10/03/2013

Cap. 45_ Manteiga de primeira qualidade

– Como assim “bem provida?” Ela foi é bem comida, porra!
Lina gritava encarando a tela do laptop. O marido que tomava tranquilo seu café da manhã na cozinha, ouvia e pensava:
– Ainda bem que não é comigo.
Ela continuava pagando o maior esporro pro monitor. O marido sem entender: “Será que é skype? Não ouço ninguém falar nada.” Ele já com muitos anos de experiência nas costas, resolveu esperar: “Mulher pra acalmar ou você come na hora ou então se faz de invisível”. Ele tinha acabado de levar as crianças na escola e se preparava pra tomar seu café da manhã na cozinha tranquilo, em ritmo de valsa...
Ela levanta da escrivaninha e começa a andar pelo corredor:
– Esta juventude está perdida mesmo! Não fumam maconha, não tomam LSD e agora mais esta: Não sabem perder o pudor! Isto é que dá se encher de ecstasy e ficar pulando ao som destes drums e drans da vida... Acham que tudo é legal, bacana e limpo! Cadê a sacanagem, pessoal? Cadê a depravação? O que vai ser do mundo daqui a alguns anos? Onde nós vamos parar deste jeito?
Pra variar, ela partiu fundo pro esquema Lavínia de falar, uma coisa puxa a outra que puxa a outra e cai tudo junto. Mas pra isto é sempre bom ter uma vítima por perto. Ela procura o marido pelo apartamento de pé direito alto e estilo art-nouveau, contrastando com sua própria figura tão exótica. Pisando no chão de tábua corrida e abrindo portas de madeira trabalhada. Não, ela não faz parte deste contexto, ela sempre soube disto. E gostava até que fosse assim. A distância certa entre ela e o mundo ao redor.

“Eu não sou da sua rua,
Eu não falo a sua língua,
Minha vida é diferente da sua.” *

“Eu não sou daqui mas fui puxada pra cá, eu sei”. Lina sempre se lembrava das férias passadas em Macarena na casa da tia casada e tão feliz que tinha na parede reproduções de “o Beijo”, um quadro de uma sensibilidade e amor tão singelos e “Danae”, com vasta cabeleira recebendo uma chuva de ouro nas pernas arreganhadas. Klimt na mais sublime tradução de ternura e sacanagem. Ela era capaz de ficar sentada no corredor por horas olhando aqueles dois quadros. A garotinha que admirava aquelas obras queria entrar naquele mundo, entender aquelas “outras palavras” que se traduziam em linhas e cores. Deu milhões de voltas até chegar aqui nesta cidade e mais milhões para chegar no estado em que se encontra: casada e feliz. Era inevitável pensar na tia e em Klimt, a correlação era óbvia demais. Dois ingredientes para um bom casamento que ela mesma teve que descobrir: Romantismo e pornografia, sem dramas nem censuras.



Mas agora, neste momento, ela estava preocupada com a falta do segundo componente desta dualidade ideal: a sacanagem. E continuava procurando o marido pelos corredores do apartamento.
– Onde ele se enfiou? – Ela acha ele (ainda) tranquilo na cozinha saboreando seu melange** e lendo o jornal. E vai logo continuando a palestra sem se dar o trabalho de introduzir o tema:
– Ai que saudade dos tempos perversos! Eu mijava no box e me achava super subversiva. Agora não, xixi no banho passou a ser politicamente correto e até desejável pra economizar a descarga. Ah, perdeu a graça! –
Ele a deixa falar e nem tenta entender o que uma coisa tem haver com qualquer outra, ou aonde ela está querendo chegar. “Viver ultrapassa qualquer entendimento”,  já diria Clarice. “E com uma mulher destas se atropela qualquer entendimento”, ele pensou.

Ela segue em frente. Bateria afinadíssima!
– É como no dia em que fizerem campanha pedindo pra cachorro fazer cocô nas ruas, os donos vão ficar putos, vão correr pro analista e iiihhhh, pode dar até suicídio!
A espuma do melange ainda se desmanchando nos lábios. O semmel quentinho recheado de manteiga de primeira. Tudo em plena sinfonia. De repente adentra um instrumento inusitado e inesperado na composição dele. Trombone? Bumbo? Tamborim nervoso?
– Sem sacanagem o mundo não vive, minha gente! Como pode ser saudável e são, viver numa época em que vibrador sexual é chamado de bastão de massagem? E ainda vem com a cara da Hello Kitty? Hellooou, piraram!

O melange esfriando na xícara. Vontade de suspirar e olhar pra cima, mas ele não é louco de dar esta bandeira. Finge interesse. Ela avança com a bateria. Bumbo mandando ver.
– Como se já não me bastasse o conflito de ser estrangeira, agora mais essa: Conflito com uma nova geração que não tem conflito! O que vai ser do mundo com estes jovens? Meu sobrinho mesmo, sabe o que ele fez?
– Não, o quê?
Ela pega ele pelo braço, que tenta continuar lendo a notícia, dando apenas sua presença auditiva. Pra Lina, muito pouco. Ela segura no queixo dele e faz virar seu rosto em direção ao dela.
O marido lembra da família dela, em que todos se comportam assim, mães, tios, irmãos: todos surdos, histéricos e carentes de atenção. Almoço de domingo no Brasil é uma loucura, 10 exemplares de Linas andando pela casa berrando e gesticulando. Cutucando, puxando os braços, virando os rostos uns dos outros. Me olhem, me escutem, me sintam!
– Sabe o que ele fez, amor? – O queixo do marido aprisionado nas mãos dela – Casou! Imagina!
– Éééé...
– Como assim, éééé? Você não acha um absurdo? Casar? Nossa geração propagou o amor livre, confrontou a igreja católica, desmascaramos todos estes valores burgueses ridículos... Até a mãe dele nunca casou. Isto é um vexame! Uma afronta aos bons costumes! Digo aos maus-costumes!
Maridão muito esperto e conhecedor da causa, não iria cair na cilada de contestá-la naquele estado. Pandeiro eufórico? Reco-reco frenético?
– É... incrível...
– Imagina entrar na igreja toda de branco, prometer aquilo tudo... Este mundo tá perdido!
– Será que ela casou virgem?
– Lógico que não! Aí seria demais!
– Mas... por que você está falando sobre isto agora, Lina?
– Ah, lembra aquela turma de mestrandos da universidade de Viena, que usaram meu blog para objeto de estudo?
– Sim.
– Pois é, os estudantes traduziram a crônica “A brasileira Wahnsinnada”. Acabei de receber.
– Ah, legal.
– Legal, mas vamos combinar que “bem provida” é diferente de “bem comida”, né?- Gritava a perua descompensada.
– Como assim?
– ”Ordentlich besorgt” não é “bem comida” mas sim bem abastecida, bem provida...
– Ah, é verdade.
– Por exemplo, me diz se você estivesse num bar conversando com um amigo, como você diria para ele que uma mulher tem que ser bem comida em alemão?
– Hum... Eu falaria “gut gepudert”.
– E como eu nunca ouvi isto antes?
– Por que você é bem comida em português, ou eu estou enganado?
– Ah, é verdade, alemão pra bulas e manuais de instrução, português pra amar e brigar.
A fórmula funciona bem entre eles há mais de 15 anos. Até as crianças aderiram ao linguajar peculiar da família. Cada coisa no seu lugar, cada emoção, uma gaveta; cada manobra, uma língua. Como já explicado no "Pretérito do samba"
– Mas o que significa isto? Gepudert?
Ele arregaça as mangas da camisa, deixa os bíceps bem delineados à mostra e faz um movimento como se estivesse socando a mandioca:
– Você sabe como se faz manteiga? Pois é, a gente tem que socar ela assim!
E movimenta os músculos para cima e para baixo tocando o fundo de um panelão imaginário.
– Uau, que poder! Genau total! Me faz virar manteiga!
Os olhos de Lina brilharam como criança aprendendo uma nova letra.
– Mas agora tenho que ir. Os alunos estão me esperando lá na Uni. Tô atrasada.
Ela lhe dá um beijo rápido e ao mesmo tempo aperta-lhe o pau. Ele sempre estremece nestas horas por que nunca acredita que ela tem o total controle deste simples gesto. “Vai que ela esquece e aperta o meu pau na rua ou na casa da minha mãe...”.

No próximo instante ela já está na porta para sair. Como sempre, literalmente enrolada com cachecol, luvas, boinas e como sempre amaldiçoando o inverno.
– Mais de 20 anos morando aqui e não consigo me ajustar a este código invernal! Verdammt! (=raios!) Cadê a outra luva? Bussi, bussi, Schatz! (=beijinhos, tesouro!)
Ela se vira pra jogar um beijo mas o capuz do casaco não acompanha o movimento e ela beija o próprio nylon.
Ele ainda fala em português:
– Quando você voltar, te ensino a fazer manteiga, gustosa!
Ela, já com a porta aberta, só tem tempo de soltar um:
– Aaaahhhhh!!!
Que ecoa pelos corredores do prédio construído com pura poesia vienense de fins do século XIX. Pisos carinhosamente pintados, ornamentos delicadamente trabalhados em gesso e corrimões dançantes recebem o “Aaaahhh” com prazer rejuvenescido. Ela avança descendo as escadas. Maçanetas ondulantes abrem contentes as divisórias de vidro. Aaaaahhh!!!!

Ela inevitavelmente pensa com orgulho que apesar de não fazer parte desta cultura, foi aqui que nasceu a modernidade. Onde Klimt e seus amigos levantaram a Secession, Wittgenstein se entregou de “língua” e alma à filosofia e Freud escrevia à Schnitzler confessando a inveja que sentia do escritor por conseguir descrever tão bem a psique humana em seus romances. Viena, berço da modernidade que se perpetuou em “Altbaus” (prédios antigos).

Foto: www.hiese.de
“Ao tempo sua arte, 
à arte sua liberdade.”

A Altbauwohnung (apartamento antigo) cai de novo na paz original austral. Ele aproveita para acabar de ler o jornal e se diverte ao pensar que isto seria um bom material para uma nova crônica dela: “Lina vai à Universidade ensinar os alunos a traduzir “bem comida”! No mínimo, surreal!”

