06.06.2014

A formiga e a mulher em questão

É uma formiga que se transforma num monstro. Aparece do nada, aparece tipo formiga. E tudo começa de uma forma inofensiva, uma forma formiga.
– Ai, os óculos sumiram!
Formiga ainda inofensiva, pequena, inocente. Ela – a mulher em questão, sem pretensão – sai andando pela casa procurando. Passa pelo banheiro e vê o cesto enorme de roupas sujas, procura no quarto e descobre poeira debaixo da cama.
– FDP da faxineira que não limpou!
A formiga começa a crescer. O marido acorda de bom humor e resolve ajudar. O que a irrita mais ainda. Formiga peluda, bem alimentada, um rato? Ela já cansada da semana, do mês, do ano, começa a amaldiçoar. Primeiro os próprios óculos. 
– Maldito, cadê você?
Formiga fluorescente, pernas de aço, anda com desenvoltura esbarrando nos móveis do pensamento da mulher. E deste ponto para o ponto monstro é um passo:
– Essa casa está uma bagunça! Eu não agüento mais!
Ela berra pelos aposentos da alma. Por fora, só bufa. Respira fundo e tenta se controlar. 
– São só uns óculos perdidos, são só uns óculos perdidos, nada mais, nada mais…
A formiga começa a murchar, pelos caem. Oxigênio sendo bombado para o cérebro da mulher em questão (ou seria em tensão?). Ela tenta relaxar. Formiga de gato pra rato de rato pra barata, definhando…
– Tá tudo bem, o dia acabou de começar, eu acabei de levantar…Tá tudo bem, tá tudo bem…
Formiga-barata perdendo o fôlego, os pêlos, as penas, o ar… Mas então ela lembra que em dois dias tem uma gravação. 
– E se eu não achar? Com que óculos eu vou?
Formiga inchadaça. Formiga-cachorro, formiga-urso, formiga-monstro.
– Ai, meu Deus, eu tenho tanta coisa pra fazer hoje, e amanhã…E ontem eu nem consegui fazer nada…
Os berros passam do universo mental para o oral palpável e recheado de altos decibéis:
–  Que bando de livros jogados é este aqui? Catem estes brinquedos já! Eu sempre tenho que fazer tudo!
Formiga já ocupa um aposento inteiro, soltando uma baba verde e fedorenta pela boca. Ela, a mulher em questão pra lá da tensão, continua a procurar, procurar. 
– Eu estou cansada, eu quero paz, eu quero casa arrumada!
A mulher em questão como um furacão, anda pelos aposentos caçando vítimas. Patinetes, bolas de gude, seres humanos, vegetais… Qualquer um serve. A formiga grudada no roupão dela, da mulher-furacão. Formiga enorme, fedorenta, peluda, inchada. O público – filhos e marido – resolve ignorar porque já conhece a performance. Ela se desespera, tudo menos a indiferença! E parte para mais um ataque. A formiga-monstro sobrevoa sua cabeça soltando grunhidos estridentes. Fedorenta, peluda, gosmenta.
–Vocês me deixam louca! Eu não tenho sossego, tenho que fazer tudo sozinha!
O marido dá sugestões: 
– Talvez os óculos estejam debaixo de um jornal, de um livro?
A pior coisa que pode existir é alguém calmo quando você quer briga. 
– É, é, éééé???
Deboche é a solução pra a mulher em questão cheia de tensão. E que pelo visto demorará ainda um tempo pra sentir a última palavra da frase anterior sem a letra "n". E o discurso continua. A formiga-monstro já imensa quer sair pelas janelas e portas do apartamento. Ela dá um grito. 
– AAAAAHHHHH!
O monstro solta um peido horroroso. Ela, a mulher em questão explodindo tensão, se joga no sofá. O sermão dona-de-casa-mulher-independente-filhos-bagunceiros-marido-calmo-demais ainda comendo solto. Ela se joga aonde? Eu falei sofá? Almofadas? O que é isto aqui embaixo? Ela quase fala, mas só pensa:
– Estes FDP destes óculos tinham que aparecer logo agora! Não, não pode ser! Você que desejava tanto que eles ficassem desaparecidos por um bom tempo para dar palco a todas as emoções injustamente apoderadas do teu ser… Mas não, acabou o ato! E o pior, você tem que sorrir pra todo mundo e dizer feliz um… Vai, solta, diz logo: 
– Achei! achei!
Ela, a mulher em questão cheia de tensão, à caminho de aniquilar o "n" da tal palavra em menção, grita fingindo felicidade. Fingindo? A formiga – pequena, microscópica, nanoscópica – se recolhe nas fendas das paredes do pensamento dela. 
– Até a próxima.
A formiga se despede da mulher em questão, involuntária e repentinamente livre de toda tensão.

09.05.2014

Minha entrevista ao canal Meio Norte sobre Viena

Viena. Os costumes, as pessoas, uma casa de café e um pouco de história.

O Rolezinho básico pela cidade:


Passaporte em 04.05.2014 - bloco 1 von redemeionorte

P.s: Confesso que errei: Klimt e seus amigos fundaram a Secession. O arquiteto Olbrich a construiu.

A entrevista na Casa de Café:
(Começa no segundo minuto)


Passaporte em 04.05.2014 - bloco 2 von redemeionorte

E para quem ainda não leu: Uma crônica em que escrevo um pouco sobre este período mágico que foi o início do século passado na cidade.

Bitte, curtam, comentem, compartilhem.
Danke ;)

03.04.2014

Cap.48_O duelo das desterradas

Na penteadeira
Eu a via através do espelho de aumento. Olhos esbugalhados , órbitas em evidência. Ela passava rímel e cada cílio disparava uma frase. "Antes de botar pra dormir, tem que escovar os dentes, colocar o pijama…".  Cheiro de alho saindo pela boca, "…Mas antes pergunta se não quer comer nada". Quando eu cheguei ela ainda engolia um macarrão com tomate e aliche, se fosse outra coisa mas aliche? Já não gostei. Falava sem parar. Andava pela casa, catava lenços largados, sapatos pelos cantos, casacos pendurados. a casa uma bagunça só. Com certeza é a cara dela esta desordem. Será que não vai passar nem um perfuminho pra disfarçar este fedor de alho e aliche?

Esta pelo menos acertou chegar sem eu ter que rebocar da esquina. Por que muitas não conseguem nem achar o prédio. Acham que o número 26 de um lado da rua tem que estar bem na frentinha do 27 e desistem depois de verem que o 26 tá de cara com o 34…Mas esta não, nível bom, nível bom. Formada ainda por cima. Deve ter se apavorado com o meu jeito e o meu bafo de alho. Foda-se. Tô pagando e caro por hora pra ficar mais da metade do tempo vendo tv ou dormindo. Ainda bem que dei bastante coisa pra ela fazer. Dar banho nos "pintos", fazer mingau, mixto quente, cacau, botar pijama, escovar os dentes, ler estorinhas, botar pra dormir. Cê pensa que é mole, fofa? Filho é ralação. Esta então que veio "trazida"não sabe ainda o que é ralar no velho mundo. Ainda não mergulhou na água gelada da realidade alpina. Já chega com um teto sobre a cabeça e o aquecedor ligado…


No corredor
Vou enfiar estas crianças na cama às 8 da noite e acabar de ler meu livro. Que país é este que eu fui arrumar pra viver? Bendito dia que este homem me tirou de lá. De lá de aonde eu vim pra cair no meio destas pessoas de raízes arrancadas, de frases entonadas com melodias estranhas... Uma gente desbotada pela falta de origem. Que nota é esta, minha santa? Que sotaque é este? 

Como assim ela não precebeu que eu sou carioca? Da clara mas sou, ora! Tudo bem que o sotaque é esquisito e meus filhos falam "eu querro um homem-arranha" mas tá no sangue, gata. Será que eu não me demoro mais nas vogais? Será que não sentem mais as ondas quebrando na melodia do meu "E aííííííí?Tudo beeeeeiinnn?". Achar que eu sou do sul? Com samba no pé e abundante melanina no sangue? Viajou geral!

No quarto das crianças
Estas crianças tem cara de serem levadas… Bom , ainda bem que pelo menos a teoria eu tenho, né? Analisei todas as experiências de Piaget, conclui a faculdade com Honor e me aparece um austríaco pra me arrancar da minha possível brilhante carreira de pesquisadora pedagógica especializada em diferenciamento social e cultural de povos de origem indígena. Se bem que… entre me adentrar na Amazônia, pegar uma febre amarela, dar pra índio que não sabe trepar e comer mandioca o dia inteiro ou morar na Europa com um bofe gostoso, culto, inteligente e que me come super bem… Acho que fiz a melhor escolha. 

