28.07.2007

Cap.28_ Auto-estima à milanesa

Chiiiii. Arroz gritando no óleo. Água, fogo baixo, tampa. Enquanto cozinha, vou dar uma olhada nos e-mails. Faz uma semana que mandei meu portfolio para aquela agência e até agora nada.
"Como aumentar seu pênis" – Bateu na porta errada. SPAM, Deleta (Apagar).
"O senhor deve 1285 Reais à TIM" – Oi?– SPAM, Deleta.
"Aumente sua contagem de espermatozóides" – No thanks, pelo tamanho da cria estou pensando é seriamente numa Vasectomia.– SPAM, Deleta.
"Emagreça dormindo!".– E engorde acordada! Faz sentido. – SPAM, Deleta.
Res: "Apresentação".
É ele! Caraca, finalmente respondeu.
"Cara Senhora Mares, Muito obrigado pelo envio do teu portfolio mas sinto informá-la que a senhora não será chamada para a próxima rodada de apresentações na nossa agência. Atenciosamente, Sr. Arschi Lok."
Silêncio. A respiração presa. Os olhos arregalados no monitor. Leio de novo. Sangue quente na cabeça. Aperto o botão – Responder-
Res: Então vai á m°rd@! Atenciosamente, Lina Mares.
– Enviar – ? O mause parado em cima do botão. Meus dedos indecisos parados em cima do mause. O dedo indicador impaciente esperando a ordem para atirar– Enviar – ? Ah, não, deixa pra lá. Melhor deletar (apagar). Só falta agora deletar o estrago que este b@b@ca fez na minha auto-estima. Não serei convidada nem para uma apresentação para concorrer ao cargo de designer para esta agência de publicidade. Sabe a mosca do cocô do cavalo do bandido? Sou eu nesta sexta-feira calorenta. Eu em pessoa, digo em mosca, rondando pela casa, tonta, enraivada, as palavras zunindo na minha cabeça, "Sinto informá-la", o cheiro do cocô, a pata enorme do cavalo que quase me esmagou, "rodada de apresentações", o mau-hálito do bandido... Embrulho a panela de arroz com jornais, toalha de mesa amarrada por cima. Filé de peixe, limão, sal, ovos, farinha de rosca. Chiiiiii. Deito os filés na frigideira. Ding-dong. Toca a campainha. Quem será? Direto na minha porta, logo agora que começou a agarrar no fundo...
– Pois não?– Pergunto eu limpando as mãos no avental. Um rapaz todo animado e bem vestido pergunta se aqui é uma agência de publicidade. Mosca?
– O senhor está procurando o quê? – Revido de mau-humor. Chiiiiii. Um olho no moço e o outro na frigideira. Deu pra perceber que colocou a melhor roupa. Sorriso muito simpático, cheio de entusiasmo. Bandido mastigando capim. Mosca alegre sobrevoando.
– É que eu sou designer e queria me apresentar...
Meus olhos ficaram úmidos. Ás vezes a vida se torna um quebra-cabeça tão óbvio. Num primeiro impulso, queria retribuir a (in)gratidão que eu mesma tinha acabado de receber via net e dar uma resposta tipo: " A "rodada de apresentações" está encerrada! Mas respirei fundo e minha veia dalai-lama-maria-tereza-de-calcutá-mãe-meniniha-do-gantuá pulsou mais forte. Além disso, eu estava cheia de curiosidade pra ver o que ele tinha pra apresentar. O cavalo abana o rabo. A mosca atingida fica tonta no ar. Pedi para ele esperar um pouco, corri para o fogão, virei os filés, voltei.
– Me mostra aí o que você tem.
Minhas impressões digitais "pescais" marcavam cada página. Enquanto folheava, lembranças ficaram vivas, coincidências tomando formas, cores e sentido. Voltei a fita. Paris, agosto de 1987, eu com meu melhor modelito, portfolio debaixo do braço (êta carma!), retocando a maquiagem e ajeitando os cabelos nos reflexos das janelas do "métro", escondendo os chips de banana na bolsa que eu comia aos quilos de ansiedade, cheia de esperanças e ilusões batendo de porta em porta, na boca o precário inglês "Brasas" livro 2:
– Hy, I am model and I am looking for an agency. (= Sou modelo e procuro uma agência) entregava o portfolio e esperava ansiosa pela sentença final que era sempre a mesma: "No. Thanks. By." O bandido arrota. A mosca pousada no chapéu, se assusta e voa.