Dez minutos mais tarde ela liga e fala em alemão:
– Schatz(=tesouro), o tal do gut gepudert, é gepudert com “p” ou com “b”?
– Lina, onde você está?
– No metrô. Fala logo, como se escreve gepudert?
Ele imagina a cena e não contém o riso. Na hora do rush, o metrô lotado e a mulher dele – que fala alto como sempre – querendo saber como se escreve bem comida, ou melhor “bem amanteigada!” Bem humorado e com a dose certa de cafeína no sangue, ele solta um sorriso descompromissado enquanto diz:
– Do jeito que você quiser, gustosa!
O último gole de melange desce tranquilo pela garganta, a sinfonia que antes era apenas uma valsa, ganhou um toque de allegro no meio. Reco-reco ainda dominando o ritmo, surdo se retirando... A manteiga lambendo o semmel... O agogô e a cuíca dando um toque final... E ele pensa quanto tempo deverá demorar pra ela voltar pra casa... O chocalho fecha a cena se despedindo devagarinho...
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“Felicidade não se adquire, felicidade se conquista. 
E você conquistou a tua!”
(Email da tia de Macarena para Lina)

* Música: "Eu não sou da tua rua!" 
Composição: Arnaldo Antunes / Branco Mello. 
Vídeo legal!

** Melange: café expresso com leite espumante.

“Ich habe mich oft verwundert gefragt, woher Sie diese oder jene geheime Kenntnis nehmen konnten, die ich mir durch mühselige Erforschung des Objekts erworben, und endlich kam ich dazu, den Dichter zu beneiden, den ich sonst bewundert. So habe ich den Eindruck gewonnen, dass Sie durch Intuition – eigentlich aber infolge feiner Selbstwahrnehmung – all das wissen, was ich in mühsamer Arbeit an anderen Menschen aufgedeckt habe.”
(Carta de Freud à Schnitzler)


07/03/2013

O tal do "meia" em português

Recebi isto do meu irmão e tive que postar. Muito bom! 
"- Por favor, gostaria de fazer minha inscrição neste Congresso.
- Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?
- Sou de Maputo, Moçambique.
- Da África, né?
- Sim, sim, da África.
- Aqui está cheio de africanos, vindo de toda parte do mundo.
- O mundo está cheio de africanos.
- É verdade.
- Se pensar bem, veremos que todos somos africanos, pois a África é o berço antropológico da humanidade ...
- Pronto, tem uma palestra agora na sala meia oito.
- Desculpe, qual sala?
- Meia oito.
- Podes escrever?
- Não sabe o que é meia oito, sessenta e oito, assim, veja: 68
-Ah, entendi, meia é seis.
- Isso mesmo, meia é seis. Mas não vá embora, só mais uma informação: a organização do Congresso está cobrando uma pequena taxa para quem quiser ficar com o material, DVD, apostilas, etc., gostaria de encomendar?
- Quanto tenho que pagar?
- Dez reais. Mas estrangeiros e estudantes pagam meia.
- Hummm... que bom. Ai está, seis reais.
- Não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?
- Pago meia? Só cinco? Meia é cinco?
- Isso, meia é cinco.
- Tá bom, meia é cinco.
- Cuidado para não se atrasar, a palestra começa às nove e meia.
- Então já começou, são nove e vinte.
- Não, ainda faltam dez minutos. Como falei, só começa às nove e meia.
- Você pode escrever aqui a hora que começa?
- Nove e meia, assim, veja: 9h30min.
- Ah, entendi, meia é trinta.
- Isso, mesmo, nove e trinta. Mais uma coisa senhor, tenho aqui um folder de um hotel que está fazendo um preço especial para os congressistas, o senhor já está hospedado?
- Sim, já estou na casa de um amigo.
- Em que bairro.
- Nas trinta bocas.
- Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria nas seis bocas?
- Isso mesmo, no bairro meia boca.
- Não é meia boca, é um bairro nobre.
- Então deve ser cinco bocas.
- Não, seis bocas, entende, seis bocas. Chamam assim porque há um encontro de seis ruas, por isso seis bocas. Entendeu?
- E há quem possa entender?
"


Autor: Jansen Viana
(do livro Plantão da Alegria)

11/10/2012

Cap. 44_ O tradutor e a carioca sem pontuações.


Eu vou te explicar tudo desde o início por que eu quero que você me entenda.
Nasci aqui mesmo nesta terra. De Mozart, Hitler e Freud. Sacou de cara a mistura? Como vocês dizem aí no Brasil: Loucura pouca é bobagem! Haha!
Sou filho único e catástrofe maior não poderia existir. Fui criado nos moldes normais. Bom, pelo menos eu achava que eram normais até conhecer outros… Me lembro de coisas bobas mas que fizeram ser o homem que eu sou hoje e que as vezes luto pra ser diferente. Por exemplo: Brincando com outras crianças, eu era o que estava sempre certo. Pelo menos era o que a minha mãe com suas atitudes demonstrava. Nunca precisei dividir, compartilhar, ser solidário. Isto era e sempre será tarefa do governo, não me cabe ser bonzinho, não nasci nem fui criado para tal. 
Se eu tomava o brinquedo de uma criança no parquinho, minha mãe sempre estava por perto pra me defender e falava para a criança que nem conhecia: 

– – – – "Meu filho só quer brincar um pouquinho, depois ele te devolve , tá?" – – – – 

E se a criança insistia, ela tinha sempre os argumentos mais tenebrosos pra usar com filhos alheios: 

– – – – "Não seja egoista, garoto!" – – – – 

Assim eu fui crescendo com a certeza de que o mundo está a meu serviço e direito é um dever que o mundo me oferece. 
Na adolescência as coisas ficaram complicadas. Eu me rebelei contra todos, até ai normal. Pensei em virar homosexual mas não consegui, deve ser uma questão biológica ou hereditária, não sei, só sei que não é a minha. Eu procurava apenas desesperadamente algum fator pra me confrontar com minha familia e principalmente com minha mãe. Aquela mulher que me proveu de comida, amor e me fez viver numa bolha de ar que agora eu queria estourar por que o esperma que saia do meu corpo a cada masturbação me implorava esta liberdade. 
Até que achei o que eu procurava. A vingança limpa, justa e inabalável: Não serei advogado como meu pai, mnha mãe, meus avós e tios! 
Larguei os estudos, fui trabalhar num bar. No inicio foi muito dificil, trabalhar em equipe, ajudar, servir, tudo o que a vida inteira me pouparam. No primeiro dia de trabalho me lembrei de Budha que tinha muitos empregados mas um dia fugiu do castelo e ficou pasmo com o que viu. E o que ele viu foi o mundo em si, pobreza, doenças, injustiças. 
Os colegas brigavam comigo e eu nunca tinha discutido na vida! Eu estourava de raiva, quebrava copos. Os cacos de vidro estourando a minha vida-bolha. Uma vergonha. Mas era eu que nascia de novo. Da raiva, da mentira e da ilusão, eu me paria de novo nos ataques. Não aguentei tanta verdade, pedi demissão. Arrasado, deprimido, fugi pra Londres onde ninguém tá menos aí pra alguém. Uma melancia amarrada na cabeça e você pega o metrô sem ninguém olhar pra tua cara! Terminei meus estudos com honor, tradutor profissional. Trabalho solitário e autosuficiente, perfeito pra mim. 

– – – – "Brinque sozinho, meu filho, é melhor. Assim você não briga com ninguém. – – – – 

