01.01.2015

Cap.53_ Três vezes Hugo

"Alles, was ich tat, musste literarisch bedeutsam sein und dem Werk nutzen, 
jede Bewegung musste "Signifikanz" haben. 
Ich lebte zeitweise in einer Wahnwelt der bedeutungsvollen Zeichen."

Johnattan Franzen falou numa entrevista que ele chegou a surtar na Alemanha com uma overdose de significados. Tudo o que ele fazia deveria ter uma importânncia literária, cada movimento deveria ter um significado, isto levou-o a viver num mundo doido e saturado de tantos significados.
Palavras que cairam como uma luva pra mim. Chega de pirar e querer o sublime das palavras. Falemos de algo banal, coco por exemplo.

HUGO 1

O guri me enchia o saco por que queria ir sozinho pra escola. Por mim iria desde a primeira série. Afinal vivemos num país seguro, não? Lógico que sempre há algum perigo mas eu, finalmente separada do pai dele e vivendo minha liberdade em paz, não queria arriscar qualquer vacilo pro cara vir me tentar tirar a custódia do garoto de novo. Como tentou quando eu quis a separação. Não posso dar mole pra mané. Além do mais mané austríaco que se tu bobeia, ele pisa. Então eu ficava enrolando. O moleque pedia, eu enrolava. 

–Mamãe mas são só duas estações de bonde… E o bonde parte daqui da porta de casa e pára na porta da escola…

– Um dia teu dia chega, meu filho. 

Até que este dia chegou. Mais precisamente: o meu dia chegou. Tínhamos tomado um baita café da manhã gostoso com um pãozinho integral maneiríssimo. Tipo de pão que só tem por aqui. Trigo, Centeio, Espelta, uma overdose de sabores e fibras. E o tipo do pão que broher demora pra comer, tme que ser bme mastigado e tal. Enfim, nos atrasamos muito. Descemos correndo as escadas para alcançar o Bonde já parado no ponto. E enquanto descíamos as escadas, "Hugo", inchado do maravilhoso pão, quis se manifestar. E fez de uma forma tão brusca que eu peidei. Fedorento e sonoro peido entre degraus de mármore. Mas Hugo não se deu por satisfeito, resolveu se acomodar na boca do gol. Apertei meu cu o quanto pude pra fazer frente ao atacante. O guri correu na minha frente, entrou no bonde e se virou me vendo plantada na calçada.

– Vem, Mama, entra rápido. O bonde já vai partir!

Eu de cu tão apertado que nem pensamento passava, só tive tempo de lhe dizer:

– É hoje, meu filho, é hoje!

O guri atordoado, a porta do bonde se fechando e as rugas da testa infantil aumentando.

– O quê, mamãe, o que tem hoje?

As portas de vidro do bonde já fechadas só me permitiram acenar-lhe um tchauzinho com a mão enluvada. Voltei para o prédio, subi as escadas correndo enquanto falava com meu intestino barulhento: 

– É pra já, meu filho, é pra já!
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HUGO 2

Te digo uma coisa, morar aqui num é mole não. É um frio da porra, é uma gente esquisita, é uma língua foda demais. E sem falar que você carrega teus problemas, teus traumas e tudo o mais. Aderbal acha que vem pra cá e deixa tudo pra trás? Não, véio, vem tudo junto! Putz, daí resolvi fazer uma arrumação interna geral, consegui o contato de uma analista da hora, fodona mesmo. Já tinha ido umas cinco vezes lá. Eu falava, falava, falava. Ela só ouvindo. Depois ela dizia só poucas frases como se tivesse baixando as cartas de um poker. Eu ficava sempre de cara com a mina! Cabuloso mesmo. Ela sempre "ganhava as partidas" e consequentemente ganhava minha confiança. Tudo estava indo bem, faxina cerebral evoluindo. Até que um dia aconteceu algo e eu nunca mais pisei lá. Era um destes dias que tudo é meio corrido e sempre se chega atrasado por que parece que o próprio tempo está atrasado. Enfim, bati uma xapa rápida e corri pra pegar o busão. Eu já estava atrasado para a minha consulta. Eis que enquanto me aproximo do consultório meu intestino começa a reclamar por atenção. "Fecho o portão" como posso mas ele continua lutando contra meu tempo, meus passos, meu cu cerrado. Chego no consultório esbaforido. Coração e cu latejam fortemente. A analista me recebe com um largo sorriso. Mocréia simpática pacas. Eu me desculpo pelo atraso e digo que preciso usar o banheiro. Entro no cubículo e cago, cago, cago. Tanta merda que quase cola na minha bunda de novo. Também pudera, o vaso sanitário do consultório é daqueles que só existem por estas bandas: a bosta cai num palco e fica olhando pra tua cara como se quisesse ser servida. Indigesto. 
Dou várias descargas, limpo meticulosamente o ditocujo, passo bravamente a vassourinha no "palco" e finalizo limpando minhas mãos com água e sabão. Ela me esperava inquieta sentada na sua poltrona aveludada. Acomodei-me à sua frente. Uma leveza me percorria as células. Ela me olhou nos olhos e lançou a frase inicial de sempre:

– Wie geht es Ihnen? (Como você está?)

