18/05/2010

Cap. 34_ Festa do exterior

Ás vezes gosto de sair sozinha, encontrar minha "thurma" de brasileiros, falar besteiras, jogar conversa fora na minha língua...E tem que ser no dia que eu estiver descansada, as criancas saudáveis, maridão sem muito stress, ou seja, vários fatores que só se encaixam muito de vez em quando. E quando isto raramente acontece, pra mim é tipo Reveillon, tipo Brasil venceu a copa, terça-feira gorda de carnaval! Cadê os fogos? Liga pra todo mundo, passa e-mail, batom, chiclete, dinheiro, handy, tá tudo em cima? Bota aquela música da Marisa Montes. Chama a Carminha! Qual modelito? Minha cabeça fica á mil! Totalmente eufórica! Igualzinho aquela piada da Palestra sobre a frequência das relações sexuais:
O palestrante pede á platéia para levantar o braço quem tem relações sexuais todo dia: alguns levantam. Duas vezes por semana: a grande maioria levanta. Uma vez por mês, levanta mais um punhado, Bimestral, Trimestral: Ninguém se manifesta...O palestrante já querendo voltar ao assunto em questão, pergunta nem esperando ter resposta: "Uma vez por ano?" Um cara lá do fundo da platéia se manifesta, todo feliz, sorridente, pulando e aos berros: "Eu, eu, eu aqui, yuhuuu!" Todos intrigados, ninguém entende a felicidade do sujeito. O palestrante pergunta: "Me desculpe a curiosidade mas se o senhor só tem uma vez por ano relações sexuais, por quê o senhor está assim tão alegre? E o cara responde todo feliz, sorridente, pulando e aos berros: "Por que é hoje! é hoje!"
Não quero dizer com isso que saio á noite pra ir à caça, nada disso, pois já sou muito bem caçada em casa (é com ceçidilha mesmo!). Quero mesmo é me divertir, encontrar amigos, rir das coisas que só nós, brasileiros, achamos graça.
Enfim, munida deste astral-fogos, coloquei Thuthuzinho pra durmir e fui me despedir de Thadeuzinho que estava na cama lendo com o papa:
– "Mama, num vai não, fica aqui comigo..." Puxando minha blusa e desarrumando o modelito que levei horas pra montar.
– Meu amor, mama já brincou com você, deu comida, leu historinha, agora você fica com papa aqui por que mama vai cair na gandaia, tá?
Beijei-lhe a testa e enquanto eu dava um beijo todo "especial" no papa, ele quis saber:
– Mama, o que é isso "gandaia"?
– Pede pro papa que ele te explica direitinho, tá? Agora mama tem que ir...bussi, bussi! (beijinhos).
Enquanto abria a porta pra sair, escutei maridão tentando explicar o termo: – Gandaia é um bicho de sete cabeças muito comum no Brasil..." – Coitado do guri não vai pegar no sono tão cedo.
Cheguei animadérrima, cumprimentei todos com beijos e abraços, falando alto, gesticulando, dando gargalhadas. Eu percebia os olhares tipo "Que mulher histérica! Que pirúa doida" e eu nem aí! Não estava lá pra agradar aos outros, pra conseguir nada nem muito menos pra caçar ninguém. Estava pura e simplesmente a fins de me divertir, desligar do meu cotidiano estressante de mãe de dois "pestinhas" por algumas horas. Poder falar o que quiser na minha língua, com quem eu quiser, bebendo uma cervejinha, dançar um pouco...pô, quem é mãe sabe o que isto significa: é luxo total!
E festa brasileira em Viena tem de tudo. Desde faxineira e pedreiro até embaixadora e cientista da Siemens. E é esta mistura que dá o toque especial no lance. No Brasil uma festa assim é quase impossível. Até em Salvador no carnaval de rua tem a tal divisão arcaica de "castas": Trio elétrico pra rico e pra pobre, trio só de branco ou só de preto! Se não tem a tal camisetinha não entra...
Em Viena tem a que veio trazida pelo namorado austríaco, o outro que veio com contrato de trabalho, a outra que veío passar uns dias e ficou até hoje (eu!). Campinas, Niterói, Aracajú, Porto Alegre, Passo fundo, de Norte à Sul do Leste à Oeste.
Fui apresentada à Marilene:
– Faço escova definitiva, depilação efetiva.. toma meu cartão, passa lá em casa pra tomar um cafezinho...
– Cafezinho eu não tomo mas o dia que tiver um feijãozinho preto cê me avisa que eu vou correndo, tá? Precisa ser feijoada não, qualquer linguicinha do Wurststand (Barraca de linguiças) tá bom!
– Haha! Deixa comigo. E você faz o quê?
– Eu? Eu... provoco risadas temporárias, bom humor permanente... Passa aqui no meu site – escrevi no guardanapo– pra comer um strudel...
– Como assim?
– Vai lá, vai lá! Enfiei o papel na mão dela e fui me afastando oferecendo braços e sorrisos ao próximo amigo:
Mendes que eu não via á tanto tempo:
– Tu sabes, o mercado financeiro está em baixa, não rende mais aplicações no open, tu sabes, o negócio é investir em fundos de pensões...
– Cê me dá licença que eu vou pegar mais uma cerva...– e sai de fininho
O Samba do Deejay fazia bater mais saudades da terrinha. Tipo fundo do Baú. "O que será do amanhã, o que vai ser do meu destino..."
Cínthia chegou na roda cheirando à sabonete (ela toma dois banhos por dia!) com seu lindo sorriso dendê:
– Ó, xenti, isso é muito peba, num sei dançar isso não, só sei é axé, forró... mas essas cóisas do Rio di Janéééro, sei não! Massa teu trancilim, Lina.
Cutuquei Amaro:
– Que qui é qui ela falou, cumpadi?
A batucada comeu solta, digo completamente solta. Tipo ritmo "free jazz style". desacertando a gente acerta ou algo do tipo. Cada um fazia seu próprio ritmo na bateria e todo mundo junto dava um desacerto acertado. Eu também me "desacertei" toda na dança.
Saraiva sempre de bom humor, seja bateria de austríaco ou da mocidade independente, ele sempre tem o melhor adjetivo nos lábios:
– Fantástico, fantástico!
– Saraiva, dá um tempo, venhamos que convenhamos, há coisas que não se comparam...– E embrenhamos numa animada discussão sobre a absurda comparação.
Tocou forró e Mariana (paulista) se animou toda. Amaro (pernambucano) puxou-a para dançar. Voltaram depois de 2 minutos. – O que aconteceu? – Eu quis saber.
– Pô, "meu", num sei dançar isso não, meu forró é universitário, "meu".– Mariana saiu indignada.
– Essa minina, cabra da peste, num sabe u qui é forró! – Amaro me puxou pelo braço
– O forró tem vários tipos...– Me encaixou no corpo dele
– Este aqui, ó... – Sua mão nas minhas costas me segurava enquanto a outra dava a direçao do passo –
_ É o forró Xaxado, que vc vai pra lá e pra cá....... – Me jogava como um boneco, E a cerveja revirando no meu estômago...
– Peraí, brother, num tô conseguindo acompanhar... – Ele continuou empolgado,
– Tem este aqui que é o Xote puladinho – acelerou o passo e me senti a própria britadeira elétrica furando o asfalto!
– Mas já este aqui – Encaixou sua perna entre as minhas e me puxou mais ainda pra perto dele – Geléia de mocotó se sacudindo no prato.
– É o forró pé de serra. Cê tem que se entregar, bichinha, sinão a gente num acerta o passo...
– Pára, Amaro, piedade! – De repente escuto um berro:
– LIIINAAA! Que bom te ver, quanto tempo! – Janaína apareceu na hora certa pra me salvar.
– Pirúa, cê sumiu! E aí? Novidades?
– Tenho sim, feche os olhos! – Janaína segura minhas duas mãos e me faz acariciar algo redondo, macio, firme.
– Janinha, não acredito! – Abri os olhos e pude ver o resultado "saltando" pra fora da blusa arrochada – Tá lindo, arrazou! arrazou! – Sem perceber, eu continuava acariciando os peitos dela e dizia invejada:
– Eu também quero! Eu também quero! – A festa inteira observava a cena, os olhares dizendo: "Além de doida, sapata tarada!" .
Austríacos solitários que vieram caçar "produtos importados" formam um círculo á nossa volta. Suas caras são de crianças vendo um sorvete enorme cheio de bolas com sabores exóticos. Caio fora do cerco, puxando Janaína pelos peitos, digo: braços.