Eles nem precisavam de banho por que já tinham tomado ontem. É, só tomam dia sim, dia não. E eu não vou entrar numa de explicar pra alguém que acabou de chegar que tá certo assim por que do contrário, estraga a pele e ajuda a aumentar minhas rugas. Sim, ajuda! Imagina, eu ocupadérrima, louca, levar meia hora pra convencer dois pestinhas a entrar na banheira e depois mais meia hora pra convencer de sairem da banheira? Tô fora! Mas não vai dar pra fazer palestra agora sobre a necessidade quase nula de higiene corporal neste frio. Este povo récem chegado não tem nível pra entender estas coisas.

No banheiro
Sm, já entendi, santa, é só colocar um pouco de sabonete líquido na banheira, enfiar os pintos lá dentro e tirar. Não precisa enxaguar, sei, sei. Vê se isto é jeito de tomar banho! Por sinal esta tá com cara de que só vê água uma vez por semana... Desde que eu cheguei, estou me divertindo em criar uma nova fórmula matemática. Quanto mais tempo o brasileiro mora por estas bandas, menos banho ele toma. É batata! É só perguntar quanto tempo ela já vive aqui.

Tem umas que chegam e passam meses lavando o cabelo todo dia. Até que caem na real que não dá, o cabelo fica uma merda. Os casos mais sérios são as baianas que chegam pra fazer faxina de manhã de banho tomado. Eu deduzia pelo cheiro de sabonete "Dove": " Você toma dois banhos por dia!" E a resposta: "Ó, xenti, claro!" Claro? Quando está fazendo menos 5 lá fora? Ok, daqui a uns 5 anos a gente conversa.

Na sala
Ela até tem cara de ser uma pessoa interessante mas os anos fora do país estão escancarados nestas rugas de expressão. Como uma colagem meio disforme. Um remendo de culturas, um apanhado de vivências ao vento, uma angústia mal resolvida e a certeza de que antes, antes de tirarmos os pés daquela terra tudo era mais digerível, palpável… até previsível. Sim, dentro de toda a imprevisão reinante no cosmo Brasil, existe o previsível do ser Brasil. Agora aqui não…Me sinto suspensa. Querendo sem estar, querendo sem poder. A língua estranha, as pessoas no mínimo esquisitas. Bota esquisita nisto, esta aí então…

Ela está ainda tão crua, coitada… Este sorriso espontâneo, esta simpatia inútil. Dá até pena imaginar ela na fila do mercado, entre rostos carrancudos e cheiros hóstis, andando nas ruas numeradas e emplaquetadas e ela no meio tão perdida… 

No sofá-cama
Não sabe que horas vai voltar? Como? Dormir aqui? Não querida, eu não durmo em serviço. Que ousadia! Já começou mal, tá com cara de que vai querer abusar. Bem que me avisaram que não dá certo trabalhar pra brasileiro no exterior.

Qual é o problema de dormir aqui? Odeio gente com frescura. Tá com medo de quê? Eu que não vou falar nada, cada um, cada um. Mas isto me quebra. Ter que voltar cedo pra ela poder pegar o metrô. Eu que quase não saio e convenci o marido a dirigir na volta pra eu poder encher a cara…

Na cozinha
Será que tem comida nesta geladeira? É pedir muito mas de noite se bater uma fome… Além de livro da próxima vez eu trago comida também. 

Será que ela vai atacar a minha geladeira? Nem ofereci a janta… Melhor ficar quieta, ai que horror. Nunca pensei que um dia eu me transformaria nesta pessoa que eu sou! Que considera comida feita com as mãos algo sagrado e valioso. Mas se ela soubesse o trabalho que me deu fazer aquele picadinho, ai, ai. ela me entenderia…

No armário
Uma pulseira, duas, três. anéis, colares… Nossa, quanto apetrecho! Esta é perúa mesmo. 

Será que eu pergunto pra ela se tá demais de balangandães? Melhor não, nem conheço a figura e pelo visual ela faz a linha clean, ihh, tô fora. Melhor ficar na minha e fingir que sou super segura. Quatro, Cinco…Acho que rola mais um colar…Ah, e claro: um par de belos brincos!
Vendo TV
Vai, vai logo. me deixe sozinha com estes "pintos". Tão fofos mas… que tem carinha de levados, tem! Tudo bem, eu entendi toda a palestra, santa, esqueceu que eu sou formada em pedagogia? Na prática o buraco é bem mais embaixo, eu sei e hum… Será que eles vão acabar comigo? 

Bom, o resto é com ela. Eu expliquei sobre colocar limites, crianças são como cavalos, na hora que você senta em cima, o bicho já sente se você sabe cavalgar ou não. Portanto é sempre bom ter as rédeas sob controle. Espero que esta não me chame no meio do cinema chorando como fez uma outra: "Eles sumiram com os meus óculos, eles são impossíveis!". Hum… Será que ela vai dar conta do recado?

No cabideiro
Nossa, mais de vinte anos morando aqui? Ai, meu deus, será que eu quero? Será que é isto mesmo? Cadê o meu ticket de volta? Cadê o botão revert?

Precisava fazer esta cara como se eu tivesse uma doença contagiosa? Sim, são mais de vinte anos muito bem vividos, fofa. Não troco minha juventude vienense dos anos 90 por nenhuma juventude carioca de seja qual ano for.

Na porta de saída
Mas depois de se montar toda, se enperequetar e se maquiar a pessoa me taca um capacete de bicicleteiro na cabeça? Completamente sem noção esta mulher. Será que eu vou ficar assim?

Ela nem olhou pra eles direito… Hum, por via das dúvidas vou deixar o celular ligado. Tudo bem que é formada e tem nível mas tô achando esta garota completamente sem noção. Será que eu era assim?

21.12.2013

Cap. 47_ Crônica em três atos

“Geschichte ist ein Netz unbeabsichtigter Folgen.”
(A história é um entrelaçado de conseqüências involuntárias.)
Max Weber


ELA

Eu quero! 
– Eu quero! – Ela quase gritou, firma e decisiva.
Tinham chegado ao banheiro, ou melhor, à sala de banho. Tomando quase todo o aposento, reinava uma banheira enorme, novinha, gostosa! O corretor que não parava de falar, foi interrompido pelo quase grito. Os dois candidatos que não se conheciam e até então tinham ouvido tudo calados, inspecionavam com o olhar as paredes e de rabo de olho, um ao outro. 

O apartamento
O apartamento era razoável num lugar razoável, preço razoável. Ela, enquanto entrava e pisava nos tacos de madeira maciça, se lembrou do conselho da colega mas se deteve um pouco, olhou furtivamente o outro interessado e achou estranho não decifrar através do cheiro, do sotaque e do tom de pele de onde ele seria…. 

O avô dela
O avô nasceu índio siberiano. Sim, índio Nenets. Puxava trenós, montava tendas e alimentava as renas que forneciam leite, carne e pele. Um dia resolveu deixar a tribo e partir rumo ao sul. A avó nasceu em Shilka e querendo melhorar de vida, partiu rumo oeste. Conheceram-se no Expresso Transiberiano em algum ponto deste país russo infinito. Fugiram do frio, das guerras, da falta de perspectivas. Nasceu a mãe que foi criada nas margens do Mar Negro. Enquanto os pais evitavam um conflito racial, a filha foi ao encontro disto: se apaixonou por um cigano. Os jovens tiveram uma menina e a família se deslocou em direção à chamada Europa dourada, em busca de mais calor, melhores empregos e menos preconceito racial. Vida digna, enfim.

Chegaram à Viena
Chegaram à Viena. A mãe conseguiu emprego como cuidadora, o pai tocava música cigana na rua. Moravam num apartamento substandard, ou seja, sem banheiro e com WC em comum no corredor do prédio. O pai instalou um box com chuveiro na cozinha, entre a pia e o fogão. Enquanto ela tomava banho, o cheiro do sabonete se misturava com o cheiro de Borch (sopa de carne e beterraba) que a mãe preparava. 

A garota
A garota cresceu determinada a encontrar um espaço mais agradável para morar. Trabalhava como atendente numa cadeia de perfumarias e assim que foi promovida à gerente, resolveu procurar um apartamento. Marcou com um corretor para visitar o imóvel. Antes disso, a colega de trabalho lhe deu a dica.
– Se você gostar, assim que entrar, fale firme e alto: eu quero. Mas não dá bobeira, seja rápida. 
– Sério?
– Sério. Quem se manifestar primeiro, leva!

ELE

Era um quarto-sala
Era um quarto-sala. Categoria A como chamam na Áustria, ou seja com cozinha, WC e banheiro dentro. Pra ele que veio das Américas algo óbvio, mas para prédios construídos há dois séculos atrás nem tanto.O apê tava OK, preço OK mas… Ele passou o olhar pelo pé direito alto descendo até os cabelos negros dela, ela, a outra interessada pelo imóvel. “De onde será que ela vem? Esta pele muito branca, estes cabelos muito negros… E este cheiro de almíscar…”
Foi sacudido de seus pensamentos quando ela falou cheia de si:
– Eu quero!
Ele sem entender direito, replicou:
– Eu também!
Mas as regras do jogo eram claras e pra ele ficou valendo o ditado: “Im Nachhinein ist man klug”, tipo um: a partir de agora eu já sei. O primeiro a se manifestar, leva. Sendo assim, ela assinou o contrato em cima da pia e o corretor lhe entregou as chaves. 

