16/01/2008

Cap. 30_ Asanas, Prayanas e Sacanas

Atenção: Qualquer semelhança invertida com a geração passada, não é mera coincidência mas sim plena ironia.

– Huuu, fuuu, huuu, fuuu.
Cheiro de incenso no ar. A mãe serena sentada no meio da sala em posição de Lotus. Inspira fundo e expira o ar em curto espaço de tempo, movendo o abdômen. Ruídos nasais. Fu, fu, fu,fu... Pranayama.
O filho de dezoito anos chega, ajeita as calças, senta-se no chão ao lado dela e espera ela terminar.
– Fu, fu, fu, fu, fuuuuuuuuuu...
– Mãe, eu preciso falar umas coisas pra você...
– O que é meu filho? – Ela abre os olhos. Ele fala tímido, olhando pra baixo.
– Eu decidi que vou estudar Engenharia.
Ela solta um alto ruído nasal.
– FUUUUUUUU? – Perde toda a compostura. Rugas verticais pipocam na testa.
– O quê? Você tá louco? Quer me matar de desgosto? Nós somos uma família de artistas, teu pai é cineastra, teu tio é estilista, tua mãe é escritora, tua avó foi dançarina performática. Daonde você tirou esta idéia?
– Ué, tô afins, mãe, eu gosto. Do cálculo, das coisas exatas, concretas, sabe?
– E chatas, né? Meu filho, por favor, pense bem. Olha, eu vou te levar lá na Universidade de Artes pra te mostrar o monte de coisas que se pode estudar lá...
Ele se levanta e alisa as calças com as mãos. Odeia calça amarrotada. Abre um pouco a janela. Detesta Incensos.
Ásanas. Ela levanta as nádegas para o teto. Mãos e pés no chão. Um "V" de cabeça pra baixo. Inspira. Expira. Huuu, fuuu, huuu, fuuu.
– Mãe, você já me levou milhões de vezes lá. Conheço todos aqueles professores birutas de cabelos esgrenhados, aquelas piruas doidas e seus vestidos cafonas.
Ela leva os braços esticados para trás da cabeça fazendo um arco com o corpo para trás.
– Essa posição eu não conhecia...
– Suryanamaskar. Saudação ao Sol.
– Ah, sei – Ele olha pela janela o céu cinza – Tá precisando mesmo. Quanto tempo demora pra fazer efeito?
– Engraçadinho!
Ela faz uma circunferência com os braços para cima. Huuu, fuuu. Encosta uma palma da mão com a outra na altura do peito. Abre os olhos.
– Meu filho, eu te levei a todas as vernissagens de artes, desfiles de moda, feiras de livros, fiz questão que você brincasse com os filhos dos nossos amigos também artistas...
– Sei, sei... Nunca me deu um Mac Donald pra comer e filme era só Nick Park e os avantgardes chatérrimos da ARTE*. Spielberg era censurado e Disney nem em pensamento...
– É claro! Pra você crescer sendo diferente, criativo... Te botei em colégio alternativo, aula de canto, oficina de pintura... E você resolve ser Engenheiro? Ai, meu Deus, que humilhação!
Ela está em pé. O pé direito com a planta do pé para cima, apoia-se na coxa esquerda. As palmas das mãos juntas acima da cabeça. Equilíbrio! Vrikhásana. Huuu.
– Ô, coroa, poderia ser pior. Economista, Marketeiro, Político, ...
– FUUUU! – Ela desaba da pose. Ele consegue segurá-la antes que aterrize no chão. – Pára, pára! Tô passando mal! – Ela tampa a boca com as mãos. Mais rugas pipocando.
– Imagina só, mãe, quando eu me formar vou poder colocar em todos os documentos e até na porta da minha casa uma plaquinha dourada: "Herr Diplom Ingenieur..." (Senhor Engenheiro diplomado)
– UUUIIIII! Que cafonisse! – As mãos tampam os próprios olhos – Não faça isto. Você quer matar a tua mãe de desgosto? Ai meu Deus, o que eu vou falar pras minhas amigas...
– Pra aquelas descabeladas maconheiras?
– É! E também sensatas, huuu, emancipadas, fuuu, esclarecidas... – De barriga para baixo, ela segura os pés com as mãos fazendo um arco. Dhanurásana.
– Pelo menos a Francisca não vai poder falar nada. Com aquela filha juíza...
– É mesmo, coitada da Francisca. Teve a filha muito nova e sozinha. Não soube criar, deu nisso: Juíza. Huuu.
– Até passou no concurso público pra promotora.
– FUUU? Jura? Que horror! Isso a Francisca nem teve a coragem de me contar...