Eu a encarei e para a nossa surpresa nada saiu da minha boca. Como uma televisão com o som estragado. Emudecido, encarando-a, mudei várias vezes a posição das minhas pernas, cheguei a ensaiar um:

–Hum…Ahm…É…

Ela me ajudava, me embalava nas suas perguntas:

– O que você está pensando? 

Cruzei e descruzei os braços. 

– Você quer falar do passado? 

Olhei para os quadros na parede, olhei fundo nos olhos dela. Chão, porta, plantas à direita. Janela, Teto, livros à esquerda.

– Você quer falar sobre alguém? Mãe? Pai?

Meu coração batia tranquilo. Cu em paz. Total plenitude. Só da boca nada saia. Nada. E assim fiquei por toda a sessão. Não consegui pronunciar uma palavra, não fui capaz de formar uma frase, expressar uma dor ou felicidade. Parecia que tudo o que eu teria para dizer já tinha saido de mim e a esta hora encontrava seu caminho nos canais de tratamento de esgoto do Danúbio. Meu tempo terminou. Levantei-me sereno, aliviado e lúcido. Me despedi dela e nunca mais voltei.
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HUGO 3

Vim para estudar dirigência na capital universal da música. Venho de uma família aristocrática brasileira. Meu pai pra pagar as dívidas milionárias que meu avô deixou, resolveu se tornar político. Corrupção, propinas, desvio de verbas. Cresci ouvindo palavras assim enquanto tocava piano no centro da sala majestosa. A música me fazia esquecer esta realidade podre e me fazia até esquecer que esta mesma realidade podre financiava meus estudos na Europa. Mas isto é passado. Consegui logo me firmar como profissional por aqui e me libertei de vez da dependência familiar regada à comícios demagogos e dólares escondidos em cuecas. 

Comi várias mulheres e cansei. Cansei por que num determinado ponto a coisa sempre não vingava. E sei lá por quê! Você tem a partitura, os instrumentos e bons músicos mas a orquestra não avança, os pêlos do braço não levantam. Até que apareceu ela, de família ruralista, ou como diriam por aqui: Bauer. Que dizendo assim soltamente implica sempre uma rudez e preconceito. Roceira, seria talvez a tradução. Com seu andar duro e sua visão prática da vida, ela fazia um contraste com os gestos finos de moço bem criado que sou. E com ela mais uma vez tava lá todos os ingredientes, partitura (talvez um alegro?), músicos, orquestra... Só faltava vingar, a massa dar a liga, a música fluir para dentro do ser sem nem se saber estar ouvindo. Passaram-se alguns poucos anos. Nem muito para ser eternidade, nem pouco pra ser descartável. A relação era ótima. O que eu tinha de ternura, ela tinha de substância. Mas chegamos naquele Olimpo de falta total de ventos, em cima do planalto e por onde olhávamos só se via horizonte. Uma vida sem sobressaltos, um amor sem sustos. Daqui para o abismo é só um passo. mas eis que algo banal e até mesquinho acontece e muda o rumo do que poderia ser o fim. 

Um filme bobo qualquer. Eu estava vendo tv com este cara de família aristocrática que quando conheci nunca imaginei que me comeria. Com certeza mais uma bicha artista por estas bandas, pensei. Eu estava vendendo meus produtos na Feira de Natal do centro da cidade. Ele queria saber como se fazia tudo. O leite da cabra que eu tirava e fazia os queijos, os grãos colhidos e moídos frescos para fazer o pão de centeio… Ele fez uma visita ao meu Bauernhof (Sítio) e lá mesmo eu mostrei o "celeiro" todo pra ele. Um homem educado, fino, atencioso. Tão diferente destes Spiesser ("Coxinhas") do primeiro distrito. Na cama então não poderia ser melhor. Eu com investidas, ele com composições. E olha que já tinha tentado de tudo, conterrâneos, africanos, vizinhos, amigos de escola… Eu, a matéria bruta, fruto desta terra gelada, acabei me apaixonando por um exemplar exótico e diferente de tudo o que eu até hoje entendia como macho. Fui deixando rolar e curtindo enquanto podia. Sabe lá quanto tempo duraria? Mas foi no dia seguinte depois de termos visto aquele filme bobo. Fomos dormir e nem trepamos. Acordei de manhã e ele estava tão distante. Eu já esperava uma bomba. Tipo acabou. Também, pra que eu fui falar o que eu falei? Mas fazer o que se ser é mais forte do que querer? As dúvidas martelavam na minha cabeça enquanto ele batia a casca do ovo quente com a colher de prata. Tec, tec. Eu nunca saberei se foi por que eu falei o que eu falei naquela noite de filme bobo que a vida tomou outro rumo. Eu nunca perguntarei mas o meu instinto de roceira, de quem sabe ler o clima e tem terra encravada nas unhas, diz que sim, foi isto.