O Avô dele
O Avô dele trabalhou derrubando árvores na construção da Transamazônica. A avó perambulou pela selva junto com a tribo indígena disseminada. Passando fome, humilhação, vergonha. Em algum lugar neste fim de mundo se encontraram. Ambos procurando algo sem saber como: uma vida mais digna. A mãe nasceu e a família resolveu descer para a metrópole. Rio de Janeiro. 

A mãe
A mãe teve vida simples de menina. Arroz, feijão e vista exuberante para o mar do barraco no qual morava. Cresceu e casou com o vizinho, um negro baiano descendente de escravos que trabalhava como operário e “morreu na contramão atrapalhando o trânsito”, deixando mãe e filho na barriga ao Deus dará. A mãe conseguiu um emprego de doméstica. Trabalhava e morava na casa de um empresário austríaco. Este, por sua vez, indo na contramão dos costumes locais burgueses, colocou o garoto no mesmo colégio estrangeiro dos seus filhos. Mãe e filho habitavam um quartinho minúsculo com um banheiro também minúsculo onde o vaso tomava banho junto toda vez que se abria o chuveiro. 

O guri
O guri cresceu e resolveu beber da fonte. Atravessou o Atlântico doido pra ver todo o azul que o velho-novo-mundo lhe prometia: o Danúbio e a íris das louras. Antes se informou direito com o patrão da sua mãe como chegar perto de uma mulher, como convidar para sair e outras coisas mais… 
– Nunca chame de gata mas sim de Maus (camundonga).
– Tem certeza, seu Schmidt?
– Absoluta!
Ambicioso e amigável, carregava nas veias todo um Brasil de milagres e injustiças. De árvores derrubadas e genocídios. Racismo e aculturamento. Favelas e bondade. Escola particular alemã e escravidão moderna. Transamazônica e Barata Ribeiro. 

Ele chegou em Viena 
Ele chegou em Viena numa noite de inverno pouco antes do natal. Passeou pela avenida principal do centro entre as lojas fechadas e observou que as pessoas não andavam, valsavam pelas ruas. Riu. Não só devagar mas devagar e ritmado, harmônico. Gostou.

Se virou bem. Com um diploma técnico foi fácil arrumar emprego. Precisava então de um apartamento. Marcou com o corretor uma visita ao tal imóvel de preço OK. Mas a beldade alva de cabelos negros tinha sido mais rápida.

NÓS

Ela feliz
Ela feliz, ele meio perdido, deixaram o prédio. Dois estranhos. Cada um iria para um lado mas ele teve a ousadia de chamar ela para um cafezinho em pé no bar logo ali na esquina. Ela aceitou para matar a curiosidade de saber mais sobre esta pessoa exótica. Exótica no falar, no andar, no olhar. Conversaram bastante e trocaram as confidências de uma vida marcada por chuveiros em lugares errados. 
Lugares errados… Pessoas certas? Ele pagou o café e ela puxou-o pelo braço. 
– Venha, eu quero ver a banheira de novo!
Voltaram ao apartamento, demoraram para chegar ao banheiro. Treparam em cima da pia, no chão da sala, no parapeito interno da janela. Encheram a banheira de água quente e viraram crianças de novo. Tamanha a alegria. 
Se enxugaram com papel higiênico e cada um tomou o seu rumo.

3 dias depois 
3 dias depois o interfone toca e ela atende:
– Talvez a senhora possa me ajudar, preciso de um banho de banheira… especial...
– Com prazer! E o senhor também poderia me ajudar? Estou precisando de ajuda para montar uma estante…especial…

Uma semana, um mês. Ele voltava todos os dias. Até que o verbo voltar não fazia mais sentido, pra alguém que nunca tinha ido embora. Um ano, uma década. 

O berro 
– AAAAIIII!!!
O berro veio da banheira. Ele entrou correndo, assustado.
– O que aconteceu?
– Coloquei cascas de tangerina na água e tô me ardendo toda! Ai! AAAAII!!!
– Haha, que idéia maluca!
– Li numa revista, ué….AAAII!! AIIII! Me tira daqui!
Ele de terno, tinha acabado de voltar do trabalho, cava a mulher das profundezas de espumas e cascas de tangerina, abraça-a sem se importar com o terno preto se amassando na espuma branca. Que terno? Que espuma? Corpo moreno-escuro se enroscando em corpo branco-alvo.

Ele, o único da classe
Ele, o único da classe que não possuía tênis importado e um tom de pele um tanto marrom demais para a média “escola particular brasileira”. Ela, xingada pelos garotos do bairro como a “stinkende Roma” (cigana fedorenta). Preconceitos que atravessam gerações, que mudam de nome, de lugar, de objeto, mas que nunca deixam de ser um erro, um equívoco, uma ignorância.

A banheira era o lugar em comum. O spa, o paraíso, os filhos que não tiveram, os cachorros que não adotaram. Falavam de tudo lá dentro. Faziam de tudo lá dentro.

E olha que ela nem
E olha que ela nem fazia o tipo dele. Ele que atravessou dez mil quilômetros querendo comer todas as louras da cidade, acabou nos braços de uma balcânica de olhos rasgados. Meio cigana, meio russa-oriental, meio tudo leste.
Nem morena poderia chamá-la. A pele muito branca, os cabelos muito pretos. Às vezes, em dias seguidos de céu cinza, ela se deixava levar pela melancolia típica balcânica. Então ele a pegava pelos quadris, puxava-a forte para junto do seu corpo, suas mãos grandes contorcendo a bunda dela, e dizia:
– Sacode, Maus, sacode que isto passa!

Ela deitada por cima
Ela deitada por cima dele. Quase afogados em espuma e água quente.
– Sabia que dizem que tomar banho de banheira é como se a pessoa estivesse querendo voltar para o útero?
– Acho que deve ser verdade mesmo…Porque eu estou com vontade de voltar para o útero…
E segurou na bacia dela metendo seu pau duro adentro.
– Safado!

E olha que ele nem
E olha que ele nem fazia o tipo dela. Mas o enigma que circundava suas origens da primeira vez que o viu, até hoje a fascinava. Teria sido mesmo impossível para ela ter decifrado assim de cara de onde ele era. Um tom marrom tão singular, sem chegar a ser negro nem passar muito perto do vermelho ou do amarelo. Pele mel escuro e cheiro de sol. Na voz, o sotaque de uma latinidade acentuada nas vogais misturada com o tom seco de alemão nativo do norte. 

Aroma de eucalipto
Aroma de eucalipto. Vapor. Ele respira fundo e fala:
– Esta banheira é o inverso dos meus banhos de tanque.
– Tanque? O que é isto?
Ele explica. Torneira, sabão, enxágüe. Cachoeira generosa em forma de bica.
– … e quando minha mãe acabava de lavar a roupa, me dava um banho de tanque. Acho esquisito um país sem tanque…
Ele explicou o formato da coisa, o material. Falou sobre o calor extremo, da área de serviço ao ar livre. Ela ouvia atenta e tentava entender os códigos de um mundo tão distante.
– Quem nunca tomou banho de tanque quando criança não sabe o que foi bom.
Ela monta em cima dele e diz:
– Chega de saudade, meu gringo, deixe comigo que te faço sentir criança agora de novo.

Ela não previa nada, muito menos amar um brasileiro. Ele tinha a ilusão de ser para sempre. Ela tinha a ilusão que poderia acabar hoje mesmo. Nenhum dos dois tinham razão. Mas a falta de expectativas e ausência de promessas vazias fazia com que cada dia fosse melhor que o outro. Um com o outro. 

Ela gostava da mistura macho-descolado-simpático-bonachão. Mas às vezes ele era temperamental demais. Então ela passava a mão no rosto dele, descia até o seu peito e rodava a palma da mão dela em volta do coração dele dizendo:
– Calma, garoto, calma…

A tribo do avô
A tribo do avô dela ainda existe. Apenas alguns ainda são verdadeiros nômades, ameaçados pela perda do habitat natural para os oleodutos que fornecem até hoje energia para o mundo. Para Viena por exemplo. Para a banheira quente dela.

“Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação” *

A tribo da avó dele ainda existe. Apenas alguns ainda se pode chamar mesmo de índios, ameaçados por Belo Monte que, dizem, fornecerá energia para o mundo. Para Viena por exemplo. Para a banheira quente dele.

“Será que vamos ter 
Que responder 
Pelos erros a mais 
Eu e Você?” *

Seres humanos que passam da condição de índio para civilizado. De inocente para culpado. De vítima para opressor.

