14.11.2006

Cap. 18_ A adaptação de Thuthu

Mãe austríaca tem mania de ficar 3 anos olhando para a cara do(a) filho(a). Acha que Creche é muito impessoal, babá é muito cara, a avó já tá muito velhinha e tia solteirona ela não tem. Além do mais o governo dá aquela mesadinha pra “segurar” a mãe em casa, é mais barato para eles do que criar empregos e creches. Eu fiquei 20 meses olhando para os escornios do meu segundo filho e achei de muito bom tamanho. Juntando ao fato que a gente levava o irmão mais velho todo dia pro jardim de infância e o outro queria também ficar lá.
Mas no início não foi nada fácil. Thuthu teve um processo de adaptação bem peculiar. No primeiro dia, depois de apenas 1 hora, fui buscá-lo e a coordenadora me entregou o guri com o relatório oral de ocorrência:
– Foi tudo ótimo, Senhora Mares, só na hora de trocar a fralda é que foi um sufoco, ele não fica quieto, quase não consegui...
– Ah, esqueci de dizer que pra trocar fralda, Thuthu só fica quieto se você canta parabéns pra ele...
– Ah, Alles klar! (=Tudo claro!). Então da próxima vez eu já sei...
– É que tem um detalhe... só se for cantado em português! Em alemão não funciona, o pai já tentou várias vezes...
Sorte que Tante(=tia) Karin tinha um namorado português e Thuthu não se incomodou com o novo sotaque: “Pórrrabéins prrr vóce...”

Segundo dia, segundo relatório:
– Deu certo, tirei a fralda suja, limpei ele mas na hora de fechar a fralda parece que acaba o efeito...
– É que tem mais um detalhe: nesta hora você termina com: É BIG, É BIG, É BIG, É HORA, É HORA, RA-TI-BUM: THUTHUZINHO, THUTHUZINHO!” Enquanto cantava, eu arregalava os olhos e sem nem perceber me sacudia toda (tá no sangue, ué!) e lhe assegurei:
– É batata, ele fica quietinho.
Ela me olhou com aquela cara de que paciência tem limite. Fiquei meio sem graça. Mas fazer o quê?

Terceiro dia, cheguei um pouco mais cedo e pude observá-la de costas através da porta de vidro, como ela pegou rápido o espírito da coisa. Thuthu deitadão e ela lá toda fogosa: “É big, é big...!” Sacudindo o popô. Ela se virou com Thuthu no colo, toda sorridente e deu de cara comigo, seu rosto corou de vermelho-paprika!

Quarto dia, nova première: Thuthu fica pra almoçar. Relatório de Tante Brigitte:
– Senhora Mares, hoje no almoço servimos Reisfleisch (Arroz com carne) e o Thúlio olhou a comida e começou a gritar: Ijäääuuu!, empurrou a comida, correu pra cozinha gritando ijöööuu ou sei lá o que é isto, jogou os talheres no chão e começou a chorar, não parava de falar: jijööaau...
– Feijão! Ele queria feijão! – Como explicar pra uma austríaca que é quase uma ofensa oferecer para um brasileiro arroz com carne sem feijão! Vexame! Calamidade! Coitado do Thuthuzinho!
Pensei rápido numa solução e combinei que traria vários potinhos de feijão congelado já prontinho, quando o menu for arroz, é só descongelar um potinho e pronto. Ufa! Ainda bem que não perdi meu jeitinho brasileiro.

Próximo passo: Thuthu fica até ás 15 horas. Relatório de Tante Elizabeth:
– Não quis dormir de jeito nenhum, carreguei no colo, coisa que nunca faço, cantei, nada adiantou...
– Ai, meu Deus, é que ele só dorme embalado na rede!
– Re... o quê?
– Hängematte, aquela coisa que os índios usam como cama... pendura na parede... de pano...– A mulher me olhava com descrédito e indignação. E agora? Como sair desta? Pensei rápido:
– Eu tenho uma lá em casa sobrando, acho que ficaria linda aqui neste canto... as outras crianças vão adorar...– A expressão de desprezo se transformou em revolta, aquilo estava indo longe demais. Com toda a educação e sem perder a pose, ela começou a me esculachar:
– Senhora Mares, Não estamos na Amazônia, não somos índios e sim europeus civilizados!
Eu já estava a ponto de, sem pose porrr@ nenhuma, avançar em cima dela pra defender os pobres tupiniquins destes branquelos imperialistas e exploradores do planeta! Mas fomos salvas pela diretora do jardim que passava por ali e quis saber o que estava acontecendo. Para a minha sorte, ela era da geração 68, galera multikulti, drogas, sexo e rock n’ roll e afins. Ficou encantada com a ideia da rede, dá um toque exótico no ambiente e tal. Tocou fundo o coração da Coroa que já deve ter arrastado muito pano nesta vida. Mandou instalar a rede no mesmo dia. Salva pelo gongo.

Passaram-se uns dias, fui buscar o Thuthu mais cedo e as crianças ainda dormiam. Inclusive a Tante Civilizada. E adivinha aonde? Pois é, entrei no aposento devagarinho, me aproximei da rede e pude vê-la com um semblante tranquilo, feliz... até babava a danada. Peguei Thuthu no colo e saí sem fazer barulho.

Rede instalada, feijão introduzido, RA-TI-BUM incorporado. Depois de 2 semanas suspirei aliviada. Foi um sucesso a adaptação do Thuthu na Creche, digo, A adaptação da Creche pro Thuthu.
Eu só não podia prever que a simbiose fosse tão boa. Um belo dia, a Tante Brigitte ao entregá-lo, me pede mais potinhos com feijão.
– Mas como? Hoje mesmo de manhã eu trouxe 5!
– É...– ela falava meio envergonhada – Sabe Senhora Mares, as outras crianças também gostaram tanto...– Deixou escapar um sorrisinho tímido, pequeno mesmo mas que mostrou um pouco dos dentes e revelou a farsa: o bafo bandeira de alho e uma casquinha de feijão presa no canino direito.