22.02.2008

Cap. 31_ Pretinho básico ao leite de côco.


Eu encostada na parede com meu modelito mais original e extravagante do possível e imaginário. Seguindo o lema: "Sou assim e já mostro logo!". Ao meu lado esquerdo, homens, rapazes, de idade indefinida, cada um com seus respectivos óculos quadrado de aro preto e o velho truque da combinação calça jeans com blazer. Pura falta de personalidade fashion. Ao meu lado direito, a porta. Eu sou a próxima. Frio na barriga. Olho minhas unhas vermelhas com esmaltes descascando. Deixa pra lá, Lina, é moderno! O que alguns anos de análise não fazem... Até pra unha descascada eu encontro um "way-out". Zezinho se orgulharia de mim agora. Será que ele sabe que o apelido dele é este? Pô, mas se ele fosse analista no Rio, com certeza ele colocaria no cartão de visitas dele "Dr. Zezinho" ao invés de "Herr Diplom Psycho blablá Joseph". Pois se até Governador se chama Garotinho...
– Frau Mares? – Ui, sou eu!
– Entre por favor. – a mulher vestida num pretinho básico tamanho 36(!) segura a porta para eu entrar. Mãos se cumprimentam: Grüß Gott, Grüß Gott (= Salve Deus ou algo do tipo!). Sentamos. Ela passa os olhos rapidamente pelos papéis.
– Frau Mares, o que a senhora sabe fazer?
– Ihhh, tanta coisa, por exemplo: Um ensopado de galinha com leite de côco que é uma delícia!
– Mas Frau Mares, nós estamos aqui numa entrevista para o cargo de Designer-Gráfico/a...
– Ué, mas se a senhora quer saber sobre os meus poderes gráficos, tá tudo aí nos papéis.
– Hum, hum, ok! - Ela retorna o olhar um tanto atordoada para os papéis – Quais eram as tuas tarefas no último emprego que esteve.
– Naquela revista semanal? Ah, era fazer meus colegas rirem!  – Ela tira os óculos quadrado (lógico) de aro grosso (óbvio) preto (existe outra cor no mundo?) e me encara.
– Pensei que era diagramadora...– Ironia e irritação na voz.
– Ai, aquele povo todo cinza que consome 2 maços de cigarro por dia, curvados nos monitores... Ui, era uma chatisse! Eu chegava lá e chamava todo mundo de Schatz (tesouro), botava uma bossa-nova básica pra alegrar o ambiente e ia logo falando um bom dia bem alto, distribuindo uns tudo-bem e tudo-bom, daí contava uma piada...
– E quando a senhora começava a trabalhar?
– Minha senhora, escuta aqui, você ainda não percebeu o trabalho que é se vestir, se maquiar, se fazer bonita e bem humorada, sair no frio com um céu cinza escuro te pressionado na cabeça pra levantar o astral de cinco austríacos completamente entediados pela vida e pelo trabalho?
– Mas eu achei que a senhora foi contratada como Diagramadora e não como animadora de repartição!
– Mas eu já te falei que tudo o que eu posso está aí nos papéis. A senhora me chamou pra esta entrevista pra quê? Pra me conhecer pessoalmente, pra conversar, oder? (= ou o quê?) Pois é o que eu estou fazendo, estou te contando a parte agradável da minha experiência de trabalho. Não vá achar que está faltando um parafuso na minha cabeça mas... – Ela me interrompe.
– Parafuso?
– Desculpa, usei uma expressão bem Brasil. Quero dizer, em alemão vocês diriam que ela (eu!) "não tem todas as xícaras no armário"
– Ah, so! (= ah,tá!)
– Pois é, eu falando sinceramente com a senhora, – Coloco todas as pontas dos dedos na cabeça aproveitando a ocasião para ajeitar o penteado "out of bed" – tenho todas as xícaras na minha cuca, digo armário, mas nenhuma é igual á outra, sabe?
– E o que tudo isto tem a ver com... – Ela está pasma, perdida, me olha como estivesse vendo um extra-terrestre.
– Acho que errei na dose... – Penso alto.
– Dosis? Aonde a senhora aprendeu alemão?
– Ah, isto é outro Kropf! (= papo)! Olha, vamos colocar de novo os pontos nos ís...
– Ísch? Ich? (= eu?). Pontos em mim?
– Ihhh, se a gente continuar assim, vai dar pano pra muita manga...
Ela resolveu relaxar e gozar. Se recostou na cadeira recuperando o ar de superior imperadora demonstrando estar se deliciando com a situaçao totalmente surrealista.
– Manga? Adoro manga!
E agora Lina? Ela caiu no meu jogo, perdeu a graça. È hora de voltar ao sério.
– Ou a senhora está interessada em saber que uma bendita foto de abertura era trocada quatro vezes por que a ministra estava se sentindo horroroza com o modelito de operária e resolveu interferir diretamente na minha obra de arte me ligando toda hora?