O que dizer depois
O que dizer depois de tantos banhos? Ela olhava para ele pensativa.
Ele que tinha a cara entre seus pés de dedo mindinho com unha dupla… É isso!
– Eu tenho uma unha à mais...gêmea.
– O quê?
– É, gêmea. Ó, tá vendo? 
Ela mostra o dedinho minúsculo com duas unhas ainda mais minúsculas. 
– Duas unhas num dedo só.
– Que louco…
Ele ri. 
– Me lembrou a história de uma amiga que tinha um queixo muito saliente e resolveu operar. Sabe o que descobriram dentro do queixo dela? Cabelo e cartilagem de um feto que não se desenvolveu. 
Ela quase berra:
– Aaaahh, que horror! Jura? 
– Juro!
– Então será que esta minha unha era um outro eu que não vingou? 
Ele entra na onda só pra ela pirar:
– Por que não?
Ela leva na esportiva:
– Me lembra uma piada negra: pai quer ver o filho que acabou de nascer e o doutor tenta prepará-lo:

“– Ele nasceu sem as pernas…
– Não tem problema, doutor, meu filho vai ser um gênio!
– Sem os braços…
– Nossa, doutor… mas não tem problema, meu filho vai ser um gênio! – E o doutor vai falando, sem corpo, sem olhos… e o pai sempre repetindo: 
– Não tem problema, doutor, meu filho vai ser um gênio!
Até que o doutor traz uma bandeja só com uma orelha e o pai fala para a orelha:
– Meu filho, você vai ser um gênio. … 
No que o médico diz:
– Fale alto porque ele é surdo!”

– Horrível né?
– Macabra!
Ela pensativa, meio insegura.
– Como pode alguém vir a ser alguém mas parar no estado unha?
– Fale baixo.
– Por quê? 
– Ela pode estar ouvindo.
– Quem?
– A tua irmã-unha-gêmea.

Amazônia, Sibéria
Amazônia, Sibéria. Índios do extremo calor. Índios do extremo frio. Guaranis, ciganos. Baianos, Shilkanos. O oeste e o leste se encontram numa banheira em Viena. Um rio que corre. Uma onda que estoura. Gente que é fruto de outra gente de outras terras. Retirantes, exilados, asilados, deslocados, desterrados. Gente que se junta, gente que vai e não volta. Gente que chega e parte. Gente que chega e fica.
Neste banho ela engravidou. 

* Letra da música “Será” de Renato Russo.
Revisão: Andrea Lima

04.10.2013

Cap.46_ Tio Orlando e "esta gente" de olhos azuis


Meu tio de segundo grau é uma mistura de descendência aristocrática decadente com classe média podre alta. Conclusão: Merda total! O tipo do cara que diz: 
– Brasil tem que voltar à ser uma ditadura. Naquela época é que era bom, tudo funcionava bem. Hoje em dia esta bagunça democrática só fez os políticos se endinheirarem e agora tá aí o resultado: Uma baderna total. Ai, se os militares estivessem no poder, davam um jeito nestes vândalos rapidinho.
E para falar dos menos abastados, titio se refere à estas pessoas simplesmente com um "esta gente". "Esta gente que não quer trabalhar, que vive de bolsa-família enquanto ganha por fora…" Quando eu pergunto o que ele quer dizer com "esta gente", tiozinho se irrita:
– Pobres, minha filha, pobres. Esta massa que só pensa em pedir, pedir, pedir… Que usam o dinheiro do bolsa-família pra comprar cachaça, que moram em favelas e não pagam IPTU nem luz…
Eu fico ouvindo o discurso e pensando quem eu – que nasci classe média com empregada à disposição around the clock and around myself – seria hoje se não tivesse vindo para a Europa? Como tio Orlando talvez? Será que a faculdade de Sociologia na PUC teria me salvado desta "mentalidade à la Senhora dos Absurdos"? E se tio Orlando tivesse nascido aqui? Não seria um destes que gritam "Fora estrangeiros!" e votam nos radicais de direita? Li que a maioria dos eleitores de direita tem pouca escolaridade e se simpatizam com as idéias direitistas por serem mais simples de entender. Claro, vai sentar e explicar pra tio Orlando sobre direitos humanos, liberdade de expressão, igualdade social e etc.
– Drogados? Cadeia neles. Baderneiros? Cadeia neles. 
É lógico que bato de frente todas as vezes que converso com ele. Mas a escrotidão mora em qualquer alma humana… Veja bem: Eu passo 11 meses por ano cansando a vista no computador, lidando com clientes exigentes, limpando cocô de criança, ariando panelas, empurrando carrinho de compras e chego então finalmente de férias no Brasil. Tio Orlando nos recebe de braços abertos com cervejinha gelada na bandeja (lógico que não é servida por ele mas sim por uma dessas "gentes"), jardim manero pacas…Aaaahhh, só dá pra soltar um: demorô! O ser humano é corrompivel sim. E Deus há de me perdoar quando a corrupção vem acompanhada de um pastelzinho de queijo e um mergulho na piscina rodeada de "grama bacana" (cortada por "esta gente", óbvio). 
E também tem mais, depois de muitos anos – décadas até – morando no "velho mundo", eu estou caindo numa real menos utópica. Depois de passar da fase deslumbramento, minha lua de mel com uma Europa socialista, igualitária e solidária é coisa do passado. Ainda mais com a  Áustria que enche a boca pra dizer que é um país neutro. Pais neutro é meu c* que vende armas pra qualquer rebeliãozinha no oriente médio. País justo é meu c* que oferece roupas à preço de banana feita à base de chicotes no leste do mundo. Pais ecológico é também meu c* que está investindo 300 milhões de euros em Belo Monte. É claro que merda não se faz dentro de casa, a merda vem importada, bem embalada e cheirosa. O sangue e a miséria que ela produziu ficou lá longe, bem longe… 
Então já que meu discurso de ex-brasileira-neo-européia não se sustentava mais nos meus princípios, passei a até ver uma certa autenticidade na escrotinisse de tio Orlando. Afinal ele explorava quem estava debaixo dos teus próprios olhos: Empregadas, jardineiros, cozinheiras, motoristas… E não uma vitima anônima e impalpável que se escondia atrás das camisetas da "Buenoton", ou da energia que ligava a geladeira ou dos rebeldes sem nomes mortos em conflitos com armas "Made in Austria".
Titio foi falando e eu fui deixando:
– Cê acredita que outro dia procurei empregada e apareceu uma que foi logo dizendo: Eu não trabalho aos sábados e domingos, chego só às 9 e saio às 18, preciso de uma hora de almoço, quero carteira assinada, 4 semanas de férias pagas…
Na mesma hora eu quis soltar um "Normalíssimo, né tio?" Mas ele estava empolgadérrimo e eu com a cervejinha na mão à beira da piscina, aquele sol todo me benzendo, corrompidíssima pelas circunstâncias, deixei rolar… Entre goles de Skol e o barulho do pastel crocante, a boca de Tio Orlando se triturava no verbo:
– Aí quando a folgada acabou de falar tudo o que ela exigia, eu perguntei pra ela: "Mas você toca piano? Ah não? Ah, então não serve!" Hahahaha! E mandei a safada picar a mula.– Não aguentei e entrei na gargalhada. 
– Ai, tio, você nã presta! Hahahaha!
Mais sarcasmo impossível, o humor aristocrático decadente de brazão estampado em tecido de chita misturado com piso de mármore carrara-cafona. Eu que saí deste universo, volto à ele totalmente cúmplice. E dá-lhe gargalhadas! 

Passei uma tarde maravilhosa, completamente corrompida com meu próprio bem-estar, um porre ideológico ás avessas. E assim passei também todo o mês de férias em casas de tios, avós, amigos, sendo atendida por "esta gente" que me passava as roupas, por "esta gente" que me trazia moqueca, por "esta gente" que arrumava minha cama… Mais que corrompida, fui corroída de bem-estar à preço de salário mínimo.