– Tá vendo, mãezinha, poderia ser muito pior... E tem uma outra coisa que eu também queria falar com você...
Ela está ereta, mãos e cabeça no chão, pés apontando para o teto. Shirshásana. Pouso sobre a cabeça.
– O que é, meu filho?
– Sabe a Lena que veio aqui um dia ...
– Aquela descendente da família aristocrática? Bem caretinha de óculos? Sei. Huuu.
– Pois é, a gente tá namorando...
TUM! As pernas desabam no chão. O pescoço torto – Como assim?
– É, a gente tá até pensando em morar junto...
O corpo todo estatelado, largado no chão. Olhos arregalados.
– Fuuu? Você tá louco? Quer me matar de desgosto? Eu fiz de tudo pra você ser um cara moderno, esclarecido, liberal de esquerda, lutar pelos direitos dos oprimidos e agora você tá pensando em casar com esta...esta... sem graça?
– Eu gosto dela mãe, ela é simples, calma e... previsível, coisa que você não é!
– Obrigada pelo elogio. Pelo menos no humor você puxou à familia. Mas meu filho, – Ela agora mais calma, levanta e segura a mão dele – Teu pai e eu abraçamos árvore na Lagoa junto com Fernando Gabeira, lutamos pela liberação da Cannabis na Áustria, – A outra mão acaricia os cabelos dele – Organizamos Raves em Goa*... Pensa bem, não tem nada a ver ela e a familia dela com a gente...
– E daí? Mas tem tudo a ver comigo!
Ela junta as mãos em oração e levanta os olhos para o teto.
– Ai meu Buda, Hare Krisna, Rajnish e em todos que eu já acreditei nesta vida! Me digam aonde foi que eu errei com este menino?
– Dramática...
– Imagina você com aquela Bieder (Burguesa). Aposto como ela vai querer montar o apê todinho na IKEA*...
– É verdade, ela já até me mostrou umas coisas do catálogo...
– Pois é. Nossa casa foi toda montada com amor e carinho pelos Flohmärktes (Mercado das Pulgas) da Europa...
– Feiras que vendiam montes de entulhos, coisa velha e estragada e eu era obrigado a ir junto. Criança sofre!
– Eu te comprei roupas coloridas quando criança, panelinhas, fogãozinho, boneca...
– E foi ótimo, mãe, aprendi assim a ser um bom pai e a cozinhar. Você mesma adora as minhas panquecas...
Ela deita no chão de barriga para cima. Braços ao longo do corpo, olhos fechados. Shavásana. Repouso. Huuu, fuuu.
– Mas meu filho, eu tava crente que você iria se interessar pelo Conrad, aquele teu amigo bonitão que é dj e grafiteiro...
– Ele é legal mas eu não gosto de homens, mãe, meu negócio é muher!
– Mas como você pode saber se nunca provou? Além do mais, eu estava me preparando pra ter só genros! Meu filho, eu sou uma péssima sogra para as mulheres. Genro é muito melhor, não tem competição, nem fofoca, nem mal-entendidos. O Conrad é um cara tão legal, tão moderno.
Ela levanta e vai em direção ao bar remexendo o pescoço. Dor. Bota uma boa dose de Wisky no copo. Fod@-se Yoga.
– Ele é só um bom amigo, coroa!
"Mil vezes um genro bicha do que uma nora pentelha!" Ela pensa enquanto saboreia o Single Malt.
– Mas você sempre adorou brincar com todos os titios bichas amigos da mamãe...
– Por que eles são engraçados, divertidos, só por isso.
– AAAiiii, AAAiii,
– Que foi mãe? Tá passando mal?
– Tô com uma dor aqui no peito... Ela respira fundo. Huuu, fuuu.
– Quer que eu chame um médico?
– Não, fica frio, senta aqui do meu lado. – Cabeça de filho entre mãos de Mãe. Bafo de Álcool. Ele afasta um pouco o rosto. Maternos músculos faciais em ação. Ela apronta uma feição bem meiga. – Me promete duas coisas? Olha só, em vez de Engenharia, faz Arquitetura, é quase a mesma coisa. Lá na Faculdade de Artes Avançadas que é uma das melhores do mundo, tá? Daí, quem sabe, você já enturmado no meio artístico, toma gosto pela coisa e vira um Designer de interiores ou de produtos ou de qualquer coisa! Mas pelo menos Designer, meu filho. Por favor, não envergonhe a nossa família.
– Huuu. – Agora foi ele que precisou respirar fundo. – Ok, mãe. Vou pensar. E a outra coisa?
– Por favor, me prometa: Dá pelo menos uma chance pro Conrad...
– Fuuu???