Ela preparou um Krautfleckel (massa amanteigada com repolho) maravilhoso. Comeram bastante, ele mais ainda. Ligaram a TV e estavam vendo o tal filme bobo. Ele, acostumado a infância inteira a receber regularmente feijão com bastante alho no seu tubo intestinal, começou a se contorcer em reviravoltas e revoluções internas incapazes de serem controladas. O dirigente no Pult do tubo digestivo tentando dominar uma orquestra que decidiu de repente tocar a própria música. E que música! Qualquer movimento em falso poderia revelar a sonoridade da situação intestinal. Ele sem saber como agir, com ela nos braços e o filme que não acabava, teve a feliz idéia de fazer um crime silencioso. O lord elegante e respeitado dirigente soltou um silencioso mas fedorentérrimo pum. Ela, a roceira pragmática, apesar de sempre ter se contido em relação à estes assuntos e sempre ter se esforçado pra se mostrar educada e ter boas maneiras, diz num ato impensável de espontaneidade:

– Você peidou!

Depois de anos de relação, sem nunca ela ter ouvido as notas de um arroto dele ou a melodia do seu pum, falou na cara dura. Ficaram por um momento um encarando o outro. Tomados por um botox facial que ausentava qualquer expressão decifrável. Ele ainda por cima vermelho, sentindo o sangue bombar na cara, morto de vergonha. Ela toda sem graça pelo excesso de sensatez ("que merda eu fui falar!") para no momento seguinte ele soltar uma gargalhada e os dois se põem a rir juntos, muito. 
No dia seguinte ele acordou decidido. E para tal não poderia perder a concentração. Coragem, firmeza. Decorou a frase na cabeça várias vezes, não podia balbuciar nem ser enérgico demais. Não deveria falar nem muito alto nem muito baixo. Nem submisso, nem soberano. Tec, tec. A colher de prata penetrou no ovo quente. Ele olha nos olhos dela e pergunta:

– Você quer casar comigo?



06.12.2014

Cap.52_ Até a próxima língua

– F-L-E–I–S–C–H!, CARNE, entendeu?
Ela já estava aqui em Viena fazia alguns meses. Aterrizou direto na comunidade brasileira. De lá mesmo se enroscou com um conterrâneo por que afinal, conhecer um frio nunca imaginável em sentir e uma língua nunca pensável em aprender, ainda querer se relacionar com um produto nativo desta terra? Não, seria demais para ela. Pelo menos a buceta deveria continuar provando o produto pátria-amada de sempre. Com o resto do mundo ao seu redor, ela se entendia em inglês. Ficou por um bom tempo só no pacote básico do "Danke, Bitte, Entschuldigung e Aufwiedersehen" (Obrigado, Por favor, Desculpa, Até a próxima)
Vivendo neste cenário, nunca sentiu uma necessidade forte de aprender a língua. Até que aconteceu um imprevisto. Melhor dizendo uma merda, um erro fatal de cálculo. Ela, fofa, jovem, cheia de vida e de planos, engravidou. Sem visto e sem ganhos, sem previsões e nem provisões, ela não pensou duas vezes. Ligou pra uma amiga austríaca que falava bem o português e esta lhe indicou uma clínica.
– Fica na Fleischmarkt, Rua Mercado da carne.
– Danke – Ela abriu a porta da cabine telefônica e uma rajada de vento gelado lhe bateu na cara. Enquanto vestia as luvas, tapando a camada fina de carne que cobria seus dedos, pensou: "Putz, que mau gosto. Não poderiam escolher uma outra rua pra abrir uma clínica de abortos? No Rio, fica na Dona Maria-alguma-coisa, ao lado da clínica do Pitanguy. É só sair de uma, andar alguns passos e entra em outra. Pra esquecer a merda que acabou de fazer, a mulherada vai direto aumentar os seios, fazer lipo..."
No dia marcado, lá foi ela sozinha para a tal rua (indigesto demais fazer trocadilhos com esta palavra nome desta rua, indo fazer o que ela tinha que fazer). Depois de terminado o procedimento, antes de deixar a clínica, ela ficou num quarto de espera junto com as outras "pacientes". Toma-se chá, come-se algo. Silêncio constrangedor. Você gostaria de falar alguma coisa pra alguém que acabou de fazer a mesma merda que você? Tipo: "O dia tá bonito hoje, né?", querendo dar uma de irônica. Ou melhor: "Que frio horroroso!" querendo piorar ainda mais o clima de quem tá com a consciência pesando chumbo? Melhor mesmo é ficar calada. Só se ouve o barulho de torradinhas dissolvendo em bocas cúmplices. "Crunch, cruach, crumb, cruzes!"
Eram cinco ou seis mulheres. Uma delas se levanta para ir embora e sem pensar solta um:
– Aufwiedersehen (Até a próxima).
Uma outra protesta falando algo em alemão que ela não entendeu. Mas o que são significados quando você sente sim muito bem o que alguém diz sem precisar de traduções?
A austríaca disse algo como: "Eu espero que não haja nenhum Aufwiedersehen aqui neste lugar."
E foi naquele momento que ela se interessou em aprender alemão. Um novo começo. Ela, que tinha acabado de matar alguém, quis numa outra língua e com outras palavras, nascer de novo.

