14/02/2009

Cap.32_dois tipos iguais de pessoas diferentes

no brasil, existem dois tipos de pessoas: aquelas que adoram carnaval e aquelas que odeiam carnaval. e como a folia é a festa maior, mais esperada e mais desejada na terra do samba, quem odeia tem que fugir. fugir pra bem longe, de preferencia para o exterior, para a europa, por exemplo pra austria, mais especificamente pra viena. te garanto que é terreno seguro, é carta branca. por que no brasil se você odeia carnaval, você tem que fugir, aqui na austria se você adora carnaval você tem que procurar por ele desesperadamente e a possibilidade de encontrar é tanto quanto a agulha no palheiro. o carnaval aqui se chama fasching e nada tem a ver com o que voce já viu. nao acredita? aqui o ponto alto da folia é o baile da ópera aonde só vão milionários e famosos e além de fecharem os contratos mais importantes de negocios entre uma champagne e outra, dancam valsa a noite inteira. o resto do povao, gruda na tv pra assistir ao "desfile" de longos e smoking. na carinthia tem o famoso villachfasching onde um mané passa a maior parte da "folia" contando piadas politicas no palco. fora isso nem rastro de mulheres nuas, tambor, bumbo, cuica, bebedeira, gritaria, putaria. a vida corre normal. dai no primeiro ano, voce que odeia carnaval, adora, deita e rola e acha viena o verdadeiro paraiso. no segundo ano, chama todos os teus amigos anti-folia pra te visitar nesta época. no terceiro, quarto já se acostumou com o frio, o silencio, a a cara fechada (de sempre) da galera. lá pelo quinto, sexto ano, quando vai chegando a epoca, voce comeca a ter aquela sensacao estranha de um certo vazio e nao sabe bem o que é. de repente se dá conta que já está há duas horas devorando o site do globocarnaval e se deliciando lendo sobre a luma e sua calcinha. um amigo austriaco, liga todo animado querendo te carregar pra uma festa de "karneval" du bresil. você explica pra ele que não é destas coisas, que não é chegado(a) a isto e sai fora. desliga o telefone pensando: imagina você e tua reputação, o que os amigos brasileiros falariam, seria um sarro pra carregar por toda a vida. mas fica curioso(a), imagina como seria a bateria tocada por austriacos e resolve dar uma passadinha pra ver qual é. e chega lá, vê aquela maquete de mulatas desbotadas com fantasias mais desbotadas ainda. dá uma tristeza. mas daí começa o batuque e por mais capenga que seja, te dá um frio na barriga, o pé parece meio esclerosado mexendo assim sem comando. mais um golinho de cerveja (skol que você odiava lá e aqui bebe achando um luxo!). os ombros se soltam e vão pra frente e pra trás, a cintura acompanha, a bunda também quer e chegando nas pernas o pensamento já está concentrado em lembrar o passo: como era mesmo? uma perna vai pra frente e pra trás enquanto a outra... opa! chega um conhecido e cai na gargalhada: " o quê? você por aqui?! você se contrai todo(a) e mente: "só dei uma passadinha pra tomar uma cerva mas já to saindo batido(a), tchau". no ano seguinte você dá uma sondada discreta pra saber se vai ter de novo a tal da festa e vai com vontade, se deixa até levar pelas mulatas com as mesmas fantasias cada vez mais desboatadas, finge não ver que o puxador do samba lê a letra no papelzinho.o cara afinal é gaúcho e especialista em bossa nova. mas tudo ótimo, você tá animadona (ao), acha tudo lindo, morre de rir com a coisa toda tao mambembe e não tá nem aí pra tua reputacao. entre o sétimo e decimo ano de austria voce resolve que o mais importante não é dezembro e sim fevereiro no brasil. vai no sambódromo, se acaba em uns 10 blocos diferentes, encomenda até fantasia, sai na escola de samba, tua mãe quer te levar pro psicólogo ("você nao era assim, o que aconteceu?"). e a coisa vai de ano em ano piorando (ou seria melhorando?) conclusao: depois de 20 anos de austria voce consegue se arrepiar toda(o) com qualquer sambinha na caixa de fósforo, manda e-mail pra galera avisando: "atencao, pessoal, o carnaval é tal dia, tal lugar, espero voces lá, hein". abre uma comunidade na orkut: carnavalescos em viena, funda uma sambaschule (escola de samba), oferece um workshop: "aprende a sambar num final de semana!", organiza um matine pra criancas com concurso de fantasias e por ai vai... você acha piada? tenho exemplos reais que te confirmam este fato. é um fenômeno muito comum e altamente compreensível. por tudo isto, te digo algo sério: se vc quer continuar a ser um antifoliao(ã), não venha para a austria, continue no brasil, continue morando lá, de preferencia no rio, por exemplo em ipanema, mais especificamente ali na praça general osório e te digo mais: na época do carnaval, te aconselho a se afastar no máximo uns 200 metros da tua casa, por que quanto mais você se afastar, mais perigoso...

