04.12.2006

Cap. 20_ Curtindo a praia errada

– CHEGA! – disse Janete quase gritando comigo no telefone – Eu não aguento mais ver minha amiga sofrer por causa destes “@rschl0cher” (homens sacanas). Já marquei hoje mesmo um jantar com um amigo que quer te conhecer. Economista, chiquérrimo, queridinha! Bota um modelito maneiro, maquiagem pra tampar esta tristeza e esteja lá às 8!
Janete é o tipo da amiga que “não frequenta a mesma praia”, escutamos músicas diferentes, pensamos diferente, ela tem lá o gosto dela pra se vestir e eu tenho o meu. Ela frequenta bar de mauricinho e só tem amigo advogado, político, economista...enquanto  que eu ando com os artistas, fotógrafos, garçons e todos os vampiros da noite. Mas quando „tô no perrengue“ e ligo, ela sempre está disposta a me ajudar, seja no que for. E naquele momento, há uns quatorze anos e lá vai pedrada, ela estava ali tentando me levantar de mais um pé na bu~d@.
– Eu tenho certeza que dele você nunca vai ouvir estas abobrinhas tipo “eu gosto de você mas eu quero a minha Freiheit (liberdade)!”
Meu instinto me dizia que isto não iria dar certo mas como eu já estava de saco cheio de tomar sopa Maggi sozinha em casa e Weissgespritzer (Vinho branco com Soda) no mesmo barzinho de sempre, o estômago falou mais alto, me arrumei e fui.
O cara era realmente interessante, culto, cabelos grisalhos contrastando com as sombrancelhas negras, conversa agradável mas... simplesmente não era a minha praia!
Estávamos numa das melhores Gasthaus da cidade, pedi um Beuschel (Prato feito com miúdos de bezerro). Ele me olhou espantado:
– Você pediu mesmo isto? – ih, meu Deus, será que cometi alguma gafe?
– Pedi, por quê? É muito caro? – nervosa, peguei o cardápio da mão de Janete para ver o preço enquanto ela me dava um cutucão na canela com a sua botinha bico fino por debaixo da mesa.
– Não é nada disso, Eu acho ótimo, aliás, maravilhoso que você pediu isto! É por quê geralmente vocês mulheres não comem estas coisas, só querem coisas leves...sempre fazendo regime...
– Você não está me achando gorda, né? – mais um cutucão de Janete!
– Não, não! Você está ótima assim! Quer dizer que você gosta de Beuschel?
– Adoro! Com Knödel, é claro! (Bola de pão cozida feita com leite, cebolas refogadas, salsinha e ovo)...Me lembra o nosso Angú à Baiana...
– Ãú o quê?
– Angú! É um prato também feito com miúdos, blá, blá, blá... – foi uma noite animada, falamos muito sobre comida, até sobre comida para os orixás eu discurssei (com direito a mais um pontapé de Janete). Saí de lá com a barriga cheia e a canela roxa (Janete danada!)
Depois de alguns encontros ele me contou que uma vez se apaixonou por uma mulher e chamou-a para jantar num dos melhores restaurantes da cidade. Ela pediu apenas água mineral sem gás e salada de folhas verdes sem molho. A paixão se evaporou alí naquele momento do Bestellung (pedido). Depois do jantar ele disse que um dia ligava para ela e sumiu! Não podia suportar a ideia de viver com uma mulher que pede água mineral sem gás pra beber e salada de folhas verdes para comer.
– Eu te entendo muito, muito bem – e lhe contei meu caso com o gatinho que tinha pavor de alho. Rimos muito e ele gamou na gracinha tropical. Eu suspirei aliviada por ter encontrado alguém que além de gostar de alho, me dava a atenção que eu precisava, entendia tão bem de tantas coisas, tantos comes e bebes que eu nem sabia que existia.
Nosso namoro foi uma festa gastronômica durante meses. Eu como simples vendedora de boutique que mal ganhava para viver, tive a oportunidade de conhecer todos os melhores restaurantes e pratos e maitres da cidade. Até engordei na época. Ficava o dia inteiro sem comer direito e no final do expediente, botava um modelito da loja, ele me pegava de taxi e eu ia viver uma noite de cinderela.
Eu estava mesmo precisando conhecer um outro mundo, por que os amigos moderninhos iam sempre no mesmo bar, sempre as mesmas festas, sempre as mesmas caras cinzas de tanto cigarro! E este outro mundo era um mundo de glamour, conhecí políticos importantes, advogados, industriais e toda a chiqueria vienense, tudo isto muito bem regado de bons vinhos, champagne francesa, finos schnaps (cachaça artesanal).
Aprendi a tirar a espinha inteirinha de uma truta sem sujar as mãos, a espremer o limão sem usar os dedos. A tupiniquim que até então só sabia a diferença entre um queijo Minas e queijo Regina, aprendeu a distinguir entre um Gorgonzola e um Roquefort, a pedir a melhor Safra de Grüner Veltliner. Chardonnay para os peixes mas para Forelle um Riesling novo cai melhor. .. Patê de foie gras, spaguetti com montanha de truffas...Que mundo novo e delicioso eu conheci! Mas muita coisa me incomodava. Me incomodava como ele me tratava (“Baby”), como ele se vestia (só tinha duas opções: terno e gravata ou camiseta polo e mocassin), como ele pensava, como ele via o mundo. Enfim, a praia dele era outra. Eu não tenho nada contra quem frequenta Camboínhas mas minha praia é Itacoatiara e pronto! 
Aquilo tudo foi me enjoando, me enojando, as fofocas, as intrigas políticas, “Mais uma taça de Sauvignon Blanc, please”, as chantagens econômicas, “Baby, coloque um pouco mais de limão na sua ostra...”, a amante do presidente, “Você quer passar para o Eiswein, Baby?” Eu começava a entender o que era emancipação feminina e era com certeza muito diferente daquilo que eu estava vivendo. E tudo culminou neste banquete de ostras. Voltei para o meu quartinho e passei mal demais, vomitei toda a comida, todo aquele mundo, aqueles conceitos, os perfumes Channel, os falsos sorrisos, os ternos Hugo Boss, as loiras austríacas geladas, as piadas de mau gosto. Vomitei eu mesma para fora e foi a minha vez de falar CHEGA! Passei a noite toda pensando em como fazer o cara sumir da minha vida pois ele já estava bem apaixonado pelo buquê de flores exóticas e cores vibrantes que lhe caiu nas mãos.
Passaram-se alguns dias e ele me ligou para irmos jantar, desta vez era o Top dos Tops: Drei Husaren, the best in the city. Meu plano era infalível e eu repetia para mim mesma: “Lininha, fica firme, segura a onda”. O Cardápio oferecia de entrada creme de lagostas com manta de salmão ou alcachofra marinada e patê de figado de pato selvagem ou...eu pensava: Meu Deus, não vou suportar. Prato principal: Carneiro caramelizado com tâmaras ou língua com creme de maça e kren ou... Socorro! Ele interrompeu meus aflitos pensamentos :
– Já se decidiu, Baby?
Respirei fundo, juntei todas as minhas forças e falei decidida:
– Sim, já sei o que eu quero: uma água mineral sem gás e uma salada de folhas verdes sem molho!