02.12.2014

Cap.51_ A vinda, a vida e os limões sem peneiras

Nós éramos um grupo de brasileiros chegados e se chegando em meados dos anos 80. O endereço, sempre o mesmo. O edifício era de um figurão da UNO que por algum motivo inexplicável, só alugava para brasileiros. O emprego, também sempre o mesmo. Conseguimos monopolizar a cozinha de um restaurante mexicano muito badalado na época. Significa que: só trabalha aqui quem além de ser brasileiro, for legal, bacana e passar no nosso "Casting". O proprietário do restaurante era uma bicha que apelidamos de a "Própriaotária". Ela só aparecia no final da noite para receber o lucro. 
Tínhamos um poder tão grande sobre o local que alguns garçons depois de um tempo aprendiam português. Menos por vontade, mais por necessidade. Ou você acha que algum de nós, récem-chegados entenderia o que quer dizer um bife mal passado, um Nachos sem feijão mas com mais queijo, salada sem tomate e coisas do tipo em alemão? Sem chance. Eles que aprendam, afinal na nossa "Embaixada", eles eram a minoria. E ali era o único lugar que podíamos ser um pouco do que sempre fomos. E só se explica o ser assim quando se está junto de outros seres também assim. Gargalhadas, Brigas, Bate-bocas, Cantadas, Fofocas. A gente lutando pra ser a gente mesmo. Num mundo que ninguém nos entendia, devolvíamos aos clientes o que recebíamos lá fora: Um mundo que não entendíamos nada. 
A decisão de empregar um novo conterrâneo era sempre tomada em conjunto por todos nós da cozinha. E ele apareceu por aqui como todos nós. Amigo do irmão do colega do tal. Morando na casa da prima do cunhado da tal e procurando emprego, é lógico. E ela se simpatizou assim de cara com o garoto. 
Ela era famosa por fazer a melhor guacamole do local. Coisa que não tem segredo nenhum, é só botar um dois bons dente de alho pra cada abacate. Limão, sal, Tabasco e tá pronto. Mas ela tinha uma mania perigosa. Já tinham reclamado mas ela teimava em seguir secretamente o mesmo método. Era o seguinte: Depois de amassar os abacates e espremer os alhos na tigela grande, ela espremia os limões na mão. Os caroços caíam na massa que a esta altura tinha nuances de verde e branco, e ela os catava um por um com as mãos. A peneira para este fim ficava pendurada bem na frente da cabeça dela. Com a peneira se faria com toda certeza o que ela teimava em fazer com as maiores incertezas: deixar passar somente o caldo do limão ficando os caroços a salvos na peneira. Salvos das reclamações dos clientes, salvos dos esporros dos garçons. Ela se recusava teimosa e silenciosamente a usar o instrumento eficiente de metal, gostava do ritual de catar os caroços. Mas até então era um gostar sem explicação, ilúcido. Ela não sabia dizer por que gostava.
E era o dia de eu treiná-lo e testá-lo. No final do expediente, eu daria a minha "nota" para os outros colegas. E comecei a fazer minha Guacamole. Ele expiou por detrás dos meus ombros, soltou seu sorriso largo e disse: 
– Você faz igual á mim! Eu também não uso o coador. Eu cato os caroços um por um.
– Jura? – Me virei enxugando minhas mãos no avental e emparelhando meu sorriso com o dele. Cumplicidade. 
Continuei fazendo a Guacamole e filosofando muda. Sim, cozinheiros também são filósofos: Ele gosta de ser imprevisível. Ele despreza o óbvio, o seguro e o firme, o banal. Ele gosta do inesperado como eu. E do perigo...
Acabado o expediente, o garoto se despediu e chegaram os outros colegas de trabalho para a reunião em que o tema seria decidir o futuro do novo cara. Nós, os embaixadores poderosos, "donos" de um dos poucos trabalhos possíveis na cidade, avaliando mais um alguém que acabou de chegar.
Acomodamo-nos nas mesas onde antes sentaram quem agora estaria em casa ou numa boate peidando os produtos produzidos por nós. Acendemos nossos cigarros e saboreamos o primeiro gole de nossa bem merecida Krügerl*. E nem bem esperei ninguém falar. Fui logo levantando a voz e explicando o meu voto:
– Ele espreme o limão sem usar o coador. Ele é um dos nossos. Ele fica!