*ARTE = Canal de TV artistico
*IKEA = Loja de móveis tipo Tok&Stock
*Goa = Região no sul da India onde muitos jovens europeus passam as férias, famosa por seus Raves.
video

6 comentários:

Anônimo disse...

eu amo esse blog livia
beijos da suzie thompson

Rafael disse...

Não que eu reclame da minha mãe... mas eu percebo que é bom ter uma mãe "normal"! Bem ao estio do senso comum, e até meio "careta". Haha

Gostei muito do enredo e da estrutura do conto! Com os "huuu" e os "fuuu" intercalados nas frases. Achei muito bom!

Anseio por mais... haha

Até a próxima! Rafael.

ana fialho disse...

Adorei o texto, hilário!

Sou uma carioca morando em SP e às vezes isso se parece bastante com a idéia que eu tenho de uma brasileira morando em Viena.

Depois de quase dois anos resolvi fazer um blog para falar um pouco disso.

Passa lá!

Bjs,
Ana

Gilberto de Abreu disse...

eu recomendei seu blog à ana e não é que ela veio - e gostou!? adoro essas mulheres de bom gosto! é por isso que amo vc. ziriguidum na veia, fia. esse ano com aglaia na comissão de frente!!!

Daniel disse...

Deixa seu filho fazer engenharia!!! Assim nao vou ser o unico brasileiro em Viena que faz alguma coisa útil para a sociedade (Tudo bem, ele é MEIO brasileiro... mas já conta!)

:-DDDD

Nao somos apenas brasileiros em Viena, mas niteroienses em Viena hehehehehehe

beijos, adoro seus textos
Daniel
burnier@gmail.com

Livia Mata disse...

obrigada a todos pelos comentários. daniel, querido, fez uma afirmacao equivocada. arte em geral tem funcao vital e primordial em qualquer sociedade do passado ou presente. ser artista portanto é ser muito útil á sociedade tanto quanto um engenheiro o é!
e alguns ficaram curiosos pra saber daonde me inspirei pra escrever isto. bom, vivo no meio artistico e acho de tamanha caretisse alguns pais obrigarem as criancas a serem artistas. de uma forma ás vezes muito sutil. como o casal de cineastras que comemora todos os aniversarios do filho numa sessao de cinema. é a meu ver uma caretisse invertida. a outra inspiracao veio de um artista amigo que me contou que quando ele comunicou á mae dele, que é super burguesa certinha, que iria estudar artes plásticas. a mae quase teve um troco e pediu: "meu filho, pelo menos arquitetura, por favor!" eu queria mostrar com a cronica que se pode ser careta também com outros valores, com os valores ditos liberais. dai montei as pecinhas do quebra cabeca, misturando um pouco de mim no meio ( yoga, wisky, etc) e deu nisso.fuuu!