E tinha o prazer das mulheres, ai mulheres, que coisa boa! Mas elas sempre vinham com este papo de morar junto e quando morava junto era um tal de "você não faz isto, eu faço tudo"… Daí eu perdia a paciência e botava pra correr! Mas sem elas eu não conseguia (e não consigo) ficar. Procurei as mais autônomas e emancipadas e assim fui mais feliz. Cada um no teu canto, claro. Afinal pra quê dividir problemas e alegrias quando se pode dividir só alegrias? 
Eu fazendo uma bela carreira como tradutor e a gente se vendo nas horas vagas. Viagens e passeios juntos, contas de hotel e restaurante separadas. Só a cama era dividida. Ué, elas não lutaram tanto pra isto? Afinal, era isto que eu entendia como emancipação…e acho ótimo assim! Eu e você somos duas pessoas juntas, mas nunca somos "nós"! Este era o meu credo. 
Daí elas começara a entrar naquela fase dos 30, o relógio biológico batendo cada vez mais estridente: "Filhos, filhos!" Saí fora batido! Todas as vezes, por mais que a amassem, eu sumia ou destruia o amor. Criança berrando de noite, babando nos meu ternos, mulher histérica me mandando trocar a fralda? Nicht mit mir! (comigo não!). E aguentei bem, viu? Cheguei aos meus quase 50 anos, ainda mandando bem na cama, em boa forma e com uma vasta cabeleira grisalha que aqui eles chama de sal e pimenta. A mulherada continua querendo, hehe.
Até aqui tudo ótimo, resolvi ou achava que tinha resolvido meus conflitos mais íntimos e vivia bem comigo mesmo, sem muito perguntar nem questionar.  Até que fui passar férias no Brasil. No momento em que pisei no aeroporto do Rio, percebi que tudo seria diferente. A começar pelo Dutyfree. Acho que o Brasil é o único lugar do mundo que oferece um Dutyfree pra quem chega no país! 
Calor, suor, mulheres lindissimas semi nuas. A variedade e oferta era tanta que eu fiquei até enjoado! Comi umas poucas que ficavam na praia de Copacabana catando gringo. Algumas até divertidas mas… Sabe de uma coisa? Acho mesmo que bucetas, cus e paus é tudo igual: buracos e varas! A diferença está em outro lugar e talvez aqueles caras que cantavam bossa nova tinham razão, não dá pra explicar emoções. Mas me emocionei ao entender a tradução do provérbio que em alemão é tão seca e sem graça do "Aus dem Augen, aus dem Sinn" *. As palavras me caíram como um carinho no rosto: "O que os olhos não vêem, o coração não sente". Mergulhei fundo na bossa. Nadando em novas águas, adotando novas crenças... "O coração tem razões que a própria razão desconhece". E acho que foi nesta mesma noite, depois de ler sobre Vinicius, Jobins e Gilbertos, enquanto eu tomava um chopp no bar da boate que ela me apareceu. Linda, meio mulata, meio índia, meio latina. O sorriso que saia pra fora do rosto, um cheiro bom, fresco. Sem nem me perguntar nada, me abraçou, me tacou um beijo e me puxou pra dançar… Eu? Dançar? Eu que passei a vida inteira sendo o suficiente pra mim e para as minhas contas. Eu? Dançar com alguém? "Querida, o que eu sei é  trepar muito bem!" Mas isto eu não poderia dizer pra ela. Não agora no meio da boate e ainda por cima em inglês. Aliás, será que ela fala inglês? Nem isto eu sabia. Mas a mulher me atropelou, os braços entrelaçados no meu corpo, falando milhões de coisas que eu não entendia: au, ãuo, ão, ão? Meu pau duro no meio da pista e ela se roçando em mim. Eu não tenho armas contra isto, não sei como parar este furacão! Acabamos numa cama que nem sei mais aonde era e não saímos de lá durante dias… Isto já faz uns três anos. De lá pra cá aprendi muita coisa. Por exemplo que a palavra "porra" significa esperma e não vírgula, apesar dos cariocas a usarem como tal. "Porra, daí eu cheguei lá e o cara, porra, levamos um papo…e porra, desce mais uma cerveja!.." E por ai vai. Isso é que dá aprender português no posto 9… 
Mas voltando à minha diva divina: Ela já tem filhos, que alívio! Tem uma carreira, é emancipada, ganha tanto quanto eu, trepa que é uma deusa! Cheirosa, bem humorada e consegue me fazer rir. Eu que sempre fui preocupado em ser pelo menos correto, que fui criado pra ser um durchschnitliche Arschloch, um filho da puta normal, logo eu? Esta mulher me arrancou as roupas e junto me arrancou todas as certezas. Todos os credos que eu tinha numa vida eficiente, num sistema social previsível com direito - no final da jogada- a seguro de vida e aposentadoria decente. 
Um catálogo de emoções com cores que desconheço, uma gramática que traduz vontades mas que não possui pontuações. 
Ela remexe meus livros, reclama da poeira, bota as mãos na cintura, os quadris para um lado e pergunta com um monte de papéis velhos na mão: "Pra que serve isto?" 
Tira minhas certezas do lugar, bagunça a minha indolência, revira a gaveta dos meus hábitos...  
E se não gosta de alguma coisa, ihhh, sai de baixo. O mundo pra ela existe pra ser usado, amado, indagado, idolatrado.  Mesmo sem saber alemão, ela desafia os antipáticos, os sonsos e escrotos. Arranca sorrisos de quem nem merece… Emoções sem censura nem aviso prévio. 
Não tive outro jeito, não existia outra solução a não ser ficarmos juntos. Sim, juntos! A equação finalmente aprendida: eu e ela= nós. Ela largou casa própria e filhos formados no Brasil pra entrar no meu mundo de chopp á beira do lago Neusiedler, de pessoas competentes e profissionais mas também chatas e rabugentas, de vinhos maravilhosos e quatro estações distintas...Ahhh, se felicidade não for isto...
Só tem uma coisa que eu não entendo e que por isso me apaixonei perdidamente por ela: Nos restaurantes e hotéis, ela sempre insiste em pagar toda a conta. 

– – – – "Meu filho, devolva o brinquedo pro amiguinho e empreste um dos teus carrinhos para ele." – – – –



*A tradução ao pé da letra seria: Longe dos olhos, longe dos sentidos.

01/09/2012

Cap.43_ O interfone


De tropeços a vexames: tudo ela já tinha experimentado. Um tempo atrás pediu pro marido comprar Milchreis e ele trouxe arroz para cozinhar com leite e não o desejado por ela: Reismilch (leite de arroz). A última gafe foi quando pediu pra vendedora da loja chique no Graben, experimentar a blusa vemelho-vinho da vitrine. A vendedora riu, irônica. "A senhora quer dizer vinho-vermelho? Aprendeu com simpatia profissional que Rotwein se toma e Weinrot é cor de blusa.  "Essa galera troca tudo de lugar, tiram todas as preposições,  juntam um monte de palavras soltas sem eira nem beira e querem que todo mundo entenda a lógica! " Júlia se irritava mas não tombava. "A língua alemã consegue contrariar até as leis da física: Sim, a ordem dos fatores altera totalmente o produto! " Pensava, enquanto arquitetava o diálogo que teria em breve.
Ela estava com problemas no interfone, mentalizou as frases que diria na cabeça, refez mentalmente o diálogo que possivelmente teria, corrigindo as benditas declinações .
"Interfone é masculino, feminino ou neutro? E se ela for mal-educada? Como se fala vai se catar em alemão?" 
Armada de coragem,  bateu na porta da vizinha de baixo pra perguntar se por acaso ela estava com o mesmo problema. A velhinha abriu a porta e foi muito gentil, escutou Júlia falar.
– A senhora também está com problemas com o interfone? Acho que o meu não está funcionando...
No que ela respondeu:
– Ah, minha querida, eu não sei, como eu posso saber? Faz mais de 10 anos que eu não recebo visitas...
Júlia sentiu um desespero surreal, uma vontade de sair correndo mas não teve como recusar o convite da velhinha e entrar pra tomar um café. A história explicada, a velhinha falava por ela e por todas as centenas que Júlia via nas ruas. O marido morreu, não tinham filhos... A solidão como normalidade de vida. Júlia voltou pro seu apartamento com falta de ar, nó no estômago.
Werner chegou no final do dia e encontrou-a com a testa franzida, os olhos vermelhos. Não entendeu nada quando ela fez ele prometer que não envelheceriam neste país. E começou a aumentar o tom de voz, andando pela sala, agitada, apreensiva.
– Se você quiser, que fique! Eu, antes de começar a alimentar pombos no parque da cidade, tô saindo batida! Muito antes, aliás! Tá doido, prefiro os pombos do Campo de São Bento!
– Mas por que isto agora, Júlia? O que aconteceu? Alguém foi mal-educado de novo com você? Te xingaram de "Ausländer"(estrangeiro)? A vizinha reclamou do barulho?
Sem dar atenção à pergunta, ela continuava seu discurso: 
– Prefiro sentir o fedor do valão da Cinco de Julho, pegar micose na praia das Flexas, Dengue em Jurujuba...
Werner cada vez mais atordoado. O cheiro de comida que pairava no ar,  deduzia que ela de novo preparou algo gostoso. Cheio de fome e tendo que aturar uma perua desequilibrada que não parava de falar alto como se estivesse num palco:
–... Aguento tudo! Sovacos fedendo no ônibus, fila de banco, engarrafamento na ponte, lavar roupa no tanque, louça na mão, aturo tudo!...
Era sempre assim, eles estavam juntos há tanto tempo mas era sempre esta surpresa cultural, cada dia ela vinha com um pacote diferente que tirava ele do sério, dos trilhos, da razão e jogava-o de volta à estaca zero. Quando ele achava que a conhecia, vinha ela com uma situação absurda e uma reação ainda mais absurda e ele começava de novo do nada. 
Ela andava de um lado para o outro no tablado imaginário:
– Amanhã mesmo ligo pro Rodrigo da Imobiliária. Tenho certeza que ele arruma algum apê pra gente comprar, daqueles tipo com chuveiro corona que dá choque, armário embutido colado na cama, a cama colada na porta… Fôda-se, qualquer coisa tá bom. Ônibus barulhento passando embaixo da minha janela, vista pra favela, pagode alto comendo solto a noite inteira! Fôda-se, melhor do que viver neste túmulo de silêncio...
– Júlia... – Ela continuava a falar sem nem notar a presença dele:
– Pego um financiamento na Caixa, titio já foi gerente lá e me ajuda, papai dá um pouco, o teu também dá, a gente fica uns 3 anos sem fazer férias, 6 meses comendo pão com linguiça, tem que dar, tem que dar, Fôda-se... Qualquer cubículo em Niterói tá bom!
Ele teve que aumentar o tom de voz:
– JÚLIA, o que aconteceu? Não estou entendendo nada...
Como se fosse numa prova de física em que esta lei não constava na matéria, ele olhava pra cara dela confuso, perdido. Cadê o botão? Cadê a chave, a fórmula matemática pra entender esta mulher?
– Foi a vizinha do primeiro andar, a velhinha... – Werner suspira aliviado:
– Ah! A vizinha… Olha, não liga, Júlia, ela é meio doida mesmo. Seja o que for que ela falou, esqueça, não se acabe assim ... – Werner cansava de falar isto. Como alguém pode sentir tanto? Como alguém pode se importar tanto com o que um estranho falou? 
– Mas eu fui super bem tratada...
– Então…?
Júlia pensava em como abordar o assunto da forma mais dramática possível, tentando fazer com que ele sinta o que ela sentiu. Bom, isto até seria pedir demais mas quem sabe ela consegue fazer com que ele pelo menos entenda o que eu senti?
– Ela…– Júlia respira curto. Rugas de expressão a todo vapor. Mãos que procuram coisas imaginárias no ar. O olhar divagando pelo céu da janela. Era tarefa quase impossível o que ela queria: a compreensão profunda dele. Ela sabia disto e o amor também funcionava assim. A chama se alimentava deste eterno pedaço desconhecido, indomável, indecifrável que um tinha no outro.
No final acaba sempre do mesmo jeito: ele a conforta, passa a mão na cabeça e diz pra ela não ligar, que besteira... Cada um volta ao seu mundo achando que entendeu o mundo do outro como se fosse uma viagem de fim de semana. Doce ilusão. 
Ela folheia a revista esquecida na mesa enquanto ele enfia a cara nas panelas e vai saborear a vida exótica de mais uma comida feita pela esposa. Polenta com Gulasch de coração de galinha. Amor que se alimenta de compreensão e abismos.
Caem na cama. Ela é movida por emoções. Ele, guiado por fatos. Universos diferentes se tornando um só. O abismo é preenchido como um  rio... que transborda....Gozam…
Dividiram o mesmo cigarro, olhando para o teto. 
Ele pensa naquele livro que leu de um missionário americano sobre os índios Pirahas: "O povo mais feliz do mundo não conhece números, nem coordenadas, nem futuro, nem passado". Achou por um momento que tinha tomado um ácido, jurava que sentia cheiro de floresta no quarto. "Mulheres amazonas…"
Ela pensa em como resolver este dilema: "O valão pode esperar. Chuveiro corona também. Amanhã marco com Lina de vir aqui e peço à ela para apertar o botão do interfone até doer o dedo! E também a minha campainha, vou pedir pra ela tocar, tocar! E esmurrar a minha porta! E quando eu abrir, vou me jogar nos braços dela e berrar de felicidade! Lina vai me entender, ela já mora aqui há mais de 20 anos e não vai me chamar de louca. Não, não somos loucas, loucos são eles, loucos são…sou…" 
Adormecem...