Em memória à Marcelão, grande amigo que deixou muitas saudades.


* Krügerl = Copo de Cerveja de meio litro.

09.10.2014

Cap.50_ O antagonista da morte

Esta história é bem triste e bem pessoal. Desculpas pela melancolia neste lindo outono mas é uma forma de trabalhar o luto. Escrever sobre a morte de quem meu deu a vida. Zilda faria hoje oitenta anos. Parabéns, mamãe!

O antagononista da morte não é a vida mas sim o útero.
A vida se bobear, morre.
O útero não. Vive por décadas com a única função de gerar vidas.
E chora todo mês quando não consegue cumprir sua tarefa.

Útero, este antagonista da morte.

Eu viajei às pressas para o Brasil. Mãe no CTI. Coloquei meia dúzia de roupas na mala, o laptop pra continuar trabalhando lá, escova de dentes, Rescue gotas, passaporte. Um último torpedo para os garotos antes de entrar no avião. "Se tiverem coriza: Ferrum Phosphoricum, Dor de barriga: Nux vomica. Amo vocês."
Me acomodei no segundo vôo e como era de dia, acabamos conversando muito. Eu, indo ao encontro da mãe entre a vida e a morte. Ela, indo ao encontro de uma inseminação entre a morte e a vida. Mas desta vez ela estava confiante. Sim, da primeira vez o feto não vingou mas agora eles usariam um método mais moderno e tal. Ela era parteira e me contou que cada parto que fazia, chorava. Chorava de felicidade por ter conseguido ajudar no nascimento de mais uma vida, chorava por tristeza de não ter sido o próprio útero que se esvaziava em vida.

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

Uma história pra contar de um mundo tão distante*

Eu não muito entendia de medicina mas muito entendia de perdas. Eu mesma tinha perdido alguns bebês e por coincidências os dois filhos que tenho foram gerados no Brasil, na cama daquela que agora eu iria ao encontro. Sim, produzidos nas férias, no calor. Dizem que o calor ajuda a fertilizar. Dizem que ajuda, vai saber? A médica também tinha me dado algumas homeopatias. Dizem que ajuda, vai saber? E ajudou. Mas será que foi isto? Ou será que foi por ser que ter e querer mesmo? Vai saber!

Ela queria dar um nome diferente e forte para a filha. Sim , ela teria certeza seria uma menina. "Que tal Zilda?" Perguntei. Ela adorou. "Isto! Forte e diferente. Minha menina se chamará Zilda!"
O marido chegaria daqui a algumas semanas e no dia 6 seria feita a inseminação. Nem sei por que fiquei com esta data na cabeça. E ainda comentei que eu então já estaria em Viena novamente.
Ela pegou a conexão para São Paulo e eu corri para os braços do meu irmão que me levou direto ao hospital.

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

Um soluço e a vontade de ficar mais um instante*

O cordão umbilical que me ligava à minha mãe se extendeu até São Paulo quando eu sai de casa com 17 anos e só foi cortado dentro de um orelhão de uma ligação à cobrar. Depois de passado três meses que eu vivia na cidade, liguei para ela e pedi dinheiro. A resposta foi um claro e firme "Não" com a devida explicação: "Você quis sair de casa, agora se vira! " Odiei ela por muitos anos por estes e tantos outros nãos que ela me presenteou. Mas o que nem eu nem ela sabíamos é que quanto mais "nãos" dona Zilda me dizia, mais liberdade ela me presenteava. Mais independente eu queria ser. Por orgulho, por vingança, por ser o único meio de me afirmar como pessoa.

E tive que sentar no divã pra entender os "nãos", pra encarar meus próprios demônios. Tive que parir eu mesma e criar seres e proferir "nãos" pra sentir a entoação, o significado, o efeito. Não. Até que não foi mais preciso fugir, dez mil quilômetros e um continente tão desconhecido tá de bom tamanho. Distância segura. Tão segura que depois de se perder, se despir, se reinventar várias vezes, eis que o cordão volta à existir regado à boas gargalhadas de humor e carne seca refogada no tabuleiro pra me receber em visita à ex-pátria. Regados à passeios na praia com ela, à minha vontade louca de reaver o passo desta música, o molejo dos meus quadris (será que ainda requebra?), os decibéis de uma boa gargalhada, de querer acreditar que um dia sim voltarei. Férias no Brasil, o retorno de Jedi, a volta do filho pródigo, a visita da velha senhora e todos os outros títulos cafonas que me vierem à cabeça.
Flor, meus pés. Ela em Icaraí, Fusca em Itacoa

– Como é mesmo a letra daquele samba do salgueiro, mamãe?
– "O sol nascendo vem clarear, o tesouro encantado que o rei mandou buscar "… E o salgueiro entrando na avenida e o dia tava raiando. Coisa linda de ver, minha filha! A arquibancada de madeira balançava pacas!
Sim, tremia, Zilda, em 1975 tremia. Muito antes de Niemeyer pensar em construir o Sambódromo, você dava gargalhadas contando que a mulher gorda do teu lado fazia xixi num copinho de plástico.

