22.11.2006

Cap.19_ Palpitações enlatadas


Fomos visitar a Tante (Tia) Anette á tarde. Ela quis saber:
-”Você gosta de...” E mexeu os dedos como se tivesse tocando piano com as palmas das mãos para cima, dedilhando alguma coisa. Olhei desconfiadíssima pra velha e duvidei das preferências sexuais dela. Será que ela quer...Ela continuou, interrompendo meus maldosos pensamentos:
-”...Apfelstrudel?”
-”Adoro!” (Alívio! Por que a gente sempre tá pensando naquilo?) “Compro sempre no Hofer (Supermercado) um já prontinho que é só botar no forno e...”
-”Pára, pára! Um Gottes willen!” (=pelo amor de Deus) Botou a mão na barriga, fazendo cara de nojo. “Ai, tá me dando enjôo, palpitações no coração e uma tonteira medonha! Isto tudo é porcaria, nojento, eu nunca seria capaz de comer uma coisa destas!
-”Tudo bem, tudo bem, quando eu tenho tempo, faço em casa, é só abrir o pacotinho de massa foleada e...
-”Ai, socorro, Jessas! (em dialeto vienês: Jesus). Me segura que eu vou ter um troço. Aquela massa horrível! Argh! Vem cá minha filha que eu vou te mostrar...
Forramos a mesa com toalha umedecida e de uma bolinha pequenininha de farinha com água, Tante foi abrindo e esticando, fazendo aquele dedilhado (que tembém serve pra outras coisas!) até a massa cobrir boa parte da mesa. É preciso, como para a outra “coisa”, cuidado e delicadeza, um certo jeitinho pra massa não furar, pra gente chegar “lá”. O recheio: maças picadas, um pouco de açúcar, farelo de pão torrado na manteiga, nozes picadinhas e uva-passa. Enrola a massa e leva no forno por uma meia-hora. Serve-se com açúcar de confeiteiro em cima. Rapaizzz, dá pra comer aos metros! Uma delícia.
Conversamos, brincamos com as crianças, o tempo passou e Tante anunciou que serviria uma sopa. Enquanto ela abria a lata de sopa de feijão (Argh!), perguntou se eu gostava daquela marca. Olhei pra lata com nojo e rapidamente fui catando os casacos, cachecols e a cria e respondí já na porta da rua: “Não, muito obrigada, Tante, tá na hora de a gente ir embora” Botei o mais novo no colo e o outro fui arrastando pelo braço. “Bussi, bussi!” (=beijinhos). Tante Anette ficou parada na porta sem entender nada: “Mas o quê aconteceu? Por que ir embora assim tão subitamente?” Respondí nervosamente enquanto batia firme o portão do jardim: “Desculpe, Tante, mas é que de repente me deu um enjôo, palpitações no coração e uma tonteira medonha!”