um outro exemplo vivido com meus próprios olhos foi naquela época dos anos 80, ela veio de brasilia pra sao paulo, não vou citar o nome por discreção, amiga dos paralamas, empresária da plebe rude, intima de renato russo e só andava de preto. era dandie, dark, punk e tudo o mais. nem preciso dizer: antifoliã assumidérrima! foi morar em londres, ela e suas olheiras, trocou a legiao por suede, dinho ouro preto por brett anderson, o madame satã por the fridge e depois de alguns anos de fog, pubs e fish and chips, em pleno julho, olhava desinteressada a parada da portobelo road, passou um grupo da jamaica, depois de cabo verde e de repente foi se aproximando aquele ritmo tão familiar que um dia fora tão onipresente e odiado na vida dela, o ritmo foi chegando, ela abriu um sorriso, as mulatas balançando, ela achou graça, a bateria acompanhando, ela se soltou toda, a galera londrina se sacudindo atrás e pra fechar a ala brasil: um carro alegórico com nada menos que emilinha borba em cima, toda de azul, iemanjá em si, minha amiga pirou, levantou os braços, correu ao encontro dela e gritou pra cima do carro, "emilinha, emilinha, eu adoro você!" e caiu no samba. depois daquele dia ela nunca mais foi a mesma...

recado para o resto da galera brasil: o mesmo fenômeno pode ocorrer com afoxé, forró, xaxado, xote, maracatu e afins...

9 comentários:

Gisele Moura disse...

Que bom que estás de volta. Emilinha Borba eu te amo é um pouco de exagero. Acho que para mim demora um pouco para comecar a gostar de carnaval. Até dar este tempo já estarei de volta a minha terrinha. Fiz um link para vc no meu blog. Beijos. Gisel.

Gilberto de Abreu disse...

querida lívia,

como queria que vc estivesse por aqui nesse finde que passou? teve bloco do ingá, e as 35 mil pessoas que foram até lá acabaram lotando, obviamente, toda a praia de icaraí. gente rica olhva da janela, gente pobre desceu da favela. gente média e solta, tipo eu e vc, botou qualquer roupinha e foi gandaiar. a praia de itapuca virou mijódromo oficial da galera. banheiro químico, nem pensar... marchinha de carnaval tocaram umas quatro ou cinco... o resto era bahia. tira o pé do chão!!! na dúvida, tirei. melhor que ser mijado sem pedir... terminei a folia em frente ao clube central. achei a esquina familiar e pum! sída de emergência pela esquerda. já na esquina da moreira, nenhum sinal de folia... descobri que não preciso ir à viena pra fugir de carnaval... e fiquei pensando que o campo de são bento, meu, seu, de nossos filhos e netos, ainda é um lugar silencioso... fantasia vencedora: proctologista, com dois dedões gigntes, feitos de espuma, oferecendo exame de graça... não sei se o dignóstico era dado na hora, mas tinha um monte de gente querendo dar... ah isso tinha... love u. gil.