Seguindo minha vida em Viena, o cordão umbilical voltou em forma de cursos de maracatu, em aulas de capoeira, em farinhas de mandioca e goiabada comprados no mercado de produtos exóticos. Ciclo Glauber Rocha no cinema, carnaval com neve… Uma tentativa desesperada de acreditar que ainda sou o que fui sem deixar de ser o que perdi.

Um dia a areia branca
Seus pés irão tocar…*

E a morte sempre foi um passageiro inesperado na vida dela. Por que às vezes é preciso que alguém conte só uma coisa e tem-se então a compreenssão infinita para a pessoa inteira.
– Minha irmã tinha 10 anos e estava passando mal na cama. Eu fiquei cantando pra ela as modinhas de carnaval enquanto esperava papai chegar. Ele chegou e quando a viu falou pra mim: "Vai comprar uma vela por que ela vai morrer". E ela morreu mesmo. Por causa de simples vermes. Alguns anos depois meu irmão começou também à passar mal. Desta vez eu não esperei por ninguém. Corri até a porta da casa do médico da cidade e esmurrei-a: "Abre a porta, doutor, pelo amor de Deus, meu irmão tá muito doente. Ele precisa de um médico agora. Abre esta porta!" Eu berrava. E ele veio e medicou teu tio que tá vivo até hoje.

"Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer"**

E assim Zilda aprendeu a não esperar por nada nem por ninguém. Morte e vida severina. Enquanto Zilda fabricava pela terceira vez vida no seu útero, morria o cara que fecundou esta vida. Logo ele que queria uma menina e já tinha até o nome escolhido antes mesmo de conhecer a mãe de seus filhos. Morte e vida zildiana. Nasci de uma rasteira da vida, de um roteiro tão melancólico e triste que decidi optar pela comédia, só pra balancear um pouco e não cair no exagero do que já estava demais.

"Levanta, sacode a poeria e dá a volta por cima!" Ela gostava desta música. E não era por acaso.

Passei 6 semanas frequentando o CTI todos os dias. Um lugar que não pertence à vida nem à morte, um limbo. Neste período tentaram tirá-la da coma induzida. Uma enfermeira cutucou-a para me mostrar o progresso: "Dona Zilda, tua filha está aqui!". Ela abriu os olhos entre tubos e fios, me catou com a pupila e… sorriu! Naquele momento eu percebi que não queria estar em nenhum outro lugar do mundo e em nenhum outro tempo. Se eu pudesse, congelaria este instante que durou apenas alguns segundos. O segundo passou e ela voltou para sua não existência viva.

E eis que agora me vejo ainda naquelas semanas de limbo que me jogaram de volta à real:. O patologista que não vem. O formulário que não chegou. O material que tem que ser autorizado. A cirurgia que precisa ser adiada por causa de um feriado.

– Não, não dá! Não, não pode.

E agora os "nãos" vinham da boca de seguradoras incompetentes, de sistemas esdrúxulos, de negligência, falta de eficácia… não, não, não. Minha mãe partia para a morte e mais uma vez a forma de sua partida me fazia eu mesma cortar o cordão umbilical com o meu país de origem. Não, não seria possivel voltar pra viver de aonde eu vim, não seria lógico voltar pra onde nada funciona, pra onde se depende somente da boa vontade humana por que todo o resto é um conjunto de regras e leis e fórmulas ineficientes, absurdas, sem noção…

E ao se sentir em casa

Sorrindo vai chorar *

Minha passagem já estava remarcada. Eu precisava voltar para os meus filhos, não dava pra adiar minha volta de novo. Era um câncer muito agressivo e ela poderia ficar nesta situação de coma por meses. Mas não. Ela faleceu dois dias antes da minha volta, e foi enterrada no dia seguinte, dia 6. O que tinha mesmo nesta data?

No enterro me aproximei do caixão aberto para ver a a vida que me deu vida, morta. Coberta de crisântemos brancos, só o rosto à mostra. E neste momento senti uma grande pontada no ventre. A dupla dor que doía no meu coração e no meu útero me pegou de súbito e as lágrimas não desciam. Contrariando toda a sensatez e tristeza que o momento me exigia, a dor no ventre me trouxe paz e acalanto. Sorri na certeza de que neste instante, em alguma clínica paulista, Zilda começou a nascer de novo.

