02/10/2006

Cap. 16_ O voto secreto de Thadeu


Ontem teve votação aqui e lá. Eu recebí mil correntes pro e contra Lula. Não passei nenhuma das duas opniões adiante. Não posso julgar uma realidade que não é minha. Aqui Lula é admirado e elogiado pela imprensa. É verdade que eu deveria ler mais jornais do Brasil na internet. Pô, eu até tento mas tudo parece uma novela que eu não entendo porr@ nenhuma, caixa 2, superfaturamento, nomes e nomes que depositou aqui e pegou lá. Troca-se de partido como se troca de roupa. Ligo para a minha mãe e ela me dá uma resposta muito simples que aliás é a mesma faz 20 anos: “São todos uns safados, corruptos, a situação está cada vez pior, uma violencia terrível, uam roubalheira só entre os políticos, está terrível! Está...” Afasto o fone do ouvido por que já conheco este discurso, a cada palavra ela vai aumentando os decibéis até gritar: “UM HORROR, MINHA FILHA, UM HORROR!” E eu continuo do outro lado da linha sem entender nada. Mas me permitindo fazer algumas comparações: Aqui também se rouba e muito! Só que não é com mala de dinheiro em hotel (que coisa mais primitiva!) È com negócios no Caribe através de ditos milionários com dinheiro do sindicato dos trabalhadores. O escândalo foi descoberto pouco antes das eleições e nem isto conseguiu impedir a vitória do partido socialista que é o dono do banco dos sindicatos e dono do dinheiro dos trabalhadores. Logo eles que levantam a bandeira da igualdade para todos... Meno male os socialistas do que os cristãos de centro que querem me ver com a barriga no fogão e fecham os olhos para direitos femininos, homosexuais, estrangeiros e tudo o que não seja a sagrada familia, igreja, latifundio e multinacionais. Os verdes conseguiram 10%, ótimo mas nem tanto por que os de extrema direita conseguiram 11%, ou seja este 1% de diferença que quer me ver longe daqui! Parola famosa deles: “Fora estrangeiros!” Mas em Viena e conforme diz o slogan da cidade: "Wien ist anders!" (Viena é diferente!) onde se concentra a fortaleza vermelha (42% para os socialistas), os verdes ficaram na frente com 17% contra os azuis (extrema direita) com 14%.
Uma outra diferença aqui é que os partidos são mais importantes do que os políticos. Muitos votam a vida inteira no mesmo partido. Se um político muda de partido, o que é muito raro, ele perde bastante credibilidade. O Sistema eleitoral é um bom reflexo disto: Você dá o voto para o partido, como segunda opção, pode escolher um vereador para o bairro aonde mora. o resto é o partido vencedor que decide quem será o primeiro ministro! Esquisito, né? E tem acima de tudo o Presidente que este sim é escolhido com voto direto mas não tem peso político, ele pode decretar estado de sítio ou fechar o parlamento mas não participa dos processos de decisão política. Ele fica só de fora, dando conselhos, viaja pelo mundo, recebe os chefes políticos aqui...parece mais um Papa, acima de tudo e todos mas que não muda porcaria nenhuma!
O pai levou Thadeu para votar. Tudo muito formal, Grüss Gott, Bitte schön, Seu nome, O papel, aquela cabine, por favor, coloque o envelope aqui na urna depois, muito obrigado, tudo muito correto, todos concentrados e muito sérios. Thadeu entrou junto na cabine. O pai com o envelope e o papel na mão aonde estava escrito bem grande o nome dos 7 partidos. Thadeuzinho olhando tudo, muito curioso: “O que é isso, papa?" (apontava o cartaz na parede) "Pra que isto?" (puxava a caneta amarrada num cordão). Ele falava em voz alta, como sempre. O pai enquanto fazia uma cruz no papel, foi logo querendo avisar: “ Meu filho o voto é secret.......” Thadeu olhando o papel onde estava o "x", interrompe aos berros: “Ah, essa letra eu conheço, é g de grünn (partido verde)!" O papa meio sem graça saiu da cabine e teve que encarar o olhar conspirativo de todas as pessoas presentes. Aquela cara austríaca cínica exprimindo um: "Eu sei uma coisa pessoal sua, hihihi". Ele colocou o envelope dentro da urna no centro da sala sobre o olhar de todos os controladores e funcionários presentes. Thadeuzinho se espichou para olhar dentro do buraco: "Papa, o que você falou comigo dentro da cabine?" O pai enfiou o envelope, respirou fundo e olhou para o pequeno: “Meu filho, eu falei que o voto é, digo, ERA secreto!” Sairam sem perceber os risos e a descontração total que causaram no local.