15.09.2007

Cap. 29_ A dinastia dos Balangandães

A televisão ficava no centro do armário embutido. À esquerda as saias e calças, à direita blusas e vestidos. Nas portas dos armários, espelho, balangandães de todos os tipos e tamanhos, lenços, maquiagens. Cheiro de sabonete Lux dominando o ambiente.
Ela, de toalha enrolada no corpo, mergulhada no guarda-roupa.
Eu, deitada na cama, mergulhada na TV.
"Abra suas a-sas..." Letras em Neon movem-se frenéticamente. SÔNIA BRAGA.
Ela passava a mão entre as roupas, pensativa.
Eu: Você prometeu comprar isto para mim!– Aponto para a meia de lurex colorida dentro da sandália prateada. Quando ela olha, a imagem já se foi, dando lugar a caras e bocas contornadas por neons coloridos.
"...solte suas fé-é-ras..." ANTÔNIO FAGUNDES
Ela escolhe um vestido de lastex estampado e passa para o outro lado.
– "Ô mãe, cê tá me atrapalhando..."–
"...caia na gandaia-a... " JOANA FOMM
– Já tô acabando, minha filha.– Ela pendura um colar.
"...entre nessa festa..." GLÓRIA PIRES
Ela coloca anéis, pulseira, brincos.
Botas de verniz vermelha berrante dançam em cima de luzes coloridas. Preciso aprender este passo...
"...E leve com você-ê-ê-ê seu sonho mais loooouuco". LAURO CORONA.
Ela passa para o outro lado e puxa um lenço da porta e enrola no pescoço.
Eu me imagino na pista de dança. Como elas conseguem dançar de salto alto?
"...Eu quero ver esse corpo...," PEPITA RODRIGUES.
Ela pendura outro colar.
"...lindo, leve e solto..." LÍDIA BRONDI.
Mais um colar.
"...A gente ás vezes, sente, sofre, dança, sem querer dançar..." REGINALDO FARIAS.
Ela tira um colar e se olha de perfil no espelho.
– Mãe, se eu fizer um permanente meus cabelos ficam assim?– Aponto para a tv, com a outra mão puxo o vestido dela.
Ela balbucia a resposta enquanto passa batom nos lábios.
– Ãaão! Eeu abeelo é lindo arrim!
"...Na nossa festa vale tudo! Pode ser alguém como e-eu, como vocêêêê".
Ela coloca um maço novinho de Shelton na bolsa, vira-se para mim e se debruça na cama querendo um beijo de despedida. Os balangandães encostam no meu rosto cegando meu campo de visão.
– Aonde você vai, mãe? – Afasto os balangandães enquanto procuro os olhos dela.
– Encontrar umas amigas.
– Quero ir também!
– Você é muito pequena e isto não é programa para criança!
– Você mesma me disse outro dia que eu já sou uma moça...
– Minha filha, escuta – Ela senta na beirada da cama e segura meu rosto com as duas mãos. O cheiro de creme Pond's invadindo minhas narinas – Nós vamos fazer fofoca das sogras, falar mal dos maridos, de cirurgia plástica e limpeza de pele, da inflação, dos chefes cafajestes... e... fumar sem parar! Você odeia fumaça de cigarro, eu sei. Então? O que você vai fazer lá?
– Ficar quietinha e ouvir as fofocas todas!
– Não! Além do mais, depois de uma hora você vai ficar com sono e vai me encher o saco pra ir embora. Agora chega de discussão. Assim que acabar a novela, vá escovar os dentes e dormir por quê amanhã tem aula. E saiu, bolsa rente ao corpo, salto agulha, balançando os balangandães.
Cresci e troquei o armário embutido dela pelo dos irmãos mais velhos. A composiçao era a mesma, á direita, roupas de Guido, á esquerda, Miro. mas no centro, ao invés da TV, a eletrola berrava Led Zeppelin, Supertramp, Arrigo Barnabé, Laurie Anderson. Ela passava pelo corredor gritando.
– Meu Deus! Isto nao é música! Abaixa esta porcaria!
Numa bela tarde desses tempos sem compromisso, Guido, meu eterno ídolo, comprou um disco da Tetê Espíndola
e ouvíamos chapadões no quarto. Aqueles agudos eram um bálsamo pros meus ouvidos capengas. Pássaros na garganta.
"Sertaneja se eu pudesse.......Acabava com a tristeza....Por que choras quando eu canto? UUUUAAAA!" Orgasmos em formas de decibéis. Guiada pelos ouvidos, Dona Zilda entrou no quarto em transe, curiosa.
– Quem está cantando?
– Essa aqui. – Guido estendeu a capa do disco. Ela observou com certo desdém a hiponga seminua tomando banho na cachoeira. – Você gosta?
– É muito bonito, que voz linda! – Dona Zilda fechou os olhos. Ouvia a voz, os pássaros da sua infância, as carambolas caindo das árvores, os banhos de rio, os irmãos de barriga inchada, as festas do interior, montar cavalo sem sela... Olhos úmidos. Interrompi sua viagem ao tempo.