Este aqui pela qualidade dos trabalhos também não seria chamado para a próxima "rodada de apresentações", pensei misturando raiva e alivio enquanto folheava a pasta de plástico vagabundo cheio de fotos de animações de gosto duvidável. Mas tive compaixão com o cara (afinal era eu que estava ali!). E sabia que mais cedo ou mais tarde ele conseguiria algo como eu também consegui. Afinal, água mole em pedra dura...
– Por quê você não ligou antes?
– Eu não tinha o número...
No dia mais quente do ano onde metade dos vienenses está nos piscinões e outra metade está dentro do danúbio, o cara resolve ir de porta em porta pra procurar emprego. O cavalo pisa no coco. A mosca entra no ouvido do bandido irritando-o.
– Espere mais um minutinho. Peixe raus, banana rein. Tiro o peixe e coloco no lugar as bananas em rodela. Chiiiiii. Volto para a porta.
– Ok. Negócio é o seguinte: Aqui existia uma agência de ilustradores, eles se mudaram para o primeiro andar. Toca lá e fala com meu marido.
Ele abriu seu melhor sorriso e agradeceu muito. Apertou minha mão e todo animado foi descendo as escadas. Eu, a mosca do cocô, fiquei parada na porta vendo-o ir embora. Paris, Viena, modelo, designer, eu, ele, a vida dá voltas e te leva de volta. Chiiiiii. Voltei correndo pra cozinha e sacudi as bananas na frigideira. Peguei o telefone. A veia calcutá-gantuá bombando:
– Maridão, vai bater aí um cara procurando emprego. Diga para deixar seu nome e telefone que lhe chamaremos para a "rodada de apresentações". – Uma mão segurava o telefone e a outra desligava o fogo.
– Do que você está falando, Lina? Como assim "rodada de apresentações"?
– Depois eu te explico. – O papel absolvente ficando transparente de gordura. – E assim que você terminar, suba para comer um peixinho cubano.
Na travessa refratária, filés e bananas descansam. Pedaços da minha auto-estima banhados no ovo batido e envolvidos na farinha de rosca. Quantas portas ele precisará bater? Pedra dura. Um pouco de manteiga em cima do arroz fresquinho. Em quantas portas eu bati, naquele verão em Paris? Foram muitas, muitas mas semanas depois ouvi o bálsamo: "Uau, fine, I want you!" Água mole. O rádio anuncia que os termômetros registraram hoje o dia mais quente do ano. Quantos e-mails até ser chamada para uma "rodada de apresentações"? Maridão não vai entender nada... Como traduzir água mole?
O bandido come coco e morre. A mosca pousa no cavalo e se transforma numa amazonas. Cavalgam...

Kommentare:

Olha...e se eu pudesse entrar na sua vida... hat gesagt…

ai Livia, me deu aqui uma vontade de chorar. eh foda esse tipo de rejeicao. pior quando nem te escrevem nunca, vc se sente tao merda (quero dizer, eu)...

Gileade hat gesagt…

Sempre fico com uma interrogação na cabeça: isso aconteceu mesmo ou ela inventou? Se inventou, é muito criativa, se aconteceu de verdade, também, pois contou como ninguém.

E o carinha, bateu na porta do primeiro andar? E lá era mesmo uma agência? Ai, que curiosidade! Se for ficção vou ter que ficar imaginando...

Livia Mata hat gesagt…

gileada querida, vc tem razao quanto ficar em dúvida mas isto aconteceu tudinho assim como eu escrevi! ele bateu no primeiro andar e meu marido contou que ele trabalha como mecânico pra ganhar a vida. eu por um lado já fui garconete, cozinheira, etc. dei mais valor ainda, nós, os loucos de porta em porta... e por que não? deu vontade de falar pro cara: continua pq a pedra dura mas a água mole. abrc, li

camilo hat gesagt…

Oi Livia, quem me mandou o link desse post foi a minha mulher que bate ponto no seu blog, ela disse que tinha haver com o acontecido comigo hoje. Paciência... ainda tenho muitas portas para bater.
Ps.: o seu blog faz jus a tudo que ela me contava, você é muito legal.

Bjos

Zieckzack hat gesagt…

Lívia! Adoro o seu blog e o seu jeito de escrever! Vida longuíssima para Lina!!!!!!!
Beijos!
ST

Gilberto de Abreu hat gesagt…

querida, eu que te conheço de outros carnavais faço aqui um protesto: vc precisa gravar a sua risada e colocá-la aqui, para que todos possam vibrar com seus textos ainda mais. eu, porressemplio (como diria o pintãodo primeiro andar, rs), pontuo cada uma de suas frases com gargalhadas roubadas de vc. adoro sempre!

p.s.: li seu email pro cara da editora. a pergunta que não cala: mas ele não tinha um nome? aqui no brasil as pessoas gostam de ter nome (e mais ainda sobrenome). eu sendo ele torceria o nariz. foi um gafe, ok. mas tudo bem, f@#$-se!

Livia Mata hat gesagt…

ô fofinho, vc tem razao mas comu saber o nome do ditocujo se ele nao botou lá no site? enviei pra esta editora pq eles publicaram o manual do "Mothern" aquelas mineiras que deram origem a serie no gnt mas ele já respondeu e disse que nao publica cronicas. Mosca? Ai decidi dar um tempo de correr atras de editora pq já to correndo atras de emprego de designer e pq é muita mosca, muito coco e muito bandido pro meu furuquinho! rs rs rs
2. capitulo da novela: enviei meu curriculo pra uma empresa misteriosa que nao anunciava nome nem end. veio a resposta: sinto muito mas queremos alguém de corpo e alma para trabalhar. _corpo e alma? sei, sei. só entao descobri quem eram. imagina ter que ficar o dia inteiro, semanas, meses seguidos fazendo retoques e diagramando isto: http://www.online-magazin.at
jah to me vendo de avental e bandeja na mao...........
beijao, li
p.s: gostei da sugestao da gargalhada!

Alexandre Irmão hat gesagt…

Muito bom fofa!
agora é fidiquinha que está de porta em porta por aqui. Mas afinal áqgua mole....
beijos
ah a idéia de sua gargalhada é boa hein!

Gileade hat gesagt…

Oi, Livia! Tudo bem? Deixei um "dever de casa" para você lá no meu blog sob o título Biblioteca emocional. Vai lá!
Bjs