13/09/2006

Cap. 14_ Deixa ela lá!

Eu não sou uma pessoa nem um pouco superticiosa, nem um pouco surrealista, juro de pés juntos! Tão pouco sou quanto um conhecido que uma vez me deu uma carona no Rio e comentou a barbeiragem do motorista ao lado: “Cê viu o mané?” E passou dois dedos na pele do seu braço: “Eu sabia! olha a cor, olha a cor dele!”. Fiz uma expressão de quem não estava entendendo. Ele foi mais claro: “Ele é preto e todo preto é barbeiro!” Fiquei boquiaberta, ele percebeu e explicou: “Eu não sou racista não mas é verdade: todo preto é barbeiro!” Não abri mais a minha boca, percebi que naquele nível de mentalidade não dá nem pra começar a argumentar. Então era aqui que eu queria chegar: Ele não se considera racista como eu tão pouco me considero superticiosa, surrealista, doida.....Enfim, vamos à história:
Marcela, tentando ser discreta, deixou para falar no último momento, quando já estavamos na porta pegando o taxi para o aeroporto: “Aqui tá o télefone di maínha, beijos na tia Rita, não deixem de ir à Praia do Forte, oh genti como eu queria tá junto pra mostrar procês, toma água de côco, cuidado com os caruru e os dendê...sabe dona Lina - me puxou pro canto da sala apontando o objeto em questão- em Salvador tem cada rede tão linda...” Senti minhas bochechas ficarem vermelha de vergonha. Afinal de contas todo mundo nota aquela capenguice no meio da casa...A rede tá lá caindo aos pedacos, pendurada no canto mais gostoso da casa, a gente deita pra pensar, pra relaxar, pra ninar o thulinho, pra namorar, ela é parte da familia. Mas tá toda capenga, o croche da borda todo arrebentado, manchas no pano, um horror! Isto era um assunto já arquivado na minha cabeça por que...bom, vou explicando: Chegando em Salvador, nos divertimos muito e rede tinha em todas as direções e lugares possíveis e impossíveis de se imaginar. Até na entrada do toilette tinha mané vendendo rede, impressionante! Mas deixei pro último momento, já no aeroporto, encontrei uma linda, amarela. “Vamos levar esta, amor?” ele com uma tristeza profunda no olhar: “Se você quer...leva”. Passei o cartão, pensando que em casa eu teria que continuar a comer o mingau pelas beiradas até conseguir trocar a velha pela nova. Voltamos e depois de ter dado tempo ao tempo, um belo dia depois da janta voltei ao assunto: Acho que vou pendurar a rede nova pq esta aqui está tão velhinha, tão feia...”. Desta vez ele nem conseguiu falar, a tristeza no rosto era tão grande que deu pena. Eu já estava preparada para este tipo de reação dele. Mudei de assunto, saí de fininho. Maridão é assim, se apega ás coisas, alguns artistas são assim, objetos não são apenas objetos, são também obras de arte, objetos tem memórias, emoções. Seja uma rede capenga, uma camiseta velha. Maridão não joga nada fora, ele tem ainda guardado seus jogos infantis que Thadeo irá herdar, Walkman que nunca mais será usado, coisas da avó dele e...ihhh, se eu continuar fico de mau humor. Minha vontade é fazer como a dona Zilda que, de tempos em tempos, saia pela casa feito furacão perguntando para tudo e todos: “Pra quê serve isto? (sem esperar resposta) pode jogar fora?” E também sem esperar resposta jogava fora mesmo. Bom, acordei decidida: “É hoje!” Disparei em direção à sala disposta á tirar a rede velha, agora ou nunca! Parei em frente á ela e de repente me veio um pensamento: “Daqui á alguns anos quando você ficar assim, toda capengua, velha, feia, é capaz de ele não te jogar fora assim tão fácil....” Deitei na rede velha: “Que ilusão a minha, se ele tiver que me trocar por outra mais nova, ele troca! O que tem uma rede á ver com isso?” Mudei de posição: “Mas ele não se desfaz assim tão fácil das coisas... Levantei e me olhei no espelho: “Pitangui na cara, silicone no busto, lipo na barriga...ai, meu Deus, vou ter que gastar uma nota daqui á pouco”...Virei-me de costas: “Não se esqueça do popô...e tudo isso, querida, não é garantia de nada, você bem sabe...Ai, meu Deus, penso tanta besteira, afinal não é só de aparências físicas que vive uma relação” querendo mesmo acreditar no que eu falava... Lembrei de Zezinho, meu analista: “Lina vê demônios....” Que comparação absurda! Por que pensei nisto agora? É verdade que ele não se desfaz assim fácil das coisas mas o que tem a rede a ver com o meu futuro silicone que se Deus quiser hei de colocar? Me diga? O pensamento não me saia da cabeça: “...Quando você ficar assim, toda capengua, velha, feia, é capaz de ele não te jogar fora assim tão fácil....” Roi as unhas, fiz um chá...fui tomar banho. O dia terminou, semanas passaram, meses...fato é que até hoje a rede velha continua lá reinando na sala, capenga, rasgada mas linda, maravilhosa, cheia de emoções, sentimentos, personalidade. Ahhhh, deixa ela lá!