16/08/2012

Cap.42_Maria tá chegando!

maria tá chegando!
não conheço maria. 
maria me achou no blog. 
maria vem pra viena. 
maria quer dicas, quer amigos, quer saber.
maria tem medos. 
medo do frio, da língua alemã, medo da própria coragem de pedir demissão e arriscar uma vida nova com um estrangeiro. 
maria tá apaixonada. 
história de amor contada em helvética. 

maria tá chegando!
vai trocar o posto 9 pelo adria bar. 
o calor pelo frio. 
o vertraut pelo unbekannt. 
o confiavel pelo desconhecido. 

maria virou a página e como que se passasse de ano na escola, comprou um caderno novinho. 
ali maria vai escrever uma nova história. 
a mesma vida numa nova vida.
e daqui há 10 anos o que será que maria será?
maria vai brigar também pela vez na fila do anker?
maria vai curtir andar pelas ruas da cidade sozinha à noite sem medo.
maria vai aprender a falar zwetschen?
maria vai ter que entender que o feminino vira masculino e que a vida continua.
comer neve? cair do ski?
maria vai se ver desfigurada, nua e com labirintite no espelho.
sentar no metrô e chorar por nada...
maria vai amar o  previsível, o tempo, o ônibus, o amanhã, a hora marcada com três meses de antecedência.
maria vai tomar menos banho?

maria tá chegando!
maria vai gritar de alegria e o estrangeiro vai se apaixonar ainda mais: "como ela é espontânea!"
maria vai voltar da rua e gritar de raiva: "não entendo, não entendo, não entendo!"
maria vai gritar de prazer por ter achado um homem tão bom e romântico.

vai ligar pra mãe e falar que tá tudo bem… mesmo?
maria não vai saber o que dizer. 
alguma coisa vai mudar dentro de maria e ela não saberá o quê, nem pra quê, nem como. 
ou será que maria vai se fechar e continuar lutando por acreditar que estrangeiros são eles e nunca ela mesma?
maria vai ter que entender o esquema da chave para o elevador. 
iiihhh, maria vai se embananar toda na caixa do supermercado com as compras.
vai lavar a alma no danúbio!
será que vai comer gulasch de madrugada no ansengruber?
passear no "baixo nasch"...
…comprar velharias no flohmarkt.
rir com as bichas no savoy?

maria vai entender por que justiça social é melhor do que bondade individual...
ah, mas maria vai perder uma outra virgindade!
por que maria vai aprender na marra que ser inocente é diferente de ser ingênuo
maria naiv, maria unschuldig

maria vai pirar quando a agredirem com sorriso nos lábios
por que a emoção pode ser contrária à mensagem
e o que só importa são as palavras
ai, maria não vai mais poder mandar tomar no cu por amor...

maria tá chegando!
quantas marias já chegaram? 
muitas. cada uma com seus apocalipses próprios, neu starts pessoais. 
marias trazidas por amores impossíveis. 
homens que querem o exótico, o desconhecido  no meio do seu velho e manjado mundo. 
sem pegar dengue, sem ser assaltado, sem sentir a vida pulsar nas veias nem a adrenalina corroer a razão. 
eles, os trazedores de marias! 
será que lá o contrário também existe? 
marias trazedoras? 

maria tá chegando!
maria vai brigar com ele e vai querer voltar.
maria vai voltar de onde veio. 
será? 
maria volta mas só sabe pra onde. 
não sabe mais pra quê. 
ás vezes ela vai só até a esquina. 
só pra ir. só pra voltar.
na igreja, casando, ele vai cutucar ela na hora que ela tiver que falar sim.
maria vai engravidar e na hora de parir vai xingar de dor em português.
maria vem, maria fica. 
maria fica? 

deixa chegar, willkommen maria!
quanto tempo maria vai demorar pra realmente chegar, inteira? 
e quanto de maria vai sobrar então? 
e qual maria maria vai ser?
maria?
maria tá chegando! 
... lavar a alma no Danúbio...



15/04/2012

Cap.41_"Homem bom é homem viado!"

Atenção: Este texto é recomendado só para maiores de 18 anos!
– Homem bom é homem viado! – Lina gritava sozinha dentro do apê vazio que acabara de se mudar. Com a espátula na mão descascava as paredes amareladas do próprio passado. Irrompendo a década de 90 com novo roteiro.
– O resto só se for pra me fazer gozar! Mais do que isso, tô fora, tô fora, TÔ FORA! – Ela repetia pra si mesma como se para ter certeza de que agora era pra valer. Toda suja de pó, preparava o cenário do próprio futuro. E a peça era um monólogo:
– Tô nem aí que me chamem de reacionária. No Brasil mané diz: bandido bom é bandido morto! E eu digo: homem bom é homem viado! A começar pelo meu primo, o Guido, que me trouxe pra Viena e me ensinou o caminho das pedras, aliás todos os caminhos. Porque além de dar as melhores dicas de como se embrenhar na selva da língua: "Se você não sabe qual artigo usar, bota tudo no plural e pronto, não tem erro!", foi ele que me ensinou o "caminho da felicidade": "Homem você tem que lamber o saco, o cu... ", "Que é isso, Guido, isto é coisa de viado!", "Não, priminha careta! Homem que é homem não tem medo de prazer! E cu faz parte do sexo tanto quanto buceta e pau! Se alguém te proibir de "brincar nestas áreas", pode ter certeza que é bicha enrustida!", Não!!,– eu retrucava– "Sim, sou macaca velha, digo bicha velha, HAAHAHA!"– E Guido soltava sua gargalhada gostosa, escandalosa!
Lina continuava com seus botões:
– Ou mesmo o Hans, bicha bacana, inteligente e honesta. Se ofereceu pra casar comigo sem cobrar nada. Putz, ele foi a tábua de salvação. Agora sim consegui essa porra de visto e já vou logo dar entrada na cidadania. Brasil é muito lindo quando se está em Ipanema, mas mostrar o verdinho em qualquer aeroporto é roubada total.
Os pensamentos vinham como enxurrada na cabeça de Lina. Depois do expediente no restaurante, ela corria pra casa pra acabar a pintura da sala e ia botando a vida como uma bússola no rumo certo:
– Homem nunca mais! O negão rastafári lindo que me comeu e tá reformando a cozinha, sim! Faz o serviço "completo" e vai embora na mesma hora. Sem promessas, sem expectativas. Ótimo assim, por que eu não descobri isto antes? Por que tive que chorar rios de lágrimas por babacas que só sabiam dizer: "Não quero compromisso!", "Você é boa demais pra mim.", "Ich will meine Freiheit!". Aliás, acho que esta foi a primeira frase em alemão que eu aprendi: Eu quero a minha liberdade! Então vai bater punheta e não me encha o saco! Agora sim, sozinha, eu e minhas paredes brancas, meu trabalho, meus amigos, a faculdade. Até que Saturno tá sendo bom, entrou na minha vida na hora certa...também, quase 30 anos no escórnio. Já estava na hora de acordar do sonho de cinderela. Só não sei se o dinheiro vai dar pra pagar as contas...
Cuidava das paredes destruídas como se fosse seu próprio passado. Raspar a tinta velha, tapar os buracos, pintar de branco. Arrancar o passado, tratar as feridas, usufruir da liberdade.
– Até agora só conheci dois tipos de homem: os que querem roubar minha independencia ou os que querem usufruir dela. Por isso,assim que acabar a reforma da cozinha, o negão vai rodar! É lindo, gostoso, cheiroso mas euzinha virar amante a esta altura do campeonato? Tô fora, tô fora, TÔ FORA!
Arrancava das paredes o que não prestava: Vícios, vacilos, ceguerias.
– Este mês não vai dar. Paguei depósito, mudança, comprei tintas... Mas mês que vem compro um vibrador e pronto, a emancipação será completa: cabeça, coração e buceta!
Lina pintava, limpava e decorava o apê como podia. Móveis doados por amigos, comprados nas pulgas, a casa ficando não do jeito que ela sonhava mas do jeito que era a sua realidade: improvisada e sem compromissos. A vida se tornando mais palpável, mais além do horizonte das emoções.
– E filhos eu posso fazer com uma bicha amiga qualquer. O Carlinhos por  exemplo, daria um ótimo pai. Boto uma divisória aqui na sala, um berço neste cantinho e pronto: Felicidade completa!
Pela primeira vez ela sentia o gosto da verdadeira liberdade, dona da própria vida e acima de tudo da própria buceta. Tentou em vão realizar seu sonho Disney mas todos os candidatos eram inadequados para príncipes, tanto quanto ela era inadequada para cinderela. Mas o último pé na bunda além de doer, deixou marcas. Perdeu o amor, o teto e o pior de tudo: o chão! A bússola rodava fazendo ela ficar tonta, enjoada. Acordou da rebordose decidida: – Primeiro: análise, nem que eu tenha que dar o cu na esquina pra pagar; segundo: casar com a bicha amiga; terceiro: um apê só pra mim!
E assim foi. Os amigos fizeram questão de ir na "cerimônia", riram muito. O padre, que era amigo de infãncia do Hans, até desconfiou. Hans vinha de uma cidade do interior e todo mundo conhecia a bicha doce.
– Você? Casar?
E ele segurava legal o perucão:
– Sim, algum problema?– E desmunhecava mais ainda.
Comemoraram numa Gasthaus. Encheram a cara e depois que todos foram embora, pediram dois quartos na pensão do andar de cima: Num quarto, Lina dormiu com o garçom da Gasthaus e no outro, Hans com seu namorado.
Lina E Hans: Casal perfeito, nunca brigaram. Cada um na tua casa. Hans entregou à ela todos os documentos que precisava pra dar entrada no visto e na cidadania.
Passaram-se alguns meses e tudo estava bem, Lina feliz sozinha no seu apê, trabalhando, estudando e a um passo da cidadania, quando bateram na porta de manhã bem cedo, bateram não, esmurraram a porta:
– POLIZEI! Abre, é a polícia!
Lina acordou assustada. Eles foram logo entrando, empurrando ela pro lado. Abriram armários, reviraram gavetas, levantaram cobertores.
Lina em pânico:
– O que está acontecendo? O que eu fiz?
Eles responderam com perguntas:
– Cadê o seu marido? Cadê as coisas do teu marido? Nem travesseiro ele tem!
„Fudeu!“ Lina pensou. „Fudeu!“ Diz ela até hoje que foi a pomba gira que desceu naquele momento, ela abriu os braços, arregalou os olhos e, tomada de uma expressão corporal fenomenal, esbravejou:
–Cadê? Não sei, não sei e não quero saber! Aquele canalha não entra mais aqui! Eu tirei todas as coisas dele, tudo, tudo e botei numa mala e mandei ele pra casa da mãe dele.
Lágrimas de desespero rolaram, Lina gritava, se contorcia, deu tudo de si na performance:
– Ele... ele... não me deixa em paz! Eu estou cozinhando, ele quer, eu estou estudando, ele quer. Dormir? Não posso mais! Olha minhas olheiras! – Os restos de maquiagem da noite anterior caíram como uma luva. E Lina continuava possuída pela personagem, os policiais de boca aberta, ela não deixava tempo pra eles reagirem. Estufou a barriga por cima do roupão:
– Nem grávida ele me deixa em paz!
Estava de bom tamanho, os policiais se desculparam pelo incômodo e se despediram justificando que havia a suspeita de Scheinehe (Casamento de fachada) por isso foi feita uma vistoria, mas agora não havia dúvidas que era realmente um casamento... Lina ainda tremendo de nervoso fechou a porta e esperou atenta ouvir o barulho do elevador descer. Quando teve a certeza de que eles já estavam longe, soltou uma sonora gargalhada:
– Eu sabia que um dia as aulas de teatro me serviriam para alguma coisa...