– Ela vai cantar hoje á noite lá no teatro Leopoldo Fróes. – Assim que terminei a frase, Guido, que estava de costas para ela, me olhou de testa franzida balancando a cabeça negativamente. Dona Zilda com o rosto iluminado respondeu:
– Eu vou! – Antes que pudessemos dizer qualquer coisa, ela já estava toda cheia dos infinitos balangandães, batom, salto alto, seus inseparáveis cigarros Shelton na bolsa, pronta pra sair.
– Mas mamãe, só vão jovens...
– Ué, e daí? Eu não sou assim tão velha, sou uma coroa pra frentex como você mesma costuma dizer – Guido, puto da vida comigo, tenta argumentar:
– Mamãe, eles fumam muito...
– E daí? Eu também! – Eu querendo esclarecer:
– Mas é outro tipo de cigar......ai! – Beliscão do Guido.
Dona Zilda, uma mulher que nunca saiu dos trilhos: geração anos 50, Getúlio Vargas, ditadura militar, comunista come criancinhas, Fidel Castro é o diabo na terra, as filhas casarão virgens e os filhos serão engenheiro e médico, tudo nos conformes, Dona Zilda tinha uma idéia fixa e formada de como seriam os filhos. A ditadura Geisel reinava fora e dentro de casa. Homosexualismo? Uma doença horrível. Maconheiro é marginal, criminoso, que horror! Como explicar em cinco minutos um outro mundo à Dona Zilda? Que maconha faz bem, que o amor livre é maravilhoso, que bom é tomar banho nú de cachoeira em Maromba e depois meditar com os Hare-Krisna. Beijar na boca dos amigos, de preferência 3 ou 4 ao mesmo tempo e claro, nunca pentear os cabelos! Como? Missão impossível!