Zé Paulo me apresentou sua filha. Uma jovem e sorridente morena com seus quase 20 anos.
– Tô voltando amanhã pro Rio.
– Nossa! Você só vê teu pai só de vez em quando...
– Só uma vez por ano, eu venho para cá ou ele vai até lá.
– Zé Paulo, como você consegue viver á dez mil quilômetros de distância da filha? Você não morre de saudades?
– Quase morro. Mas ela tem a vida dela lá e eu tenho a minha vida aqui...E assim é a vida, Lina...
Foi pancadão. Fui lá pra fora respirar ar puro, era muita verdade pra minha cabeçinha inocente de mãe em início de carreira.
Resolvi sair á francesa. A cerveja já tomada, o papo consumido, sorrisos recebidos e distribuidos. Os pés já doendo de tanto "Requebrado".Beijos, abraços e cheiros. Tato, visão, olfato, paladar, audição. Todos os sentidos foram aguçados e recalibrados. Tá de bom tamanho. Cheguei em casa, corri para o quarto das crianças. Os anjinhos dormiam tranquilos. Beijei-os e fui dormir feliz em saber que a distância entre nós é só de alguns metros. (Ainda!)
Foto: Fernanda Nigro

Agradecimento: Aldonso Chaves pela aula de Forró!

2 comentários:

Tati Pastorello disse...

kkkkkkk
Não dá nem para imaginar o que é a saudade do Brasil para você. Bom estar perto dos filhotes, dureza pensar que um dia eles voam... ai, quando penso nisso dá um aperto...
Beijos.

Anônimo disse...

vc e um verdadeiro barato! sempre leio o seu blog e me divirto muito! inteligente e original sao os adjetivos que tenho pra vc! bjs linda! Thaty