10/04/2012

Cap.40_Anéis cheios de dedos, colares cheios de pescoços.


Escrevi esta crónica, há muito tempo atrás, guardei, esqueci. Não, no momento não estou desempregada. Só preciso de mais contratos :) Espero que gostem! xxx

No momento em que forcei ela a me dar a mão, percebi por que consigo viver aqui. Meu egocentrismo não me deixa enxergar o outro como ele é ou como ele gostaria de ser visto mas sim como eu quero. E por isso minha mão permaneceu firme estendida até ser recompensada com o aperto.
Escritórios modernos esterelizados geram trabalhadores esterelizados. No chão, nas paredes, nas mesas só existe petróleo em forma de plástico. Alguns mais sensíveis não aguentam tanta falta de vida e trazem plantas, decoram com bichinhos de pelúcia, fotos das crianças… Mas esta não, esta dava pra perceber que era a do tipo super organizada, lápis e canetas fazendo uma fileira certinha na mesa, segurando o desfile: de um lado o apontador, do outro a borracha. 
Ela tinha as raízes em algum lugar juntas comigo. Só se via pelos olhos. As pálpebras faziam aquela curvinha doce típica latino-americana. No mais era a eficiência em pessoa. A funcionária correta, certinha. Só uma coisa não se encaixava na cena: para cada anel, vários dedos, para cada colar, vários pescoços. E isso tornava ela bonita, até linda. Por que era imperfeita, por que por trás de tanta eficiência e perfeição, os anéis teimavam em ter mais dedos que poderiam e os colares mais pescoços do que cabíveis. Nervosa, procurava no computador um "remédio" pra esta paciente tão exótica. Depois de uma rápida análise computadorial ela vira seu tronco que se separava de mim por uma mesa, e diz decisiva:
– A senhora está desempregada faz muito tempo e precisa a partir de agora fazer um curso... qualquer curso. Diga: o que a senhora precisa?" Os anéis e colares debochavam me encarando: "Isto mesmo, bota um curso nela, um curso pra concurso, hahaha"
– Tipografia seria bom...Mas tem que ser em MacIntosh.
– Tipo o quêeêê, Mac waaass? – Ela procura desesperada no computador por uma solução. Alguém já tentou explicar em dois minutos pra um (a) funcionário(a) público(a) do ministério do trabalho austríaco por que Macintosh ou o que significa Layout? 
– Ah, tá aqui, achei a solução: Deutschkurs (Curso de alemão)! Não é ótimo, senhora... senhora.. – ela procura rápido pelo meu nome no computador – Senhora Mares?
– È, é... acho que sim"– respondi meio surpresa com o novo destino.
No Brasil quando você tá desempregado, corre pra mamãe, papai, não consegue pagar o aluguel, volta pra casa deles e eles te mandam fazer um desses cursos pra concurso. Na Áustria a mamãe e papai se chama Arbeitsamt (Secretaria do trabalho) que funciona no mesmo esquema: Te dão uma mesadinha (salário desemprego) e te mandam ir á luta. Dai passa uns meses e você não consegue emprego, te empurram um cursinho qualquer. Desta forma você não aparece nas estatísticas como desempregado e o partido regente enche a boca pra dizer que existem cada vez menos desemprego no pais. E nada melhor do que um cursinho de alemão pra uma "Ausländerin" (Estrangeira).
Enquanto ela passava os anéis em cima do papel me explicando aonde ir, eu pensava na solução tão repentina tomada por colares e pescoços alheios. Depois de vinte anos de Austria, de novo um cursinho de alemão. Mas vai ser bom, Lina, afinal até hoje você se esquece que a palavra amor é feminino assim como o trabalho, o sol... Ai, pra quê saber tudo isto se sei amar, ralar e procurar desesperadamente pelo sol nos dias cinzas sem encontrar? Ela se irrita com meu olhar distante.
- A senhora está prestando a atenção? Trim, trim, os colares em forma de cascavel: "Taca um curso nela, um curso pra concurso, Siiisss, siiisss". 
- Claro, claro. Estou entendendo tudo.
Ela levou a folha de papel ofício com o logo da repartição pra mais perto do meu rosto. Anéis debochados bailando sobre o papel me apontavam o dever de casa. Seus olhos impacientes pedindo atenção. Endereço, hora, data... 
- A senhora entendeu tudo? Senhora... Senhora... - Mais uma olhadinha no computador (ou melhor chamar de oráculo?) Senhora Mares?
- Sim, sim. Levantei-me e num gesto puramente intuitivo estendi a mão pra agradecer, me despedir, coisa normal mesmo, sorriso nos lábios, espontânea eu fui. Ela já tinha se virado para o computador, eu era um caso encerrado e já tinha liberado o teu "Aufwiedersehen" (=Tchau). O próximo "paciente" já irrompendo a cena. Mas entre eu e o próximo, tinha aquela mão, a minha mão estendida na cara dela. Uma mão espontânea, amigável, agradecida. Ela não teve escolha nem tempo pra pensar. Estendeu a mão pra mim. Ainda a olhei nos olhos enquanto as mãos se uniam. Sorrisos, tatos, impressões entrelaçadas digitais. No meio de tanta esterelidade, algo orgânico acontecendo. Colares tilintaram, anéis se esfregaram e ela em fração de segundos foi outra, foi mais natural por trás da maquiagem e dos apetrechos, até sorriu. E no próximo segundo, ela se tocou que não fazia parte do trabalho dela, que não era normal apertar a mão de qualquer requerido/a. Mas não dei chance de ela se irritar. Me permitindo uma comparação perversa, é tipo quando vc não tá afins mas a figura te pega de um jeito e com um jeito que a gente sem perceber como, já gozou. Pois acabado o aperto, ela ficou lá com a mão parada me olhando com cara de besta enquanto eu dava passagem para o próximo. A expressão no rosto maquiado era uma confusão de emoções: bem-estar, inquietude, espanto. Também me espantei com esta fração de segundos que se procedeu da "Trepada". Retomei minha postura mais rápido do que ela que ficou ali parada com aquela mão "gozada". Meio sem graça, meio perdida pra logo depois voltar a ter as feições duras, a coluna travada, as pulseiras voltaram a ter mil braços, os brincos cheios de orelhas. Recomposta, se ajeitou na cadeira, colares fazendo sssii, ssiisss. Travou a boca pra falar um "pois não" com o próximo enquanto eu fechava a porta de vidro levando comigo o tilintar dos pescoços. Siiisss, siiisss.

01/04/2012

Amo Viena!