Acabada as férias, voltei pra minha realidade austríaca "internamente" justa. E precisei de novo de uma faxineira. Nesta situação, tio Orlando certamente diria: "Pais rico é um problema, você contrata alguém e daqui a pouco, quando se dá conta a pessoa já se formou, procura um emprego melhor e te deixa na mão! Brasil é bom por que tem gente que nasceu pra isto: servir, cozinhar, limpar…" Pois é, titio, sem comentários. Entre a tua casa em Camboinhas e o meu apartamento antigo em Viena existem além do oceano, anos luz de justiça social. De faxineiras, operários e caixas de supermercado que moram no mesmo bairro que você e até no mesmo prédio, que senta do teu lado no encontro de classes por que seus filhos frequentam a mesma escola que os nossos. É, tio Orlando "essa gente" aqui tem uma vida mais digna e grama bacana cada um corta a sua.
Mas limpeza uma vez por semana por cinco horinhas eu pago, me dou este "luxo". 
Só que eu já estava de saco cheio de faxineiras brasileiras. Sim, racista total. Afinal de contas a comunidade verde-amarela aqui é do tamanho de um pum. Soltou, todo mundo sabe quem foi. E a mulher limpa as minha sujeiras, sabe o que tem na minha geladeira, o cheiro das minhas comidas e o pior de tudo: O estado das minhas calcinhas! Ai é foda, todo cuidado é pouco!
Uma amiga austríaca me recomendou uma ucraniana, disse que era muito boa e tal. Resolvi experimentar. Quando abri a porta pra recebê-la, dou de cara com um rostinho meigo "capa da capricho". Entre as franjas loiras e o sorriso largo, dois olhos azuis enormes. Pensei: Impossível, esta coisinha linda vai querer subir em escada pra limpar teias de aranha, esfregar vaso sanitário e ariar panelas? No way, sem chance! Olhos azuis redondos brilhavam enquanto explicava o que sabia fazer, onde já tinha trabalhado e quando ela poderia começar… Tão entusiasmada, tão cheia de energia. E eu totalmente atordoada, confrontada pela primeira vez na vida com um exemplar "desta gente" versão olhos azuis. Eu, a "liberal total" sendo preconceituosa às avessas, é isto mesmo? Agarrada nas minhas convicções sociais contraditórias e récem parida pra uma realidade além da grama aparada servida de bandeja, eu só queria sair desta situação, passar uma borracha neste universo de igualdades invertidas que eu nem queria conhecer, demais pro meu horizonte classe média pseudo legal. Capa Capricho não serve, não podia servir. Com certeza, depois de 5 horas esfregando o chão da cozinha, limpando as janelas e catando 300 mil peças de lego pelo chão, ela vai picar a mula e eu vou ter que procurar outra pessoa de novo, explicar tudo de novo e tal… Imagina, uma bonequinha linda destas se ajoelhar e levar o aspirador até ângulos impossíveis e inalcansáveis? Esfregar privada? Ai, não, não!
Capa Capricho não parava de falar: "Eu sei fazer isto e aquilo, eu posso vir qualquer dia, eu quero, eu consigo, eu preciso…" E passeava pela casa, cozinha, corredores, abajures, mesas, piano. Opa, eu disse piano?
Tio Orlando me veio em mente. Idéia brilhante. Falei fria e seca. Pose de madame com mansão no Morumbi:
– Mas… – soltei o ar como que cansada, ironia e desdén no olhar– Você toca piano?
E ela arreganhou os olhos. Não foi arregalou. Não me corrija por que eu sei o que eu descrevo. Olhos arreganhados perguntam:
– Como assim?
– Piano, você toca? Caso contrário, não serve! – Eu toda ainda tentando segurar o petecão de quem só compra na Daslu.
– Toco sim.
Caí dos meus andares imaginários da cobertura da Ataulfo de Paiva:
– O quêê?
– É, eu toco. Eu estou estudando pra entrar no conservatório de Viena. Meu pai é músico da Orquestra sinfônica da Ucrania…
– Ju-Jura?
– Sim, quer ouvir? – Sem esperar por resposta, sentou no piano e tocou, tocou, tocou. Trechos de Wagner, Beethowen, Mozart… Capa Capricho terminou, virou-se para mim e perguntou toda animada:
– E aí, quando você quer que eu comece a faxina?
–... 
Agora eram os meus negros olhos que estavam arreganhados... Marquei a faxina pro dia seguinte. Ela foi embora e eu corri pro telefone pra contar pra tio Orlando. Depois que fiz o resumo da Epopéia, titio deu gargalhadas: 
– Ha,ha. Bem feito. Você se esqueceu que estás no berço da cultura mundial e moras na capital internacional da música? Pois bem, aí até faxineira toca piano. Já aqui… esta gente…– Titio seguiu metendo o malho "nesta gente" . Afastei o fone do ouvido e olhei pro teto. Eu, burra, acabei de servir um prato cheio pro discurso reacionário do grama-bacana. Ou perái, eu, burra? Claro! Meu insight interrompe o monólogo do sr. Orlando:
– Pára, tio, peraí, a culpa foi minha! Eu fiz a pergunta errada. Da próxima vez que eu quiser dispensar uma candidata "estrangeira" pergunto se ela sabe tocar pandeiro, tamborim ou…sambar! – E desliguei o telefone sem me despedir.

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P.s: Doce surpresa: Natascha limpa que é uma maravilha. Seria páreo duro com a Aparecida que além de limpar a casa toda e me levar na escola, me ensinou também a sambar!
Na vida, nada se perde, nada se repete, tudo se transforma. Semana que vem Natascha começa a dar aulas particulares para Thuthu de… piano, é claro! Sambar eles aprendem é com a mãe mesmo :)


P.s 2: Desejo num futuro imediato que "essa gente" no Brasil tenha as mesmas chances que "essa gente" tem por aqui. Tio Orlando que se cuide! 

10.03.2013

Cap. 45_ Manteiga de primeira qualidade

– Como assim “bem provida?” Ela foi é bem comida, porra!
Lina gritava encarando a tela do laptop. O marido que tomava tranquilo seu café da manhã na cozinha, ouvia e pensava:
– Ainda bem que não é comigo.
Ela continuava pagando o maior esporro pro monitor. O marido sem entender: “Será que é skype? Não ouço ninguém falar nada.” Ele já com muitos anos de experiência nas costas, resolveu esperar: “Mulher pra acalmar ou você come na hora ou então se faz de invisível”. Ele tinha acabado de levar as crianças na escola e se preparava pra tomar seu café da manhã na cozinha tranquilo, em ritmo de valsa...
Ela levanta da escrivaninha e começa a andar pelo corredor:
– Esta juventude está perdida mesmo! Não fumam maconha, não tomam LSD e agora mais esta: Não sabem perder o pudor! Isto é que dá se encher de ecstasy e ficar pulando ao som destes drums e drans da vida... Acham que tudo é legal, bacana e limpo! Cadê a sacanagem, pessoal? Cadê a depravação? O que vai ser do mundo daqui a alguns anos? Onde nós vamos parar deste jeito?
Pra variar, ela partiu fundo pro esquema Lavínia de falar, uma coisa puxa a outra que puxa a outra e cai tudo junto. Mas pra isto é sempre bom ter uma vítima por perto. Ela procura o marido pelo apartamento de pé direito alto e estilo art-nouveau, contrastando com sua própria figura tão exótica. Pisando no chão de tábua corrida e abrindo portas de madeira trabalhada. Não, ela não faz parte deste contexto, ela sempre soube disto. E gostava até que fosse assim. A distância certa entre ela e o mundo ao redor.

“Eu não sou da sua rua,
Eu não falo a sua língua,
Minha vida é diferente da sua.” *

“Eu não sou daqui mas fui puxada pra cá, eu sei”. Lina sempre se lembrava das férias passadas em Macarena na casa da tia casada e tão feliz que tinha na parede reproduções de “o Beijo”, um quadro de uma sensibilidade e amor tão singelos e “Danae”, com vasta cabeleira recebendo uma chuva de ouro nas pernas arreganhadas. Klimt na mais sublime tradução de ternura e sacanagem. Ela era capaz de ficar sentada no corredor por horas olhando aqueles dois quadros. A garotinha que admirava aquelas obras queria entrar naquele mundo, entender aquelas “outras palavras” que se traduziam em linhas e cores. Deu milhões de voltas até chegar aqui nesta cidade e mais milhões para chegar no estado em que se encontra: casada e feliz. Era inevitável pensar na tia e em Klimt, a correlação era óbvia demais. Dois ingredientes para um bom casamento que ela mesma teve que descobrir: Romantismo e pornografia, sem dramas nem censuras.



Mas agora, neste momento, ela estava preocupada com a falta do segundo componente desta dualidade ideal: a sacanagem. E continuava procurando o marido pelos corredores do apartamento.
– Onde ele se enfiou? – Ela acha ele (ainda) tranquilo na cozinha saboreando seu melange** e lendo o jornal. E vai logo continuando a palestra sem se dar o trabalho de introduzir o tema:
– Ai que saudade dos tempos perversos! Eu mijava no box e me achava super subversiva. Agora não, xixi no banho passou a ser politicamente correto e até desejável pra economizar a descarga. Ah, perdeu a graça! –
Ele a deixa falar e nem tenta entender o que uma coisa tem haver com qualquer outra, ou aonde ela está querendo chegar. “Viver ultrapassa qualquer entendimento”,  já diria Clarice. “E com uma mulher destas se atropela qualquer entendimento”, ele pensou.

Ela segue em frente. Bateria afinadíssima!
– É como no dia em que fizerem campanha pedindo pra cachorro fazer cocô nas ruas, os donos vão ficar putos, vão correr pro analista e iiihhhh, pode dar até suicídio!
A espuma do melange ainda se desmanchando nos lábios. O semmel quentinho recheado de manteiga de primeira. Tudo em plena sinfonia. De repente adentra um instrumento inusitado e inesperado na composição dele. Trombone? Bumbo? Tamborim nervoso?
– Sem sacanagem o mundo não vive, minha gente! Como pode ser saudável e são, viver numa época em que vibrador sexual é chamado de bastão de massagem? E ainda vem com a cara da Hello Kitty? Hellooou, piraram!