– Mas...
– Eles jogavam cada pepino pra cima de mim, nem te conto!
– Pepino? Na tua mesa de trabalho?
– Não, não. Quero dizer, eu tinha que descascar os abacaxis, sabe como?
– Ah, então você trabalhava na cozinha...
– Que cozinha? Não, peraí, vou falar em alemão claro: Eles me mandavam tirar as castanhas quentes do fogo? Entendeu?
– Ah, claro!
– Uma vez, por causa de uma palavrinha eu quase perdi o emprego por que o redator-chefe se recusou á encurtar o texto e o meu chefinho diretor de arte me proibiu de espremer as letras? E eu muito puta, rodei a baiana...
– Rodou o quê?
– A baiana, minha senhora! Fiz um "Skandal" como vocês dizem. – Ela olha no relógio nervosa e cai na real.
– Olha, a senhora vai me desculpar mas existem outros candidatos esperando...
– ... Existe lá fora um bando de gente chata e sem-graça esperando pra trabalhar nesta firma entediada com esta revista mais entediada ainda...– Sinceridade é meu forte.
– Não acredito no que estou ouvindo! – Cor facial: lourinha-camarão.
– Por quê não? É verdade! Olhe pra tua cara, pra tua boca sem sorriso. É igual a esta revista que você faz. – A mulher de boca aberta se vira discretamente para o espelho ao lado da mesa. Tenta mudar suas feições enrugadas e enpanquecadas por um semblante mais suave. Não consegue, a raiva e indignação tomam conta da imagem refletida.
– Chega! Meu nariz está cheio!
– A senhora quer um lenço?
– Não, eu quero dizer, falando num "português claro" que eu não aguento mais! Você está me botando no alto da palmeira!
– Palmeira? Aonde? Ah, A senhora está de saco cheio, é isso?
– Saco? Eu? – Ela passa as mãos na barriga inexistente–  E ainda se atreve a me chamar de gorda! Por favor, vá embora. Não tenho tempo a perder e...
– Vou embora sim. – Abro minha bolsa e na maior calma, coloco os papéis de volta– Tem um monte de outros candidatos lá fora, prontos e engravatados com experiência no exterior, com prêmios ganhos... – Fecho a bolsa, levanto ajeitando a saia – e um deles vai ganhar este emprego tedioso nesta revista entediada. – Arrumo a pregadeira no cabelo – Eu não, vou sair por aí, – Jogo as pontas do lenço amarrado no pescoço para trás, requebro os quadris para a esquerda– entrar num café e ligar prum amigo, jogar conversa fora com a garçonete...
– Jogar conversa fora?
– É. Falar linguiça, como vocês costumam dizer.
– Você é louca!
– Eu sei, sou completamente biruta e é disto que você precisa! De gente doida pra mexer com a vida desta empresa. – Dez pontas de dedos ajeitando o "out of bed", olhos entre rímel e sombras cintilantes percorrendo as paredes brancas – Ou todos os empregados que a senhora tem são 100% eficientes e perfeitos?
– Não mas quase...– Interrompo a lourinha–camarão–queimado.
– Rodeada de eficiência e perfeição! De robôs sem alma nem humor, coitada da senhora... Mas te digo uma coisa, já que eu não vou mesmo ganhar este emprego. Este pretinho básico ficaria muito mais bonito se a senhora colocasse uns balangandães coloridos no teu pescoço, um cintão bem grossão de couro trançado...  – A mulher de boca aberta olha para o próprio corpo – Soltava estes cabelos, fazia um corte decente, tirava este permanente horrorozo... – Ela passa as mãos nos cabelos. Os olhos saltando pra fora dos óculos (de aro preto e quadrado, é lógico!) – E quanto á revista, minha querida, sai dessa lama jacaré! 
– Lama? Jacaré?
– È, por quê você está "sentada na tinta", mané! Pegue umas Fonts (letras) diferentes, brinque com dimensões e perspectivas, abuse de cores e sabores, aliás pra tua própria vida, – Ando pela sala sem parar de falar – Pendure uns quadros neste escritório que mais parece um hospital... – Ajeito a bolsa a tiracolo coloco os óculos escuros no rosto – Enfim, vou indo, foi um prazer conhecê-la! – Estendo a mão de unhas-vermelho-descascado por cima da mesa para me despedir.
– Não, não! Espere um pouco – A mulher se levanta bruscamente empurrando a cadeira para trás, ajeita os cabelos, segura com firmeza a mão da candidata e abre um sorriso – Mudei de idéia, o emprego é seu!

Expressões idiomáticas em alemão
Expressões idiomáticas em alemão com tradução em inglês
Expressões idiomáticas em português
Ótimo artigo do "Deutsche Welle" sobre o assunto