Oi, só passei por aqui pra avisar que abri uma nova filial: www.amoviena.blogspot.com
Lá escrevo sobre dicas para os que passam por Viena e precisam comer, beber, dormir e se divertir na cidade. Bom proveito! Abraço, Livia

24/11/2011

Cap.39_Um belo trato

A coisa ser Brasil por si só já traz um monte de tropeços e emoções sem se fazer nenhum esforço, sem querer, assim só por espontaneidade... Veja bem, no Brasil pode ser comum igreja ao lado de motel, motel colado em cemitério e cemitério atrás de centro espírita. Ou por exemplo, tipo coisa super normal: Ana Maria Braga ás 9 horas da manhã em cadeia nacional ao vivo falando: "Quem nunca comeu um rabo, não sabe o que está perdendo..." Aqui na Áustria é diferente, é tudo pensado, regularizado, uma gavetinha pra cada coisa, um bairro pra cada gosto, um pensamento para cada intenção, uma frase para cada desejo. Mas até aqui o Brasil consegue se infiltrar com seu humor e sua originalidade e obrigar, eu, Lina Mares – cidadã séria, ciente dos meus deveres e direitos, completamente integrada na sociedade e costumes austriacais e alpinais – a formular este tipo de frase que também saiu espontaneamente, sem más intenções, por força da realidade que me encontrava e que me caiu tão bem, como Agrião com rabada. Enfim, nunca pensei que um dia eu fosse entender Madame Braga tão profundamente quando inauguraram assim do nada, colado na Embaixada do Brasil um salão só para depilação com método brasileiro (Brazilian Wax), talvez foi só ironia do destino colocar um estúdio de depilação tão perto da única instituição séria brasileira por estas bandas ou talvez uma jogada de marketing? Só sei que ouvi saindo de mim aquela frase que deixou maridão mais uma vez perplexo:
– Tchau, gostosão, vou na Embaixada buscar meu passaporte e aproveitar dar um belo trato na B-U...
Maridão perplexo:
– Wie bitte? (Cuméquié?) O trato do B-U no Embaixada?
– Depois te conto, ou melhor: te mostro :)))
Clique aqui para ver o rabo de madame Braga

28/10/2011

Cap.38_Os pretéritos do samba ou O samba "Plusquamperfekt"!

O pai foi criado no subúrbio de Viena. Odiava a escola por que segundo ele todos os professores eram nazistas, com exceção do professor de Desenho. Acabou virando artista, lógico. Raspou a cabeça dos lados, armou um moicano, tacou tachas no figurino. Com 18 anos ganhou de presente uma viagem à Amsterdam e foi todo eufórico experimentar as casas de café que vendiam haxixe do mundo inteiro. No meio do caminho um sujeito lhe vendeu uma mercadoria de primeira com qualidade superior a qualquer coisa encontrada nos locais, comprou. Ele e e seus amigos voltaram excitados para o hotel pra fazer o primeiro baseado da vida. Decep ão total: era tempero Maggi puro.
A mãe, brasileira, de criança pegou todas as micoses e perebas nas areias de Icaraí, cresceu e trocou a poluição da Bahia de Guanabara pelo mar limpo e cheio de "gatos" de Itacoatiara. Na roda de amigos além de torta de banana integral, biquini de crochê e muitos baseados, rolava também os mais diversos papos das mais diversas bocas:
– Cara, cu é foda de foder! Buceta por mais apertada que seja, é mole! – Falava Igor, bofe cheio de certezas que comia todas e não se enquadrava em nada, nem bicha, nem hippie, nem mauricinho. – Cu você precisa arrebentar as pregas, é muito mais dificil, cara! – E assim ela, que era a caçula da galera, foi crescendo e se moldando, entre um mergulho e um mate gelado, batendo palmas pro por do sol e acreditando que a era de aquário mudaria o mundo. Por um acaso veio para a Europa, por um acaso maior ainda parou em Viena e conheceu o cara do primeiro parágrafo.
Ele armava o moicano, jogava a jaqueta cheia de tachas pro cima do ombro e ia pro único bar de doidões em Viena, um porão enfumaçado ouvir Kraftwerk e The Residents. Enquanto isso do outro lado do oceano, ela se vestia com longos vestidos indianos, enfiava os pés numa sandália de couro e ia ver Sá e Guarabira na estaçao das Barcas.
Enfim, Thulio era filho deste casal, mistura quase impossível que de tão impossível acabou dando certo. A mãe usava sua lingua materna só para os adjetivos extremos, xingar ou amar. Para o resto ela dizia:
– Nada melhor do que ter uma gavetinha pra cada coisa, a vida decifrada em verbos moldais: können, sollen, wollen, müssen, mögen, dürfen. Poder, dever, querer, gostar, permitir-se, (ser) obrigado. Tão simples, né meu filho? Tá tudo aí o que a gente precisa pra ser um ser humano civilizado.– Ela arregalava os olhos excitada. Ele já a conhecia, quando ela começava com suas definições se empolgava de tal forma que era dificil fazê-la parar. E ela continuava:
– Bulas e manuais de instruções? Só em alemão. Lingua precisa, definida, nitida. Te agarrar e "socar" de beijos? Só dá pra falar em português, meu pequerrecho, pocorrócho, pucucho!
O mais velho ouvia uma frase e antes de sair batido, cochichava no ouvido do mais novo: "Liga não, é doidinha!"
– Modal vem de moldar. Assim se molda um ser humano, entende, Thuthu? Por que adorar, idolatrar, odiar, amaldiçoar isto tudo não faz parte da moldação, saca, filhinho? Faz parte da piração, sacou?
Thulio observava quieto os dois mundos em que aterrizou. Rapazinho dos 7 anos compenetrado, discreto, consequente. Assimilava tudo calado. E tinha certeza absoluta que pocorrócho, pequerrechos e etc. eram palavras nobres e genuinamente corretas da lingua portuguesa.
Complicava quando os pais brigavam por coisas banais como desembaraçar os cabelos de Thulio:
– Mas cabelo se desembaraça molhado!
– Não! Tem que esperar secar pra desembaraçar!
– Escuta aqui, você por acaso entende de cabelos? Você passou anos careca...
– Careca não, eu tinha um Moicano...
– E passava sabão em pedra pra armar! Eu sim tinha uma cabeleira encaracolada!
– Que nunca penteava...
– Nem precisava, tacava um Neutrox e tava beleza!
Thulio sabia esperar, ouvir, ponderar. 120 centímetros de gente super cool. Enquanto os dois falavam, ele montava uma arma mortifera com peças de Lego e conversava com seu Teddybär (urso de pelúcia):
– Enquanto eses dois streiten (discutem), as cabelos estão já seco ...
Um belo dia a familia jantava, tudo nos conformes. Silêncio. A calma da civilização pairava no ar. Thulio abriu a boca:
– Eu "querrro" aprender sambar!
Todos se entreolharam. A mãe na hora pensou: "Eu na condição de austriaca perfeitamente integrada no país, diria: Meu filho, aprenda Valsa, é muito melhor! E se eu fosse a mãe imperfeita seria: Ok, te matriculo no cursinho do Maurinho Mastro e aproveito vou junto! Mas num pretérito mais que perfeito..." – Ela abriu a boca grande e pulou da cadeira como que acordando de um pesadelo:
– AAAAAiiiiii!!! Meu filho não sabe sambar! SOCORRO! O que eu estou fazendo aqui? – Vira-se para o marido – E o pior: O que nós estamos fazendo com os nossos filhos, amôôr? Vão bora galera, já, já! – Thulio pensa: Ai, que mulher dramática! – A mãe não parava de falar enquanto retirava os pratos da mesa sem ninguém ter terminado de comer.
– Arrumem as malas por que estamos em outubro, a gente chega lá e até fevereiro temos tempo.– O pai olhava pro Teto: Mereço isto agora, meu Deus? A macarronada estava tão boa...."
Ela falava sem respirar, equilibrando os pratos numa mão e com a outra puxava o queixo do menino em direçao ao rosto dela:
– Mama te leva na Viradeiro toda semana, na feijoada da Mangueira, ah e a empregada da vovó já foi até porta-bandeira! Ela vai te ensinar tudinho!– O mais velho olha para a janela pra ver se não tem nenhum vizinho observando. A Surtada continuava:
– ... te inscreve pra ala mirim da Porto da Pedra e em fevereiro você vai fazer bonito na avenida! Bora, bora, gemma, gemma (= vamos!)! E ainda pro cima a gente vai comer feijão todo dia! – Ela encara a platéia. O pai agora olha pra baixo aonde deveria estar o teu prato, o maior enfiado com a cara numa revista em quadrinhos, Thuthu pensativo apoiando o queixo nas mãos.
– O marido da Fabíola apresenta você pro Hans Donner, amor. Pô, conterrâneo, brother teu, Schatz! – O marido protesta:
– Pra eu fazer coqueiro virar mulher e mulher virar arco-iris? Ah, você acha que eu levo jeito pra fazer isto?
– Com dinheiro na conta a gente leva jeito pra tudo, Schatz! E imagina você que adora futebol, assistir a copa do mundo no Maráca! – Os olhos brilahvam, os braços em segunda posição de ballet tentando descrever a grandeza do Maracanã.
– Eu me viro de guia turística, dou aula de alemão, e no pior dos casos monto uma barraquinha de Strudel e Knödels no posto 9 e... Ué, por que ninguém se mexe? Galera, hellôô!
Thúlio finalmente se manifesta:
– Mãe, vai dar não, meu Teddybär vai sentir muito calor no Brasil...

29/09/2011

Cap.37_Com quantos paus se fazem uma fogueira?

