! (Sei lá!) Aquela dança que os quadris quase parece que vão sair do corpo...
– Mas com esta confusão toda as crianças estavam dormindo?
– Dormindo nada, os Burli (Guris) estavam olhando espantados pra Mãe, o mais velho meio envergonhado...
– E o teu amigo?
– Ele deu um tapinha nas minhas costas e falou rindo: Liga não, ela sempre fica assim quando vê jogo da Celessoouu, Cecessaaauu...
– Seleção.
– Isso. Mas narrou o jogo melhor do que o Oliver Polzer (Comentarista austríaco)
– Mas isso não é nada difícil.
– Haha. Tem razão. Enquanto o tal do Polzer só falava de 10 em 10 minutos: Kaká, Kaká, ela narrou o jogo inteiro! Só sei que me senti um leigo completo, a mulher entendia de futebol melhor do que eu...
– Echt wahr? Jura? Nunca vi disso... E quando a Coréia fez o gol? O que ela falou?
– Nada.
– Então foi silêncio total? Por que o Polzer também não falou nada...
– Silêncio total! A Wonsinn! Depois eu li no jornal que parece que nesta hora o Polzer foi no banheiro...
– Haha. Herr Ober - Levanta o copo de cerveja vazio– Mais duas!
– Se é um troço que não combina é mulher e futebol. Que nem comer um Schnittzel (Bife à milanesa) com arroz ou...
– Linguiça com feijão...
– Ah, isso combina sim, comi outra vez num jantar que ela deu, uma delicia, tem um nome esquisito ferrada, veijada, sei lá, mas tava muito bom.
– Estes Ausländer (estrangeiros) são a Wahnsinn... ! (uma doideira...!)
– Ela não é Ausländer (estrangeira), ela é brasileira!
– Como assim? Desde quando brasileiro não é Ausländer?
– Você por acaso chama alemão ou americano de Ausländer (Estrangeiro)?
– Não...
– Então! É a mesma coisa. Brasileiro não dá pra chamar assim, vastehst? (saca?). Ausländer é turco, iugoslavo, polonês e toda aquela galera lá do leste...
– Você quer dizer brancos, pobres e tristes? (Risos)
– É, mais ou menos por aí. Olha, cara, eu não sou racista, sou liberal pacas, nunca votei nos radicais de direita...
– E nos liberais de direita? (Risos). Afinal é tudo a mesma coisa: Ausländer raus! (Fora estrangeiros!)
– Hiii, lá vem você com este papo multikulti-dreadlook.
– Você se esqueceu dos africanos... Eles são o que então?
– Não são Ausländer, são Extraterrestres. Haha!
– Du bist a Wahnsinn! (Você é louco!)
– Acho melhor a gente mudar de assunto. Herr Ober (Senhor Garçon), manda mais duas! Mas voltando a nossa conversa, na waas (você sabe?), eu só estou te falando isso porque você é meu chapa. Pô, odeio fofoca mas foi muito esquisito tudo aquilo. Uma mulher assim não sei se eu iria gostar não...
– Na Wahnsinn, coitado do teu amigo...
– Pois é mas ele parece ser tão feliz...
– Vai ver que os dois se entendem bem...
– Com certeza. Na heast (escuta só), vou te contar um lance. Uma vez eu estava indo comprar um anel de diamantes pra minha mulher e topei com ele na rua e fomos tomar um café no Prückel. Daí o cara me veio com uns conselhos. Me falou pra eu guardar meu dinheiro e usar em outras coisas e eu argumentei que ela já estava faz tempos me enchendo o saco por que queria um anel de brilhantes e ele me disse: “Mei liaba freind (meu querido amigo), não caia nesta roubada, pra você fazer uma mulher feliz, ela só precisa de duas coisas: ser respeitada e bem comida. Todo o resto é perda de tempo e de dinheiro”.
– Na echt? (Jura?) Ele falou assim mesmo?
– Klar! (Claro) E explicou: Você dá o anel pra ela hoje, amanhã ela arruma um que come ela bem gostoso, ela te dá tchauzinho e ainda leva o anel... Mas se você comer ela bem gostoso sem tratá-la bem, ela um dia arruma um que a respeite por que ninguém gosta de ser maltratado por mais bem comido seja. Então vai pra casa e capricha, mei liaba! (meu querido)
– E se você fizer isto e ela te trocar por um outro que dá muitos anéis de brilhante?
– Foi o que eu perguntei e ele me disse: Te trocar por outro com mais grana, mesmo sendo respeitada e bem comida? Então é mau caráter e já vai tarde, mei liaba! (meu chapa!)
– E o que você fez?
– Fui pra casa e mandei ver! Depois da transa até me desculpei por não ter trazido o anel e sabe o que ela falou?
– Wos? (O quê?)
– "Ah, pra quê um anel de brilhantes? Bobagem, amor, não quero mais não... ". E nunca mais falou sobre isto.
– Na, Wahnsinn! (Não, que loucura!)
– Echt Wahnsinn! (Loucura mesmo!)
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*Pequeno dicionário de gírias vienenses:
vastehst = verstehst du? = você entende?
Des is a Wahnsinn = Das ist ein Wahnsinn = Uma Loucura, Doideira.
I waß des ned = I weiss es nicht = Eu não sei
Waib = Weib = Fêmea, Perua
Des is ka Scherz = Das ist kein Scherz = Isto não é piada!
Ka Ahnung! = Keine Ahnung! = Não tenho a menor ideia!
Burli = Bursche = Guri, Garoto
Mei liaba Freind = Mein lieber Freund = Meu querido amigo, Meu chapa, Meu "cumpadi"
**Beuschel= Prato com miúdos de porco. Veja mais sobre o Beuschel na crônica: Curtindo a praia errada