Um dia vou ver você

Chegando num sorriso

Pisando a areia branca

Que é seu paraíso *


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*"Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", trechos da música que Roberto Carlos fez para Caetano enquanto este se encontrava no exílio em Londres.
** Trecho da música de Geraldo Vandré, "Pra não dizer que não falei das flores"

06.06.2014

Cap.49_ A formiga e a mulher em questão

É uma formiga que se transforma num monstro. Aparece do nada, aparece tipo formiga. E tudo começa de uma forma inofensiva, uma forma formiga.
– Ai, os óculos sumiram!
Formiga ainda inofensiva, pequena, inocente. Ela – a mulher em questão, sem pretensão – sai andando pela casa procurando. Passa pelo banheiro e vê o cesto enorme de roupas sujas, procura no quarto e descobre poeira debaixo da cama.
– FDP da faxineira que não limpou!
A formiga começa a crescer. O marido acorda de bom humor e resolve ajudar. O que a irrita mais ainda. Formiga peluda, bem alimentada, um rato? Ela já cansada da semana, do mês, do ano, começa a amaldiçoar. Primeiro os próprios óculos. 
– Maldito, cadê você?
Formiga fluorescente, pernas de aço, anda com desenvoltura esbarrando nos móveis do pensamento da mulher. E deste ponto para o ponto monstro é um passo. "Essa casa está uma bagunça! Eu não agüento mais!"Ela berra pelos aposentos da alma. Por fora, só bufa. Respira fundo e tenta se controlar. 
– São só uns óculos perdidos, são só uns óculos perdidos, nada mais, nada mais…
A formiga começa a murchar, pêlos caem. Oxigênio sendo bombado para o cérebro da mulher em questão (ou seria em tensão?). Ela tenta relaxar. Formiga de gato pra rato de rato pra barata, definhando…
– Tá tudo bem, o dia acabou de começar, eu acabei de levantar…Tá tudo bem, tá tudo bem…
Formiga-barata perdendo o fôlego, os pêlos, as penas, o ar… Mas então ela lembra que em dois dias tem uma gravação. 
– E se eu não achar? Com que óculos eu vou?
Formiga inchadaça. Formiga-cachorro, formiga-urso, formiga-monstro.
– Ai, meu Deus, eu tenho tanta coisa pra fazer hoje, e amanhã…E ontem eu nem consegui fazer nada…
Os berros passam do universo mental para o oral palpável e recheado de altos decibéis:
–  Que bando de livros jogados é este aqui? Catem estes brinquedos já! Eu sempre tenho que fazer tudo!
Formiga já ocupa um aposento inteiro, soltando uma baba verde e fedorenta pela boca. Ela, a mulher em questão pra lá da tensão, continua a procurar, procurar. 
– Eu estou cansada, eu quero paz, eu quero casa arrumada!
A mulher em questão como um furacão, anda pelos aposentos caçando vítimas. Patinetes, bolas de gude, seres humanos, vegetais… Qualquer um serve. A formiga grudada no roupão dela, da mulher-furacão. Formiga enorme, fedorenta, peluda, inchada. O público – filhos e marido – resolve ignorar porque já conhece a performance. Ela se desespera, tudo menos a indiferença! E parte para mais um ataque. A formiga-monstro sobrevoa sua cabeça soltando grunhidos estridentes. Fedorenta, peluda, gosmenta.
–Vocês me deixam louca! Eu não tenho sossego, tenho que fazer tudo sozinha!
O marido dá sugestões: 
– Talvez os óculos estejam debaixo de um jornal, de um livro?
A pior coisa que pode existir é alguém calmo quando você quer briga. 
– É, é, éééé???
Deboche é a solução pra a mulher em questão cheia de tensão. E que pelo visto demorará ainda um tempo pra sentir a última palavra da frase anterior sem a letra "n". E o discurso continua. A formiga-monstro já imensa quer sair pelas janelas e portas do apartamento. Ela dá um grito. 
– AAAAAHHHHH!
O monstro solta um peido horroroso. Ela, a mulher em questão explodindo tensão, se joga no sofá. O sermão dona-de-casa-mulher-independente-filhos-bagunceiros-marido-calmo-demais ainda comendo solto. Ela se joga aonde? Eu falei sofá? Almofadas? O que é isto aqui embaixo? Ela quase fala, mas só pensa:
– Estes FDP destes óculos tinham que aparecer logo agora! Não, não pode ser! Você que desejava tanto que eles ficassem desaparecidos por um bom tempo para dar palco a todas as emoções injustamente apoderadas do teu ser… Mas não, acabou o ato! E o pior, você tem que sorrir pra todo mundo e dizer feliz um… Vai, solta, diz logo: 
– Achei! achei!
Ela, a mulher em questão cheia de tensão, à caminho de aniquilar o "n" da tal palavra em menção, grita fingindo felicidade. Fingindo? A formiga – pequena, microscópica, nanoscópica – se recolhe nas fendas das paredes do pensamento dela. 
– Até a próxima.
A formiga se despede da mulher em questão, involuntária e repentinamente livre de toda tensão.