Aconteceu no início dos anos 80. Naquela época achar agulha num palheiro era mais fácil do que ver um negro por estas bandas. Maurinho Mastro, nego bonito, baiano cheirooooso que só ele, com ginga no corpo e sorriso irresistível, dentes branquiiiinhos, pousou por estas terras pra tocar numa dessas bandas em algum  festival destes numa destas cidades e acabou ficando. Vocabulário primitivo alemão, conquistava todos só com a simpatia. As austríacas caíam na cama dele que nem peças de dominó enfileirada, tum, tum, tum, tum.... E isto quando tinha cama. Por que Maurinho rodava a Europa de Combi junto com outros amigos tocando samba, bossa nova e essas coisas que gringo gosta. Òtimo percurssionista. Tinha ritmo no palco e na vida. Derrotava mulher e adversário só na lábia e no sorriso. 
Voltando da Suíça, a galera pára na fronteira pra ir ao banheiro e Maurinho vê jogado no gramado ao lado, vários pedaços de madeira em bom estado. Pô, a Combi vazia, o inverno chegando, as madeiras dando sopa... seria tudo de bom na lareira do apartamento emprestado que não possuia calefação. Maurinho rapidamente começou a colher as madeiras e colocar no carro. O policial louro, alto, forte vem á todo vapor em direção ao nego.
– Ei, ei, você ai, africano!
–Eu não sou africano, eu sou brasileiro!
– Aaah, brasileiro, africano, pra mim é tudo a mesma merda! Que idéia é esta de pegar estas madeiras? Você tá pensando que tá na Àfrica?
Maurinho, muito nervoso mas sem perder o bom tom:
– Eu não sou da África, eu sou do Brasil!
– Aaah, Brasil, África, pra mim é tudo a mesma merda!
Maurinho abre aquele sorriso "Tudibon" pra ajudar na  desculpa esfarrapada:
– Ah, seu Doutor. È que me disseram que aqui na Áustria, tudo o que a gente vê no chão, a gente pode pegar.
– Aqui não é a Àustria. Aqui é a Suíça! – Maurinho rapidamente fechou o porta malas, entrou no carro, ligou o motor e falou firme para o guarda: 
– Aaah, Áustria, Suíça, pra mim é tudo a mesma merda! – E saiu batido cantando pneu deixando pra trás o guarda pasmado.

25/07/2011

Cap.36_A Aterrizagem da ficha Brasil

Eu tinha acabado de chegar no Brasil. Deitei na cama exausta depois de quase 20 horas de viagem, dois aviões, esperas, dá um peito, dá outro peito e umas 10 fraldas sujas. O cheiro de feijão temperando no alho entrando pelas narinas. Mamãe mandando brasa no fogão e a dor nas costas confundindo minhas emoções. Mal conseguia me mover. Minha cunhada e muito amiga desde infância chegou e deitou suas mãos abençoadas de massagista profissional nas minhas costas. Pra cima, pra baixo. Forte, fraco. Repuxado, esticado, encolhido. Ritmado, leve, fundo, denso... gostooooso.
Acabada a sessão, virei o corpo agradecida:
– Minha linda, que delícia. Muito obrigada. Quanto eu te devo? – E já fui catando a carteira. Num primeiro momento ela ficou meio atordoada mas depois falou claro e firme:
– Vai tomar no cu!
Choquei.  
– O quê?
– Vai tomar no cu, mulher, que pagar o quê! – Fiquei meio sem graça e depois relaxei: Ah, chegueil! Wellcome home, Lina. Aterrizei na minha terra, aonde pessoas amigas te mandam tomar no cu por cortesia e amor.

29/10/2010

Coisas que nossos pais diziam e faziam...

Recebi este email de uma amiga e achei muito bom. De autor desconhecido. Mas me identifiquei muito (tanto no passado - como filha- e no presente - como mãe!)

Coisas que nossos pais diziam e faziam...
Uma forma, hoje condenada pelos educadores e psicólogos, mas funcionou com a gente e nem por isso saímos seqüestrando a namorada, nem matando os outros por aí, nem matando os nossos pais só para ficar com a herança e achar que seria feliz para sempre com o namorado também assassino...
Enfim, com esta Psicologia usada por eles, somos o que somos hoje !
Este texto sempre me vem a mente quando vejo as barbáries cometidas por jovens, teoricamente muito bem educados dentro dos padrões internacionais de etiqueta!

- Minha mãe me ensinou a VALORIZAR O SORRISO...
"ME RESPONDE DE NOVO E EU TE ARREBENTO OS DENTES!"

- Minha mãe me ensinou a RETIDÃO.
"EU TE CONSERTO NEM QUE SEJA NA PORRADA!"

- Minha mãe me ensinou a DAR VALOR AO TRABALHO DOS OUTROS...
"SE VOCÊ E SEU IRMÃO QUEREM SE MATAR, VÃO PRA FORA. ACABEI DE LIMPAR A CASA!"

- Meu pai me ensinou LÓGICA E HIERARQUIA...
"PORQUE EU DIGO QUE É ASSIM! PONTO FINAL! QUEM É QUE MANDA AQUI?"

- Minha mãe me ensinou o que é MOTIVAÇÃO...
"CONTINUA CHORANDO QUE EU VOU TE DAR UMA RAZÃO VERDADEIRA PARA VOCÊ CHORAR!"

Minha mãe me ensinou a CONTRADIÇÃO...
" FECHA A BOCA E COME!"

Minha Mãe me ensinou sobre ANTECIPAÇÃO...
"ESPERA SÓ ATÉ SEU PAI CHEGAR EM CASA!"

Meu pai me ensinou sobre PACIÊNCIA...
"CALMA!... QUANDO CHEGARMOS EM CASA VOCÊ VAI VER SÓ..."

Minha Mãe me ensinou a ENFRENTAR OS DESAFIOS...
"OLHE PARA MIM! ME RESPONDA QUANDO EU TE FIZER UMA PERGUNTA!"

Minha Mãe me ensinou sobre RACIOCÍNIO LÓGICO...
"SE VOCÊ CAIR DESSA ÁRVORE VAI QUEBRAR O PESCOÇO E EU VOU TE DAR UMA SURRA!"

Minha Mãe me ensinou MEDICINA...
"PÁRA DE FICAR VESGO MENINO! PODE BATER UM VENTO E VOCÊ VAI FICAR ASSIM PARA SEMPRE."

Minha Mãe me ensinou sobre o REINO ANIMAL...
"SE VOCÊ NÃO COMER ESSAS VERDURAS, OS BICHOS DA SUA BARRIGA VÃO COMER VOCÊ!"

Minha Mãe me ensinou sobre GENÉTICA...
"VOCÊ É IGUALZINHO AO SEU PAI!"

Minha Mãe me ensinou sobre minhas RAÍZES...
"TÁ PENSANDO QUE NASCEU DE FAMÍLIA RICA É? SEU ABOBADO"

Meu pai me ensinou sobre a SABEDORIA DE IDADE...
"QUANDO VOCÊ TIVER A MINHA IDADE, VOCÊ VAI ENTENDER."

Minha Mãe me ensinou sobre JUSTIÇA...
"UM DIA VOCÊ TERÁ SEUS FILHOS, E EU ESPERO ELES FAÇAM PRÁ VOCÊ O MESMO QUE VOCÊ FAZ PRA MIM! AÍ VOCÊ VAI VER O QUE É BOM!"

Meu pai me ensinou RELIGIÃO...
"MELHOR REZAR PARA ESSA MANCHA SAIR DO TAPETE ANTES QUE A SUA MÃE VEJA!"

Minha mãe me ensinou o BEIJO DE ESQUIMÓ...
"SE RABISCAR DE NOVO, EU ESFREGO SEU NARIZ NA PAREDE!"

Minha mãe me ensinou CONTORCIONISMO...
"OLHA SÓ ESSA ORELHA! QUE NOJO!"

Minha mãe me ensinou DETERMINAÇÃO...
"VAI FICAR AÍ SENTADO ATÉ COMER TODA COMIDA!"

Minha mãe me ensinou habilidades como VENTRÍLOQUO...
"NÃO RESMUNGUE! CALA ESSA BOCA E ME DIGA POR QUE É QUE VOCÊ FEZ ISSO?"

Meu pai me ensinou a SER OBJETIVO...
"EU TE AJEITO NUMA PANCADA SÓ!"

Minha mãe me ensinou a ESCUTAR .....
"SE VOCÊ NÃO ABAIXAR O VOLUME, EU VOU AÍ E QUEBRO ESSE RÁDIO!"

Meu pai me ensinou a TER GOSTO PELOS ESTUDOS..
"SE EU FOR AÍ E VOCÊ NÃO TIVER TERMINADO ESSA LIÇÃO, VOCÊ JÁ SABE!..."

Minha mãe me ajudou na COORDENAÇÃO MOTORA...
"AJUNTA AGORA ESSES BRINQUEDOS!! PEGA UM POR UM!!"

Minha mãe me ensinou os NÚMEROS...
"VOU CONTAR ATÉ DEZ. SE ESSE VASO NÃO APARECER VOCÊ LEVA UMA SURRA!"

E PRA FINALIZAR, ESSA ACHO QUE TODOS OUVIRAM E APRENDERAM:

Meus pais faziam questão de sempre me lembrar, que eu não sofria de distúrbios mentais ...

Você não é louco de fazer isso !!!

Muitíssimo Obrigado : PAI E MÃE !!!

30/06/2010

Frases geniais do futebol


'Chegarei de surpresa dia 15, às duas da tarde, vôo 619 da VARIG.'
(Mengálvio, ex-meia do Santos, em telegrama à família quando em excursão à Europa)
'Tanto na minha vida futebolística quanto com a minha vida ser                     humana.'
(Nunes, ex-atacante do Flamengo, em uma entrevista antes do jogo de despedida do Zico)
'Que interessante, aqui no Japão só tem carro importado.'
(Jardel, ex-atacante do Grêmio)
'As pessoas querem que o Brasil vença e ganhe.'
(Dunga, em entrevista ao programa Terceiro Tempo)
'Eu, o Paulo Nunes e o Dinho vamos fazer uma dupla sertaneja..'
(Jardel, ex-atacante do Grêmio) 
'O novo apelido do Aloísio é CB, Sangue Bom.'
(Souza, meio-campo do São Paulo, em uma entrevista ao Jogo Duro)
'A partir de agora o meu coração só tem uma cor: vermelho e preto.'
(Jogador Fabão, assim que chegou no Flamengo)
'Eu peguei a bola no meio de campo e fui fondo, fui fondo, fui fondo e chutei pro gol.' 
(Jardel, ex- jogador do Vasco e Grêmio, ao relatar ao repórter o gol que tinha feito)
'A bola ia indo, indo, indo... e iu!' 
(Nunes, jogador do Flamengo da década de 80)
'Tenho o maior orgulho de jogar na terra onde Cristo nasceu.' 
(Claudiomiro, ex-meia do Inter de Porto Alegre, ao chegar em Belém do Pará para disputar uma partida contra o Paysandu, pelo Brasileirão de 72) 
'Nem que eu tivesse dois pulmões eu alcançava essa bola.' 
(Bradock, amigo de Romário, reclamando de um passe longo)
'No México que é bom. Lá a gente recebe semanalmente de 15 em 15 dias.' 
(Ferreira, ex-ponta esquerda do Santos)
'Quando o jogo está a mil, minha naftalina sobe.' 
(Jardel, ex-atacante do Vasco, Grêmio e da Seleção)
'O meu clube estava a beira do precipício, mas tomou a decisão correta, deu um passo a frente.' 
(João Pinto, jogador do Benfica de Portugal)
'Na Bahia é todo mundo muito simpático. É um povo muito hospitalar.' 
(Zanata, baiano, ex-lateral do Fluminense, ao comentar sobre a hospitalidade do povo baiano)
'Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático.'
(Vicente Matheus, eterno presidente do Corinthians)
'O difícil, como vocês sabem, não é fácil.' 
(Vicente Matheus)
'Haja o que hajar, o Corinthians vai ser campeão.' 
(Vicente Matheus)
'O Sócrates é invendável, inegociável e imprestável.' 
(Vicente Matheus, ao recusar a oferta dos franceses)