Chegando na bilheteria do teatro, Guido me puxou num canto.
– Isso é problema teu, leva ela lá pro balcão de cima e se vire sozinha, bom show! – E sumiu com a "galera bata indiana" em direção á platéia.
Dona Zilda assistiu o show inteiro com uma mistura de encantamento e espanto. Encanto com a voz quebra-cristais e espanto com a nuvem densa de fumaça com cheiro suspeito que reinou no teatro.
– É incenso, mamãe, pra espantar os maus fluidos...
Nem em cinco minutos nem em cinco anos conseguimos explicar nossas "outras palavras" para Dona Zilda, sempre agarrada ás suas convicções e valores, como a bolsa que sempre carregava no ombro com o braço por cima pressionando-a junto ao corpo. Medo que roubassem suas certezas.
Por respeito à ela e temendo o corte da mesada, a gente tocava as diferenças ideológicas com a barriga.
– Essa tua nova amiga com esses dedos arreganhados dentro da sandália de couro, tem cara de quem "puxa" maconha – Eu pensava nos cruzeiros da mesada.
– Não, não, imagina mamãe.....tchauzinho, vou pra praia, não precisa me esperar pro almoço.
Dias depois:
– Este teu amigo que veio aqui outro dia dobra tanto os pulsos. Será que ele é...– Eu pensava nas conquistas já adquiridas de voltar depois da meia-noite.
– Tô atrasada pra aula de inglês. Beijinho mãe, tchau!
Dona Zilda vivia desconfiada de tudo. Possuida de uma fantástica expressão corporal, ela nos alertava:
– O caminho que eu mostro pra vocês...– E colocava os braços em paralelo na frente do corpo, as palmas das mãos, separadas de frente uma para a outra, mediam a distância de uns 20 centímetros mais ou menos, os braços seguiam um movimento contínuo ritmado, como uma linha reta, uma estrada sem curvas – ... é este! O caminho certo, direito. Mas se vocês escolherem outros caminhos...– Os braços antes tão harmonicos se jogavam para cima, sacudindo num ritmo frenético, as mãos tocando mil tamborins imaginários – ... é problema de vocês!
Resultado dos turbulentos anos: todos felizmente "desencaminhados". Nada saiu como Dona Zilda tinha planejado. E isto era motivo de brigas intermináveis, conflitos insolúveis.
Eu e ela. "Pólos iguais se repelem". A Lei descrita nos meus livros de Física era presença constante no apartamento do Campo de São Bento. Eu sabia que precisava seguir meu próprio "(des-)caminho". Com dezoito anos na carteira de identidade, liguei pra ela no escritório e avisei.
– Não precisa me esperar para a janta. Tô indo hoje pra São Paulo.
– Volta quando? – Ela quis saber.
Ficou sem resposta. Voltei depois pra visitar, pra passar a páscoa e etc. Também sem resposta ficou quando lhe disse que não estaria presente no Natal por que iria para a Europa. "Volta quando?". No ticket de avião e na minha cabeça, só havia passagens de ida. Voltas só para passar férias.
Os anos passaram com um oceano nos separando e parece que a distância me deu a visão certa da pessoa minha mãe. É como um livro que se coloca bem perto do rosto. Atrapalha, irrita e não consegue-se ler nada. Afastando-me, pude "lê-la" mais e melhor. Entender sua cabecinha e seus valores que durante todos estes anos continuaram intactos. Aceitando pra poder entender. Entendendo pra poder aceitar. Mas o oceano de distâncias ajudou também a compor o "Aus dem Augen, Aus dem Sinn" (o que os olhos não vêem, o coração não sente). E assim fomos levando.
Um belo dia, Dona Zilda me liga.
– Anota aí, minha filha: AR 3480
– O que é isto, mãe?
– O número do vôo. Tô chegando na sexta pro café da manhã.
E agora? Dona Zilda na Áustria! E na minha casa! Só para uma "pequena temporada de 2 meses", como ela fez questão de frizar.
No primeiro dia caiu numa profunda deprê. Um pais sem área de serviço nem tanque nos apartamentos. Sem quarto de empregada e o pior de tudo: sem empregada! "Coitada da minha filha".
– As máquinas fazem tudo, mamãe... lavam pratos, roupa...
Seus olhos passearam sobre o lustre sujo, pela estante de vidro empoeirada... Ela intencionou falar qualquer coisa mas se conteve. Depois do baque inicial, aprendeu a curtir o ambiente e a cidade. Descobriu a delícia que é tomar banho de banheira, comer linguiça na rua, andar sem medo de assaltos...
Já foi para ela uma aventura deslumbrante ir sozinha ao BILLA (Supermercado) fazer compras. Pegar metrô, ônibus ou ir muito longe de casa sozinha ela não queria. Tinha medo de se perder e não conseguir voltar. Eu trabalhava muito e ela ficava sozinha em casa, cozinhando, cozinhando. Ligava pra mim no escritório: "Minha filha, a carne-seca tá pronta. Tá aqui me olhando do tabuleiro. Ficou linda! Só falta falar a danada! Passe no mercado e me compre um arroz decente por que este tal de Basmati achei um horror!" Leu todos os livros em português que existia aqui em casa. Fez tricot, crochê, costurou meias, consertou cortinas...
Uma bela noite, me arrumei toda, pendurei meus balangandães (tinha a quem puxar!), catei batom, celular, enfiei um discreto embrulhinho na bolsa e fui até a sala onde ela via o video de "Orfeu Negro" pela terceira vez pra me despedir. Me abaixei e estiquei o rosto para beijá-la.
– Aonde você vai? – Ela afasta meus balangandães do seu rosto enquanto procura meus olhos.
– Vou encontrar uns amigos.
– Eu quero ir também.
– Mas a gente vai falar alemão...
– Mas a Mariana e a Verinha não vão?
– Dona Zilda, lá não é lugar de velh.. digo senhora
– E você é o quê? –
– Uma mulher, ora bolas! – respondi impaciente ajeitando os sapatos de salto alto. – Sentada no sofá, ela segurou minha mão e me olhou nos olhos. O tempo voltou no espaço. A mãe onipotente que eu, menina, precisava levantar a cabeça pra ver seu rosto, se transformou numa senhora de olhos vividos e enrugados que me encarava por trás dos óculos como uma criança pedindo bala.
– Eu também sou uma mulher, minha filha, deixa eu ir?
– Ô, mãe, depois de uma hora você vai ficar com sono e vai me encher o saco pra ir embora...
– Num vou não, vou ficar quietinha... Me leva com você?
Impaciente, soltei uma bufada de ar. Como sair desta agora? Doida pra tomar umas cervejinhas, o taxi esperando lá embaixo. Decidi acabar de vez com a velha e fora-de-moda hipocrisia ideológica que nos separava uma da outra. Coloquei minhas mãos na cintura, requebrei os quadris um pouco pra esquerda, olhei-a firme nos olhos e disparei:
– Olha, Dona Zilda, nós vamos fazer fofoca dos maridos, das sogras, falar mal dos austríacos, falar sobre botox e silicone, as bichas loucas minhas amigas, vão soltar a franga e – separei minhas mãos medindo a distância de uns 20 centímetros mais ou menos – vamos fumar um baseadão deste tamanho! Tá pronta pra encarar esta? Então gema! (=vamos!)

Obs 1: A foto da cachoeira em Maromba é do Muru lá pelos meados dos anos 80...
Obs 2: Se você está usando cinto dourado e vestido de lastex pela primeira vez na vida, não sabe provavelmente qual novela eu adorava ver. Clique aqui para saber e obrigada Youtube! por poder ver Julia dancando de novo