O melange esfriando na xícara. Vontade de suspirar e olhar pra cima, mas ele não é louco de dar esta bandeira. Finge interesse. Ela avança com a bateria. Bumbo mandando ver.
– Como se já não me bastasse o conflito de ser estrangeira, agora mais essa: Conflito com uma nova geração que não tem conflito! O que vai ser do mundo com estes jovens? Meu sobrinho mesmo, sabe o que ele fez?
– Não, o quê?
Ela pega ele pelo braço, que tenta continuar lendo a notícia, dando apenas sua presença auditiva. Pra Lina, muito pouco. Ela segura no queixo dele e faz virar seu rosto em direção ao dela.
O marido lembra da família dela, em que todos se comportam assim, mães, tios, irmãos: todos surdos, histéricos e carentes de atenção. Almoço de domingo no Brasil é uma loucura, 10 exemplares de Linas andando pela casa berrando e gesticulando. Cutucando, puxando os braços, virando os rostos uns dos outros. Me olhem, me escutem, me sintam!
– Sabe o que ele fez, amor? – O queixo do marido aprisionado nas mãos dela – Casou! Imagina!
– Éééé...
– Como assim, éééé? Você não acha um absurdo? Casar? Nossa geração propagou o amor livre, confrontou a igreja católica, desmascaramos todos estes valores burgueses ridículos... Até a mãe dele nunca casou. Isto é um vexame! Uma afronta aos bons costumes! Digo aos maus-costumes!
Maridão muito esperto e conhecedor da causa, não iria cair na cilada de contestá-la naquele estado. Pandeiro eufórico? Reco-reco frenético?
– É... incrível...
– Imagina entrar na igreja toda de branco, prometer aquilo tudo... Este mundo tá perdido!
– Será que ela casou virgem?
– Lógico que não! Aí seria demais!
– Mas... por que você está falando sobre isto agora, Lina?
– Ah, lembra aquela turma de mestrandos da universidade de Viena, que usaram meu blog para objeto de estudo?
– Sim.
– Pois é, os estudantes traduziram a crônica “A brasileira Wahnsinnada”. Acabei de receber.
– Ah, legal.
– Legal, mas vamos combinar que “bem provida” é diferente de “bem comida”, né?- Gritava a perua descompensada.
– Como assim?
– ”Ordentlich besorgt” não é “bem comida” mas sim bem abastecida, bem provida...
– Ah, é verdade.
– Por exemplo, me diz se você estivesse num bar conversando com um amigo, como você diria para ele que uma mulher tem que ser bem comida em alemão?
– Hum... Eu falaria “gut gepudert”.
– E como eu nunca ouvi isto antes?
– Por que você é bem comida em português, ou eu estou enganado?
– Ah, é verdade, alemão pra bulas e manuais de instrução, português pra amar e brigar.
A fórmula funciona bem entre eles há mais de 15 anos. Até as crianças aderiram ao linguajar peculiar da família. Cada coisa no seu lugar, cada emoção, uma gaveta; cada manobra, uma língua. Como já explicado no "Pretérito do samba"
– Mas o que significa isto? Gepudert?
Ele arregaça as mangas da camisa, deixa os bíceps bem delineados à mostra e faz um movimento como se estivesse socando a mandioca:
– Você sabe como se faz manteiga? Pois é, a gente tem que socar ela assim!
E movimenta os músculos para cima e para baixo tocando o fundo de um panelão imaginário.
– Uau, que poder! Genau total! Me faz virar manteiga!
Os olhos de Lina brilharam como criança aprendendo uma nova letra.
– Mas agora tenho que ir. Os alunos estão me esperando lá na Uni. Tô atrasada.
Ela lhe dá um beijo rápido e ao mesmo tempo aperta-lhe o pau. Ele sempre estremece nestas horas por que nunca acredita que ela tem o total controle deste simples gesto. “Vai que ela esquece e aperta o meu pau na rua ou na casa da minha mãe...”.

No próximo instante ela já está na porta para sair. Como sempre, literalmente enrolada com cachecol, luvas, boinas e como sempre amaldiçoando o inverno.
– Mais de 20 anos morando aqui e não consigo me ajustar a este código invernal! Verdammt! (=raios!) Cadê a outra luva? Bussi, bussi, Schatz! (=beijinhos, tesouro!)
Ela se vira pra jogar um beijo mas o capuz do casaco não acompanha o movimento e ela beija o próprio nylon.
Ele ainda fala em português:
– Quando você voltar, te ensino a fazer manteiga, gustosa!
Ela, já com a porta aberta, só tem tempo de soltar um:
– Aaaahhhhh!!!
Que ecoa pelos corredores do prédio construído com pura poesia vienense de fins do século XIX. Pisos carinhosamente pintados, ornamentos delicadamente trabalhados em gesso e corrimões dançantes recebem o “Aaaahhh” com prazer rejuvenescido. Ela avança descendo as escadas. Maçanetas ondulantes abrem contentes as divisórias de vidro. Aaaaahhh!!!!

Ela inevitavelmente pensa com orgulho que apesar de não fazer parte desta cultura, foi aqui que nasceu a modernidade. Onde Klimt e seus amigos levantaram a Secession, Wittgenstein se entregou de “língua” e alma à filosofia e Freud escrevia à Schnitzler confessando a inveja que sentia do escritor por conseguir descrever tão bem a psique humana em seus romances. Viena, berço da modernidade que se perpetuou em “Altbaus” (prédios antigos).

Foto: www.hiese.de
“Ao tempo sua arte, 
à arte sua liberdade.”

A Altbauwohnung (apartamento antigo) cai de novo na paz original austral. Ele aproveita para acabar de ler o jornal e se diverte ao pensar que isto seria um bom material para uma nova crônica dela: “Lina vai à Universidade ensinar os alunos a traduzir “bem comida”! No mínimo, surreal!”

Dez minutos mais tarde ela liga e fala em alemão:
– Schatz(=tesouro), o tal do gut gepudert, é gepudert com “p” ou com “b”?
– Lina, onde você está?
– No metrô. Fala logo, como se escreve gepudert?
Ele imagina a cena e não contém o riso. Na hora do rush, o metrô lotado e a mulher dele – que fala alto como sempre – querendo saber como se escreve bem comida, ou melhor “bem amanteigada!” Bem humorado e com a dose certa de cafeína no sangue, ele solta um sorriso descompromissado enquanto diz:
– Do jeito que você quiser, gustosa!
O último gole de melange desce tranquilo pela garganta, a sinfonia que antes era apenas uma valsa, ganhou um toque de allegro no meio. Reco-reco ainda dominando o ritmo, surdo se retirando... A manteiga lambendo o semmel... O agogô e a cuíca dando um toque final... E ele pensa quanto tempo deverá demorar pra ela voltar pra casa... O chocalho fecha a cena se despedindo devagarinho...
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“Felicidade não se adquire, felicidade se conquista. 
E você conquistou a tua!”
(Email da tia de Macarena para Lina)

* Música: "Eu não sou da tua rua!" 
Composição: Arnaldo Antunes / Branco Mello. 
Vídeo legal!

** Melange: café expresso com leite espumante.

“Ich habe mich oft verwundert gefragt, woher Sie diese oder jene geheime Kenntnis nehmen konnten, die ich mir durch mühselige Erforschung des Objekts erworben, und endlich kam ich dazu, den Dichter zu beneiden, den ich sonst bewundert. So habe ich den Eindruck gewonnen, dass Sie durch Intuition – eigentlich aber infolge feiner Selbstwahrnehmung – all das wissen, was ich in mühsamer Arbeit an anderen Menschen aufgedeckt habe.”
(Carta de Freud à Schnitzler)


07.03.2013

O tal do "meia" em português

Recebi isto do meu irmão e tive que postar. Muito bom! 
"- Por favor, gostaria de fazer minha inscrição neste Congresso.
- Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?
- Sou de Maputo, Moçambique.
- Da África, né?
- Sim, sim, da África.
- Aqui está cheio de africanos, vindo de toda parte do mundo.
- O mundo está cheio de africanos.
- É verdade.
- Se pensar bem, veremos que todos somos africanos, pois a África é o berço antropológico da humanidade ...
- Pronto, tem uma palestra agora na sala meia oito.
- Desculpe, qual sala?
- Meia oito.
- Podes escrever?
- Não sabe o que é meia oito, sessenta e oito, assim, veja: 68
-Ah, entendi, meia é seis.
- Isso mesmo, meia é seis. Mas não vá embora, só mais uma informação: a organização do Congresso está cobrando uma pequena taxa para quem quiser ficar com o material, DVD, apostilas, etc., gostaria de encomendar?
- Quanto tenho que pagar?
- Dez reais. Mas estrangeiros e estudantes pagam meia.
- Hummm... que bom. Ai está, seis reais.
- Não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?
- Pago meia? Só cinco? Meia é cinco?
- Isso, meia é cinco.
- Tá bom, meia é cinco.
- Cuidado para não se atrasar, a palestra começa às nove e meia.
- Então já começou, são nove e vinte.
- Não, ainda faltam dez minutos. Como falei, só começa às nove e meia.
- Você pode escrever aqui a hora que começa?
- Nove e meia, assim, veja: 9h30min.
- Ah, entendi, meia é trinta.
- Isso, mesmo, nove e trinta. Mais uma coisa senhor, tenho aqui um folder de um hotel que está fazendo um preço especial para os congressistas, o senhor já está hospedado?
- Sim, já estou na casa de um amigo.
- Em que bairro.
- Nas trinta bocas.
- Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria nas seis bocas?
- Isso mesmo, no bairro meia boca.
- Não é meia boca, é um bairro nobre.
- Então deve ser cinco bocas.
- Não, seis bocas, entende, seis bocas. Chamam assim porque há um encontro de seis ruas, por isso seis bocas. Entendeu?
- E há quem possa entender?
"


Autor: Jansen Viana
(do livro Plantão da Alegria)

11.10.2012

Cap. 44_ O tradutor e a carioca sem pontuações.


