28.01.2010

Cap.33_ Esmalte Colorama diz Adeus

Sempre usei este espaço pra postar coisas bem humorardas sobre a minha vida como brasileira no exterior. Hoje pela primeira vez publico uma crônica triste que em sua versao original foi uma carta dirigida á minha familia e entre outras coisas, exprime a dor de estar ausente quando alguém querido morre e a impossibilidade de se locomover rápido e estar presente para a despedida. Tendo em vista que os enterros – ao contrário daqui que demoram até duas semanas – acontecem no Brasil em no máximo 24 horas. Escrever ás vezes é tão necessário quanto sentir.

Cap. 33 _ Esmalte Colorama diz Adeus

Ela vinha toda bonitinha, sempre de vestido estampadinho e sempre bem passado, batom vermelho combinado com as  eternas unhas vermelhas que eram refeitas por ela própria todo domingo com esmalte Colorama durante o "Fantástico". Dobrava um pouco os joelhos, esticava os bracos para frente e franzia a boca em flor:
"Levanta pra dar um beijo em tia Marininha por que ela já vai trabalhar!". Eu repleta de 18 anos, fugida de casa, dormia no chão da sala, acordava com a cara amassada sem entender nada. O perfume dela entrando nas minhas narinas acompanhado de um sonoro beijo era a certeza de um novo dia.
Minha tia maravilhosa, humana, equilibrada. A vida inteira rodeada de rituais que lhe fazia viver dançando sem nunca ter sido bailarina. De manhã, a reza ainda na cama, Cidinha Campos no rádio era consumida junto com o café com leite & pão com manteiga. Depois vinha o banho com sabonete Lux, Colgate nos dentes, Minancora nas Axilas. A escolha do vestido do dia, as maquiagens... E lá ia ela com os beijos da sobrinha no rosto, tomar condução, bater o ponto, ir pra faculdade... Sempre em busca de mais saber, de mais viagens, de mais vida além do cotidiano. Batalhando a realidade pra viver o sonho de viajar.
Enquanto eu delirava na viagem de ser modelo, ser famosa, titia não delirava, titia vivia a vida da melhor forma possível sempre com os pés no chão e o humor nas alturas. Quando eu era pequena e morava com vovó, me lembro bem quando ela chegava do trabalho toda contente, fazendo piadas, alegre, feliz. Eu dos meus olhos grandes ficava encantada, parecia que o dia ia nascer de novo. Me apresentou o maravilhoso mundo de Monteiro Lobato por trás das capas duras verde-musgo. Agente, a gente, à você, á praia, por que? porquê? Titia ensinava o porquê dos por ques e sempre fez questão que seus sobrinhos falassem português corretamente.
Titia morava sozinha e nunca conheceu a solidão. Os sobrinhos, seus filhos; o trabalho, um fiel marido; as excurssões, um bom amante. E assim a vida era uma valsa em que ela rodava, rodava mas tudo ficava no seu lugar. Cada acorde, seu tempo; cada tempo sua melodia.
Briga entre mãe e filhos? Titia era a missionária da paz. Foi até São Paulo de ônibus, se hospedou na nossa casinha humilde pra conversar sobre a nossa vida, Eu e meu irmão viviamos deliciosamente perdidos na Paulicéia desvairada. Veio para conversar. Acordou de manhã e repetiu o ritual de sempre: Colgate, Lux, Minancora, batom vermelho, vestido florido. Sentou desconfortável com toda a pose que possuia nos nossos almofadões esparramados pelo chão. Se preocupava com a gente, com nosso futuro. Queria saber pra poder entender. A gente não entendia nem queria entender. "Futuro? quando chegar lá eu resolvo, tia!" E ela aceitava, entendia, acariciava meus cabelos e apoiava a cabecinha no meu ombro. E este ritual com o passar dos anos substituiu muitas palavras. Ela chegava perto e apoiava a cabecinha no meu ombro, cada vez mais doce, cada vez mais compreenssiva, cada vez mais divina. Sempre com o mesmo cheiro: Colgate, Lux, Minancora. A vida é feita de coisas singelas, coisas estáveis e duradouras. Um colorama novo à cada "Fantástico". A beleza de cada dia em um vestido florido. Um leite de rosas no pescoço e tudo faz sentido.