20/06/2010

Cap.35_ A brasileira "Wahnsinnada"

Dois amigos austríacos tomando cerveja numa Gasthaus (Restaurante tipo pensão) austríaca.
Os copos de meio litro de cerveja se encontram:
– Prost! (Tin-tin!)
– Prost! Você lembra daquele meu amigo de escola que virou artista?
– Aquele que se casou com uma brasileira?
– É, esse mesmo. Rapaz, você sabe que ele me convidou pra assistir ao jogo da Copa na casa dele e pô, nem te conto... Des is a wahnsinn *... (Maior Loucura!)
– Por quê?
– Cheguei lá, a mulher dele me recebeu cheia de beijos, me colocou um copo de cerveja na mão e me puxou pelo braço falando nervosa: "Já começou o jogo! Vamos lá pra sala". E não parava de falar e eu perguntei pelo marido dela e ela disse que depois ele vinha, estava dando banho nas crianças. Pô, na hora do jogo e ele que tem que cuidar das crianças?
– Casal moderno...
– Eu sempre achei ele meio esquisito, fora do esquema, varstehst?* (sabe?) Mas escolher uma mulher dessas pra casar? I waß des ned...(Sei não... ) Imagina só: A casa fede a alho, eles fedem a alho, é comida e bagunça o tempo todo. Eu mal sentei no sofá e ela me empurrou um prato na mão...
– Eles não têm mesa?
– Doch! (Tem!) Mas ela disse que no Brasil é assim, não sentam na mesa, todo mundo come em qualquer lugar, falam ao mesmo tempo e veem televisão a todo volume.
– Des gibts net (Não é possível!). A Wahnsinn! (que doideira!)
– E a comida? Rapaz, des is a echt Wahnsinn (É uma verdadeira loucura!), ela veio me explicar que aquilo era Fusionsküche (Cozinha fusionada) por que era meio um Beuschel** e meio um prato lá, sei lá o nome que ela deu...
– E era o quê?
– Ah, era os nossos miúdos do Beuschel mas ao invés de Sauerrahm (Creme azedo) ela colocou um molho de tomate que tinha alho e cebola que era uma Wahnsinn! (Loucura!)
– Au weh! (Ai caramba!) Eles misturam alho e cebola? A Wahnsinn...
– Misturam tudo! E ao invés do nosso Semmelknödel, ela fez uns bolinhos de Polenta com queijo... Aliás de miúdo só tinha coração de galinha. Des is ka Scherz (Não tô brincando)
– Então de Fusão tinha muito pouco, não deu nem para o prato atravessar o Atlântico. Mas estava bom?


– Bom tava, muito bom mas diferente né? Mas muito bom. E o pior de tudo é que ela foi me explicando as estratégias dos jogadores: "Kaká tá vacilando, tem que furar este paredão de coreanos...Passe errado! Investe no contra-ataque, Brasil". Toda histérica, vestida de verde e amarelo...
– A Wahnsinn das Waib... (Mulher louca)
– Rapaz, até sombra amarela a mulher botou! E os berros? "Ai, UUUUUiiii, NÃO,NÃO, VAI, VAI!!" Parecia que estava fazendo outra coisa...
– E quando foi gol, ela deu um berro?
– Berro? Além de berrar, a Waib (perua) pulou em cima do sofá e começou a se balançar toda! A Wahnsinn...
– Samba?
– Ka Ahnung! (Sei lá!) Aquela dança que os quadris quase parece que vão sair do corpo...
– Mas com esta confusão toda as crianças estavam dormindo?
– Dormindo nada, os Burli (Guris) estavam olhando espantados pra Mãe, o mais velho meio envergonhado...
– E o teu amigo?
– Ele deu um tapinha nas minhas costas e falou rindo: Liga não, ela sempre fica assim quando vê jogo da Celessoouu, Cecessaaauu...
– Seleção.
– Isso. Mas narrou o jogo melhor do que o Oliver Polzer (Comentarista austríaco)
– Mas isso não é nada difícil.
– Haha. Tem razão. Enquanto o tal do Polzer só falava de 10 em 10 minutos: Kaká, Kaká, ela narrou o jogo inteiro! Só sei que me senti um leigo completo, a mulher entendia de futebol melhor do que eu...
– Echt wahr? Jura? Nunca vi disso... E quando a Coréia fez o gol? O que ela falou?
– Nada.
– Então foi silêncio total? Por que o Polzer também não falou nada...
– Silêncio total! A Wonsinn! Depois eu li no jornal que parece que nesta hora o Polzer foi no banheiro...
– Haha. Herr Ober - Levanta o copo de cerveja vazio– Mais duas!
– Se é um troço que não combina é mulher e futebol. Que nem comer um Schnittzel (Bife à milanesa) com arroz ou...
– Linguiça com feijão...
– Ah, isso combina sim, comi outra vez num jantar que ela deu, uma delicia, tem um nome esquisito ferrada, veijada, sei lá, mas tava muito bom.
– Estes Ausländer (estrangeiros) são a Wahnsinn... ! (uma doideira...!)
– Ela não é Ausländer (estrangeira), ela é brasileira!
– Como assim? Desde quando brasileiro não é Ausländer?
– Você por acaso chama alemão ou americano de Ausländer (Estrangeiro)?
– Não...
– Então! É a mesma coisa. Brasileiro não dá pra chamar assim, vastehst? (saca?). Ausländer é turco, iugoslavo, polonês e toda aquela galera lá do leste...
– Você quer dizer brancos, pobres e tristes? (Risos)
– É, mais ou menos por aí. Olha, cara, eu não sou racista, sou liberal pacas, nunca votei nos radicais de direita...
– E nos liberais de direita? (Risos). Afinal é tudo a mesma coisa: Ausländer raus! (Fora estrangeiros!)
– Hiii, lá vem você com este papo multikulti-dreadlook.
– Você se esqueceu dos africanos... Eles são o que então?
– Não são Ausländer, são Extraterrestres. Haha!
– Du bist a Wahnsinn! (Você é louco!)
– Acho melhor a gente mudar de assunto. Herr Ober (Senhor Garçon), manda mais duas! Mas voltando a nossa conversa, na waas (você sabe?), eu só estou te falando isso porque você é meu chapa. Pô, odeio fofoca mas foi muito esquisito tudo aquilo. Uma mulher assim não sei se eu iria gostar não...
– Na Wahnsinn, coitado do teu amigo...
– Pois é mas ele parece ser tão feliz...
– Vai ver que os dois se entendem bem...
– Com certeza. Na heast (escuta só), vou te contar um lance. Uma vez eu estava indo comprar um anel de diamantes pra minha mulher e topei com ele na rua e fomos tomar um café no Prückel. Daí o cara me veio com uns conselhos. Me falou pra eu guardar meu dinheiro e usar em outras coisas e eu argumentei que ela já estava faz tempos me enchendo o saco por que queria um anel de brilhantes e ele me disse: “Mei liaba freind (meu querido amigo), não caia nesta roubada, pra você fazer uma mulher feliz, ela só precisa de duas coisas: ser respeitada e bem comida. Todo o resto é perda de tempo e de dinheiro”.
– Na echt? (Jura?) Ele falou assim mesmo?
– Klar! (Claro) E explicou: Você dá o anel pra ela hoje, amanhã ela arruma um que come ela bem gostoso, ela te dá tchauzinho e ainda leva o anel... Mas se você comer ela bem gostoso sem tratá-la bem, ela um dia arruma um que a respeite por que ninguém gosta de ser maltratado por mais bem comido seja. Então vai pra casa e capricha, mei liaba! (meu querido)
– E se você fizer isto e ela te trocar por um outro que dá muitos anéis de brilhante?
– Foi o que eu perguntei e ele me disse: Te trocar por outro com mais grana, mesmo sendo respeitada e bem comida? Então é mau caráter e já vai tarde, mei liaba! (meu chapa!)
– E o que você fez?
– Fui pra casa e mandei ver! Depois da transa até me desculpei por não ter trazido o anel e sabe o que ela falou?
– Wos? (O quê?)
– "Ah, pra quê um anel de brilhantes? Bobagem, amor, não quero mais não... ". E nunca mais falou sobre isto.
– Na, Wahnsinn! (Não, que loucura!)
– Echt Wahnsinn! (Loucura mesmo!)
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*Pequeno dicionário de gírias vienenses:
vastehst = verstehst du? = você entende?
Des is a Wahnsinn = Das ist ein Wahnsinn = Uma Loucura, Doideira.
I waß des ned = I weiss es nicht = Eu não sei
Waib = Weib = Fêmea, Perua
Des is ka Scherz = Das ist kein Scherz = Isto não é piada!
Ka Ahnung! = Keine Ahnung! = Não tenho a menor ideia!
Burli = Bursche = Guri, Garoto
Mei liaba Freind = Mein lieber Freund = Meu querido amigo, Meu chapa, Meu "cumpadi"
**Beuschel= Prato com miúdos de porco. Veja mais sobre o Beuschel na crônica: Curtindo a praia errada