Eu vou te explicar tudo desde o início por que eu quero que você me entenda.
Nasci aqui mesmo nesta terra. De Mozart, Hitler e Freud. Sacou de cara a mistura? Como vocês dizem aí no Brasil: Loucura pouca é bobagem! Haha!
Sou filho único e catástrofe maior não poderia existir. Fui criado nos moldes normais. Bom, pelo menos eu achava que eram normais até conhecer outros… Me lembro de coisas bobas mas que fizeram ser o homem que eu sou hoje e que as vezes luto pra ser diferente. Por exemplo: Brincando com outras crianças, eu era o que estava sempre certo. Pelo menos era o que a minha mãe com suas atitudes demonstrava. Nunca precisei dividir, compartilhar, ser solidário. Isto era e sempre será tarefa do governo, não me cabe ser bonzinho, não nasci nem fui criado para tal. 
Se eu tomava o brinquedo de uma criança no parquinho, minha mãe sempre estava por perto pra me defender e falava para a criança que nem conhecia: 

– – – – "Meu filho só quer brincar um pouquinho, depois ele te devolve , tá?" – – – – 

E se a criança insistia, ela tinha sempre os argumentos mais tenebrosos pra usar com filhos alheios: 

– – – – "Não seja egoista, garoto!" – – – – 

Assim eu fui crescendo com a certeza de que o mundo está a meu serviço e direito é um dever que o mundo me oferece. 
Na adolescência as coisas ficaram complicadas. Eu me rebelei contra todos, até ai normal. Pensei em virar homosexual mas não consegui, deve ser uma questão biológica ou hereditária, não sei, só sei que não é a minha. Eu procurava apenas desesperadamente algum fator pra me confrontar com minha familia e principalmente com minha mãe. Aquela mulher que me proveu de comida, amor e me fez viver numa bolha de ar que agora eu queria estourar por que o esperma que saia do meu corpo a cada masturbação me implorava esta liberdade. 
Até que achei o que eu procurava. A vingança limpa, justa e inabalável: Não serei advogado como meu pai, mnha mãe, meus avós e tios! 
Larguei os estudos, fui trabalhar num bar. No inicio foi muito dificil, trabalhar em equipe, ajudar, servir, tudo o que a vida inteira me pouparam. No primeiro dia de trabalho me lembrei de Budha que tinha muitos empregados mas um dia fugiu do castelo e ficou pasmo com o que viu. E o que ele viu foi o mundo em si, pobreza, doenças, injustiças. 
Os colegas brigavam comigo e eu nunca tinha discutido na vida! Eu estourava de raiva, quebrava copos. Os cacos de vidro estourando a minha vida-bolha. Uma vergonha. Mas era eu que nascia de novo. Da raiva, da mentira e da ilusão, eu me paria de novo nos ataques. Não aguentei tanta verdade, pedi demissão. Arrasado, deprimido, fugi pra Londres onde ninguém tá menos aí pra alguém. Uma melancia amarrada na cabeça e você pega o metrô sem ninguém olhar pra tua cara! Terminei meus estudos com honor, tradutor profissional. Trabalho solitário e autosuficiente, perfeito pra mim. 

– – – – "Brinque sozinho, meu filho, é melhor. Assim você não briga com ninguém. – – – – 

E tinha o prazer das mulheres, ai mulheres, que coisa boa! Mas elas sempre vinham com este papo de morar junto e quando morava junto era um tal de "você não faz isto, eu faço tudo"… Daí eu perdia a paciência e botava pra correr! Mas sem elas eu não conseguia (e não consigo) ficar. Procurei as mais autônomas e emancipadas e assim fui mais feliz. Cada um no teu canto, claro. Afinal pra quê dividir problemas e alegrias quando se pode dividir só alegrias? 
Eu fazendo uma bela carreira como tradutor e a gente se vendo nas horas vagas. Viagens e passeios juntos, contas de hotel e restaurante separadas. Só a cama era dividida. Ué, elas não lutaram tanto pra isto? Afinal, era isto que eu entendia como emancipação…e acho ótimo assim! Eu e você somos duas pessoas juntas, mas nunca somos "nós"! Este era o meu credo. 
Daí elas começara a entrar naquela fase dos 30, o relógio biológico batendo cada vez mais estridente: "Filhos, filhos!" Saí fora batido! Todas as vezes, por mais que a amassem, eu sumia ou destruia o amor. Criança berrando de noite, babando nos meu ternos, mulher histérica me mandando trocar a fralda? Nicht mit mir! (comigo não!). E aguentei bem, viu? Cheguei aos meus quase 50 anos, ainda mandando bem na cama, em boa forma e com uma vasta cabeleira grisalha que aqui eles chama de sal e pimenta. A mulherada continua querendo, hehe.
Até aqui tudo ótimo, resolvi ou achava que tinha resolvido meus conflitos mais íntimos e vivia bem comigo mesmo, sem muito perguntar nem questionar.  Até que fui passar férias no Brasil. No momento em que pisei no aeroporto do Rio, percebi que tudo seria diferente. A começar pelo Dutyfree. Acho que o Brasil é o único lugar do mundo que oferece um Dutyfree pra quem chega no país! 
Calor, suor, mulheres lindissimas semi nuas. A variedade e oferta era tanta que eu fiquei até enjoado! Comi umas poucas que ficavam na praia de Copacabana catando gringo. Algumas até divertidas mas… Sabe de uma coisa? Acho mesmo que bucetas, cus e paus é tudo igual: buracos e varas! A diferença está em outro lugar e talvez aqueles caras que cantavam bossa nova tinham razão, não dá pra explicar emoções. Mas me emocionei ao entender a tradução do provérbio que em alemão é tão seca e sem graça do "Aus dem Augen, aus dem Sinn" *. As palavras me caíram como um carinho no rosto: "O que os olhos não vêem, o coração não sente". Mergulhei fundo na bossa. Nadando em novas águas, adotando novas crenças... "O coração tem razões que a própria razão desconhece". E acho que foi nesta mesma noite, depois de ler sobre Vinicius, Jobins e Gilbertos, enquanto eu tomava um chopp no bar da boate que ela me apareceu. Linda, meio mulata, meio índia, meio latina. O sorriso que saia pra fora do rosto, um cheiro bom, fresco. Sem nem me perguntar nada, me abraçou, me tacou um beijo e me puxou pra dançar… Eu? Dançar? Eu que passei a vida inteira sendo o suficiente pra mim e para as minhas contas. Eu? Dançar com alguém? "Querida, o que eu sei é  trepar muito bem!" Mas isto eu não poderia dizer pra ela. Não agora no meio da boate e ainda por cima em inglês. Aliás, será que ela fala inglês? Nem isto eu sabia. Mas a mulher me atropelou, os braços entrelaçados no meu corpo, falando milhões de coisas que eu não entendia: au, ãuo, ão, ão? Meu pau duro no meio da pista e ela se roçando em mim. Eu não tenho armas contra isto, não sei como parar este furacão! Acabamos numa cama que nem sei mais aonde era e não saímos de lá durante dias… Isto já faz uns três anos. De lá pra cá aprendi muita coisa. Por exemplo que a palavra "porra" significa esperma e não vírgula, apesar dos cariocas a usarem como tal. "Porra, daí eu cheguei lá e o cara, porra, levamos um papo…e porra, desce mais uma cerveja!.." E por ai vai. Isso é que dá aprender português no posto 9… 
Mas voltando à minha diva divina: Ela já tem filhos, que alívio! Tem uma carreira, é emancipada, ganha tanto quanto eu, trepa que é uma deusa! Cheirosa, bem humorada e consegue me fazer rir. Eu que sempre fui preocupado em ser pelo menos correto, que fui criado pra ser um durchschnitliche Arschloch, um filho da puta normal, logo eu? Esta mulher me arrancou as roupas e junto me arrancou todas as certezas. Todos os credos que eu tinha numa vida eficiente, num sistema social previsível com direito - no final da jogada- a seguro de vida e aposentadoria decente. 
Um catálogo de emoções com cores que desconheço, uma gramática que traduz vontades mas que não possui pontuações. 
Ela remexe meus livros, reclama da poeira, bota as mãos na cintura, os quadris para um lado e pergunta com um monte de papéis velhos na mão: "Pra que serve isto?" 
Tira minhas certezas do lugar, bagunça a minha indolência, revira a gaveta dos meus hábitos...  
E se não gosta de alguma coisa, ihhh, sai de baixo. O mundo pra ela existe pra ser usado, amado, indagado, idolatrado.  Mesmo sem saber alemão, ela desafia os antipáticos, os sonsos e escrotos. Arranca sorrisos de quem nem merece… Emoções sem censura nem aviso prévio. 
Não tive outro jeito, não existia outra solução a não ser ficarmos juntos. Sim, juntos! A equação finalmente aprendida: eu e ela= nós. Ela largou casa própria e filhos formados no Brasil pra entrar no meu mundo de chopp á beira do lago Neusiedler, de pessoas competentes e profissionais mas também chatas e rabugentas, de vinhos maravilhosos e quatro estações distintas...Ahhh, se felicidade não for isto...
Só tem uma coisa que eu não entendo e que por isso me apaixonei perdidamente por ela: Nos restaurantes e hotéis, ela sempre insiste em pagar toda a conta. 