Livia Mata disse...

gisele querida, você está fresquinha, acabou de chegar, a gente conversa sobre isto daqui há uns 10 anos... (mas acho que no seu caso, em 5 anos, se voce continuar no pedaco, vou te encontrar com certeza aqui por exemplo:
http://www.youtube.com/watch?v=tGyUqYUQMME&feature=channel_page

gil meu amor,
além das fotos da praia com o cristo, você me manda um relatório completo da agitacao nickitinhense de carnaval, ai, dói, gilzinho mas fico feliz em saber que vc se divertiu! me aguarde querido, daqui há uns dez anos estes guris crescem e vao seguir seus caminhos, irei me submeter a um redesign geral (lipo, botox, plasticas) e me candidatar a madrinha da bateria de... de...qualquer bloquinho que me aceitar tá bom! beijos, li

Elisanbro Saldanha disse...

bah!! muito bom!
gaúcho no samba! hehhe

Livia Mata disse...

transcrevo aqui o comentário de uma amiga baiana:
"viva a saudade de muita folia! como boa soteropolitana adorava o verao em salvador que sempre foi sinonimo de carnaval, MAS isso antes da explosao de camarotes e o carnaval empresarial turistico de hoje...(uma pena!!) minha "tchurma" comecava com a lavagem do bomfim com alguma batucada tipo a do brown (qdo ninguem ainda o conhecia) depois a do rio vermelho com feijoada na casa de alguem que voce nem conhecia, depois a lavagem do habeas corpus na barra, a mudanca do garcia (ate hoje super!), a sexta-feira subindo a ladeira do pelo e no sabado subindo com o ile aye a ladeira do curuzu...voce encontrava todo mundo depois no fim da noite em um bar (estacionamento) que ficava na boca da praca castro alves...era o maximo e ai fugir p algum lugar no domingo! com a explosao do turismo carnavalesco o "povo que conheco" em salvador saia nos mascarados coma meg e ficavam correndo p organizar alguma festinha na casa de amigos antes de fugir...agora na sexta-feira pq Ile e olodum ficaram mesmo na saudade! e depois de mil anos de alemanha, austria e atualemente morando na china confirmo tudo que voce falou, me arrepio todinha ao ouvir a batucada de um grupo de chineses que se chama "sambasia"....o pessoal eh legal (confesso) mas eh puro desespero de uma alma carente!!!!!!! curtam o carnaval gente, agora e nao importa aonde voces estejam!! eu mesma vou com amigos p um baile "fashing" num bar alternativo de pequim e quem estiver por aqui que me siga! beijos de pequim especiais p voce e p dorissima! RITA

Alex Mata disse...

é isso aí Fidica!
tem gente que acha que não gosta de carnaval, fica se autosugestionando para não gostar, mas na realidade isso está dentro de todos nós brazucas, a mais bela mistura de etnias que conheço na face da terra. Alguns precisam mesmo ficar longe para dar valor, ontem mesmo estava vendo uma entrevista de um carnavalesco de escola de samba que é psicólogo(esqueci o nome dele, está sempre no programa da Leda Nagle) e ele estava analisando o comportamento carnavalesco baseado em Freud, muito bom mesmo e o recado foi para agente em vez de colocar máscara de carnaval, deixar cair a máscara da vida real e cair na folia sem remorso, soltar a franga mesmo pq faz muito bem.
queria mesmo que vocês estivessem aqui, vamos p saquarema e lá tem um bloco maneiro perto da casa de Tia Zezé
mil beijos
p todos e tentem sambar por aí..... mesmo com samba desafinado.... o importante é mecher as cadeiras
ah antes que eu esqueça... especificamente é com s e não com x
mais beijos
Alex

Livia Mata disse...

obrigada mano, vou corrigir.
mas antes que eu me esqueça: mexer é com x e não com ch!

vanessa noronha disse...

Demais Li!
Eu sempre fui eclética, gosto mesmo da muvuca.Samba, Pagode Axé, Forró... Sempre fui doida pelos ritmos brasileiros. Se bater uma lata me sacudo e aqui entao, pirei de vez!
3 anos de Austria e agora me achei, a turma orkutiana que conheci é pra lá de loucos, e olha que só estao aqui por 3, 4 anos em media. Imagina com 20 anos de Austria?
Imagina, hoje Austriaco toca samba e no futuro quem sabe a loucura ultrapassa os limites e Brasileiros, cantarao samba em alemao com acompanhamento austriaco. KKKK. Poe Loucura nisso em amiga? Mas o que vale é ser feliz. As águas vao rolar...
Beijinhos

Daniel Burnier disse...

Meu sentimento é diferente: A cada ano que moro na austria fico mais feliz por nao estar no brasil durante o carnaval.