Eu fui em busca dos meus sonhos: Madrid, Paris, Londres, Milão. Conheci acimas e abaixos. Enquanto isto tia Marininha construia a sua vida no ritmo das Valsas, sem vertigens. Colgate, Lux, Minancora. Segunda, Terça, Quarta. Janeiro, Fevereiro, Março. Figueiredo, Tancredo, Sarney.
Ela nunca sonhou que um dia chegaria lá. Lá aonde todos querem. Titia passou no Concurso! Titia subiu de posto! Titia conseguiu um emprego melhor! As excurssões de Guarapari aumentaram para Sete Quedas, Maceió e agora Buenos Aires e finalmente Europa!
Titia se agarrou o quanto pode ao seu estilo de vida. os Colgates, Luxes e Minancoras cada vez mais esprimidos entre Cliniques, L'óreal e Lancômes. A manicure da Moreira César só trabalhava com esmalte importado. Ela duvidava e olhava as unhas tentando gostar: "Com Colorama acho que ficaria melhor". Uma nova melodia entrava despercebida no universo de Marininha e ela se esforçava pra acertar o passo. E mais dinheiro e mais excurssões. Thailandia, Africa do Sul, Japão. E Viena, é claro,
– Mas tia, no mesmo dia Naschmarkt, Schönbrunn, Stephansdom, MuseumsQuartier e à noite valsa no Kursalon?
– Sim, mas eu vou largar tudo pra ficar com você!
E fomos ao Café Central, passeamos pelos becos do primeiro distrito, Maridão lhe mostrou coisas que não estão em nenhum guia turistico. Ela ficou encantada, a vida no ritmo que ela gostava. E no dia seguinte toca pra Praga, Budapest, Krakau, 10 cidades em 14 dias, mil desejos em 24 horas. E entre uma viagem e outra, era mais gente precisando da ajuda que ela dava cada vez maior, cada vez mais frequente, o filho da irmã da empregada que precisa ir ao dentista, a prima da tia-avó que nao tem aposentadoria. A vida se atropelando no próprio sucesso. E mais metros quadrados. Titia comprou apartamento em Búzios. Titia comprou casa em Penedo. Titia tá bem, tá ótima, tá eufórica.Titia tá mal, tá péssima, tá internada. Titia vivia correndo, vivia buscando o que já tinha encontrado sem saber que daria muito pra perder tudo e ter de novo tempo pras rezas, Cidinha Campos, Colgate, Lux, Minancora. Mas a música era sem ritmo, o pé não acertava o passo. As emoções aprisionadas numa cadeira de montanha-russa. Daí a cabecinha começou a ficar cansada. Nas esporádicas vivências que tínhamos, a cabecinha apoiava-se cada vez mais pesada no meu ombro. Apoiava e ficava como se disesse: estou cansada, agora sou eu que não entendo nada, que não quero entender mais nada, cuida de mim... Eu a cheirava como se procurasse os vestígios da identidade. Colgate, Lux, Minancora? Tia, Mãe, Amiga!
O torpedo me alcança no meio do Prater: "Titia se foi". Um cenário mais bucólico impossível. Em cima o céu branco da neve que cairá, embaixo, o chão branco da neve caída. Labirintite visual. Me agarro nas árvores como referência do real. Minha respiração é o único barulho numa paisagem sem fim. A bota afundando na neve. As lágrimas fazendo minúsculos buracos na superfície (do céu? da terra?). Volto pra casa. Espalho suas fotos pelo tapete, suas cartas. Por que eu não estava lá no Natal? Ou mês passado? Ou ontem? Por que eu não estou lá hoje?
Agora ela se foi e só me resta cuidar bem da tia Marininha que ficou dentro de mim, de tudo de bom que ela me passou toda a sua vida, teu bom astral, tua inteligência, simpatia, carisma e bondade infinita.
Lá fora a neve finalmente cai e imagino tia Marininha suspensa no ar, dançando entre os flocos. Colgate, Lux e Minancora transpiram na atmosfera. E ela livre, leve, como a baliarina que sempre foi, dançando a vida. Vestido florido tremendo no ar, unhas Colorama piscando no espaço. Um acorde depois do outro. Melodia, corpo, espaço. Cada coisa no seu lugar, tudo no seu tempo. Alles Walzer!* 
Mas já chega titia, agora entre e fique aqui comigo, lá fora está muito frio e eu estou tão sozinha, fica comigo, prometo cuidar de você muito bem dentro de mim.
*Alles Walzer= "Todos valsando" Com esta frase dita pelo Mestre de Cerimônias,  sempre se começam os bailes da Áustria. É a ordem para a orquestra começar a tocar e os convidados começarem a dançar.