– – – – "Meu filho, devolva o brinquedo pro amiguinho e empreste um dos teus carrinhos para ele." – – – –



*A tradução ao pé da letra seria: Longe dos olhos, longe dos sentidos.

01.09.2012

Cap.43_ O interfone


De tropeços a vexames: tudo ela já tinha experimentado. Um tempo atrás pediu pro marido comprar Milchreis e ele trouxe arroz para cozinhar com leite e não o desejado por ela: Reismilch (leite de arroz). A última gafe foi quando pediu pra vendedora da loja chique no Graben, experimentar a blusa vemelho-vinho da vitrine. A vendedora riu, irônica. "A senhora quer dizer vinho-vermelho? Aprendeu com simpatia profissional que Rotwein se toma e Weinrot é cor de blusa.  "Essa galera troca tudo de lugar, tiram todas as preposições,  juntam um monte de palavras soltas sem eira nem beira e querem que todo mundo entenda a lógica! " Júlia se irritava mas não tombava. "A língua alemã consegue contrariar até as leis da física: Sim, a ordem dos fatores altera totalmente o produto! " Pensava, enquanto arquitetava o diálogo que teria em breve.
Ela estava com problemas no interfone, mentalizou as frases que diria na cabeça, refez mentalmente o diálogo que possivelmente teria, corrigindo as benditas declinações .
"Interfone é masculino, feminino ou neutro? E se ela for mal-educada? Como se fala vai se catar em alemão?" 
Armada de coragem,  bateu na porta da vizinha de baixo pra perguntar se por acaso ela estava com o mesmo problema. A velhinha abriu a porta e foi muito gentil, escutou Júlia falar.
– A senhora também está com problemas com o interfone? Acho que o meu não está funcionando...
No que ela respondeu:
– Ah, minha querida, eu não sei, como eu posso saber? Faz mais de 10 anos que eu não recebo visitas...
Júlia sentiu um desespero surreal, uma vontade de sair correndo mas não teve como recusar o convite da velhinha e entrar pra tomar um café. A história explicada, a velhinha falava por ela e por todas as centenas que Júlia via nas ruas. O marido morreu, não tinham filhos... A solidão como normalidade de vida. Júlia voltou pro seu apartamento com falta de ar, nó no estômago.
Werner chegou no final do dia e encontrou-a com a testa franzida, os olhos vermelhos. Não entendeu nada quando ela fez ele prometer que não envelheceriam neste país. E começou a aumentar o tom de voz, andando pela sala, agitada, apreensiva.
– Se você quiser, que fique! Eu, antes de começar a alimentar pombos no parque da cidade, tô saindo batida! Muito antes, aliás! Tá doido, prefiro os pombos do Campo de São Bento!
– Mas por que isto agora, Júlia? O que aconteceu? Alguém foi mal-educado de novo com você? Te xingaram de "Ausländer"(estrangeiro)? A vizinha reclamou do barulho?
Sem dar atenção à pergunta, ela continuava seu discurso: 
– Prefiro sentir o fedor do valão da Cinco de Julho, pegar micose na praia das Flexas, Dengue em Jurujuba...
Werner cada vez mais atordoado. O cheiro de comida que pairava no ar,  deduzia que ela de novo preparou algo gostoso. Cheio de fome e tendo que aturar uma perua desequilibrada que não parava de falar alto como se estivesse num palco:
–... Aguento tudo! Sovacos fedendo no ônibus, fila de banco, engarrafamento na ponte, lavar roupa no tanque, louça na mão, aturo tudo!...
Era sempre assim, eles estavam juntos há tanto tempo mas era sempre esta surpresa cultural, cada dia ela vinha com um pacote diferente que tirava ele do sério, dos trilhos, da razão e jogava-o de volta à estaca zero. Quando ele achava que a conhecia, vinha ela com uma situação absurda e uma reação ainda mais absurda e ele começava de novo do nada. 
Ela andava de um lado para o outro no tablado imaginário:
– Amanhã mesmo ligo pro Rodrigo da Imobiliária. Tenho certeza que ele arruma algum apê pra gente comprar, daqueles tipo com chuveiro corona que dá choque, armário embutido colado na cama, a cama colada na porta… Fôda-se, qualquer coisa tá bom. Ônibus barulhento passando embaixo da minha janela, vista pra favela, pagode alto comendo solto a noite inteira! Fôda-se, melhor do que viver neste túmulo de silêncio...
– Júlia... – Ela continuava a falar sem nem notar a presença dele:
– Pego um financiamento na Caixa, titio já foi gerente lá e me ajuda, papai dá um pouco, o teu também dá, a gente fica uns 3 anos sem fazer férias, 6 meses comendo pão com linguiça, tem que dar, tem que dar, Fôda-se... Qualquer cubículo em Niterói tá bom!
Ele teve que aumentar o tom de voz:
– JÚLIA, o que aconteceu? Não estou entendendo nada...
Como se fosse numa prova de física em que esta lei não constava na matéria, ele olhava pra cara dela confuso, perdido. Cadê o botão? Cadê a chave, a fórmula matemática pra entender esta mulher?
– Foi a vizinha do primeiro andar, a velhinha... – Werner suspira aliviado:
– Ah! A vizinha… Olha, não liga, Júlia, ela é meio doida mesmo. Seja o que for que ela falou, esqueça, não se acabe assim ... – Werner cansava de falar isto. Como alguém pode sentir tanto? Como alguém pode se importar tanto com o que um estranho falou? 
– Mas eu fui super bem tratada...
– Então…?
Júlia pensava em como abordar o assunto da forma mais dramática possível, tentando fazer com que ele sinta o que ela sentiu. Bom, isto até seria pedir demais mas quem sabe ela consegue fazer com que ele pelo menos entenda o que eu senti?
– Ela…– Júlia respira curto. Rugas de expressão a todo vapor. Mãos que procuram coisas imaginárias no ar. O olhar divagando pelo céu da janela. Era tarefa quase impossível o que ela queria: a compreensão profunda dele. Ela sabia disto e o amor também funcionava assim. A chama se alimentava deste eterno pedaço desconhecido, indomável, indecifrável que um tinha no outro.
No final acaba sempre do mesmo jeito: ele a conforta, passa a mão na cabeça e diz pra ela não ligar, que besteira... Cada um volta ao seu mundo achando que entendeu o mundo do outro como se fosse uma viagem de fim de semana. Doce ilusão. 
Ela folheia a revista esquecida na mesa enquanto ele enfia a cara nas panelas e vai saborear a vida exótica de mais uma comida feita pela esposa. Polenta com Gulasch de coração de galinha. Amor que se alimenta de compreensão e abismos.
Caem na cama. Ela é movida por emoções. Ele, guiado por fatos. Universos diferentes se tornando um só. O abismo é preenchido como um  rio... que transborda....Gozam…
Dividiram o mesmo cigarro, olhando para o teto. 
Ele pensa naquele livro que leu de um missionário americano sobre os índios Pirahas: "O povo mais feliz do mundo não conhece números, nem coordenadas, nem futuro, nem passado". Achou por um momento que tinha tomado um ácido, jurava que sentia cheiro de floresta no quarto. "Mulheres amazonas…"
Ela pensa em como resolver este dilema: "O valão pode esperar. Chuveiro corona também. Amanhã marco com Lina de vir aqui e peço à ela para apertar o botão do interfone até doer o dedo! E também a minha campainha, vou pedir pra ela tocar, tocar! E esmurrar a minha porta! E quando eu abrir, vou me jogar nos braços dela e berrar de felicidade! Lina vai me entender, ela já mora aqui há mais de 20 anos e não vai me chamar de louca. Não, não somos loucas, loucos são eles, loucos são…sou…" 
Adormecem...