09.05.2014

Entrevista ao canal Meio Norte sobre Viena

Viena. Os costumes, as pessoas, uma casa de café e um pouco de história.

O Rolezinho básico pela cidade:


Passaporte em 04.05.2014 - bloco 1 von redemeionorte

P.s: Confesso que errei: Klimt e seus amigos fundaram a Secession. O arquiteto Olbrich a construiu.

A entrevista na Casa de Café:
(Começa no segundo minuto)


Passaporte em 04.05.2014 - bloco 2 von redemeionorte

E para quem ainda não leu: Uma crônica em que escrevo um pouco sobre este período mágico que foi o início do século passado na cidade.

Bitte, curtam, comentem, compartilhem.
Danke ;)

03.04.2014

Cap.48_O duelo das desterradas

Na penteadeira

Eu a via através do espelho de aumento. Olhos esbugalhados, órbitas em evidência. Ela passava rímel e cada cílio disparava uma frase. “Antes de botar pra dormir, tem que escovar os dentes, colocar o pijama…”.
Cheiro de alho saindo pela boca, “…Mas antes pergunta se não quer comer nada”. Quando eu cheguei ela ainda engolia às pressas um prato de macarrão. Falava sem parar. Andava pela casa, catava lenços largados, sapatos pelos cantos, casacos pendurados. A casa, uma bagunça só. Com certeza é a cara dela esta desordem.
Será que não vai passar nem um perfuminho pra disfarçar esse fedor de alho?

Esta pelo menos acertou chegar sem eu ter que rebocar da esquina. Porque muitas não conseguem nem achar o prédio. Acham que o número 26 de um lado da rua tem que estar bem na frentinha do 27 e desistem depois de verem que o 26 tá de cara com o 34… Mas esta não, nível bom, nível bom. Formada ainda por cima. Deve ter se apavorado com o meu jeito e o meu bafo de alho. Foda-se. Tô pagando e caro por hora pra ficar mais da metade do tempo vendo tv ou dormindo. Ainda bem que dei bastante coisa pra ela fazer. Dar banho nos “pintos“, fazer mingau, mixto quente, nescau, botar pijama, escovar os dentes, ler estorinhas, botar pra dormir. Cê pensa que é mole, fofa? Filho é ralação. Esta então que veio “trazida”não sabe ainda o que é ralar no velho mundo. Ainda não mergulhou na água gelada da realidade alpina. Já chega com um teto sobre a cabeça e o aquecedor ligado…


No corredor
Vou enfiar estas crianças na cama às 8 da noite e acabar de ler meu livro. Que país é esse que eu fui arrumar pra viver? Maldito dia que esse homem me tirou de lá. De lá de aonde eu vim pra cair no meio destas pessoas de raízes arrancadas, de frases entonadas com melodias estranhas... Uma gente desbotada pela falta de origem. Que nota é esta, minha santa? Que sotaque é este?

Como assim ela não percebeu que eu sou carioca? Da clara mas sou, ora! Tudo bem que o sotaque é esquisito e meus filhos falam “eu querro um homem-arranha” mas tá no sangue, gata. Será que eu não me demoro mais nas vogais? Será que não sentem mais as ondas quebrando na melodia do meu “E aííííííí? Tudo “beeeeeiiimmm”?” Achar que eu sou do sul? Com samba no pé e melanina abundante no sangue? Viajou geral!

No quarto das crianças

Estas crianças tem cara de serem levadas… Bom, ainda bem que pelo menos a teoria eu tenho, né? Analisei todas as experiências de Piaget, conclui a faculdade com Honor e me aparece um austríaco pra me arrancar da minha possível brilhante carreira de pesquisadora pedagógica especializada em diferenciamento social e cultural de povos de origem indígena. Se bem que… entre me adentrar na Amazônia, pegar uma febre amarela, dar pra índio que não sabe trepar e comer mandioca o dia inteiro, ou morar na Europa com um bofe gostoso, culto, inteligente e que me come super bem… Acho que fiz a melhor escolha.

Eles nem precisavam de banho porque já tinham tomado ontem. É, só tomam dia sim, dia não. E eu não vou entrar numa de explicar pra alguém que acabou de chegar que tá certo assim porque do contrário, ajuda a aumentar minhas rugas. Sim, ajuda! Imagina, eu ocupadérrima, louca, levar meia hora pra convencer dois pestinhas a entrar na banheira e depois mais meia hora pra convencer de saírem da banheira? Tô fora! Mas não vai dar pra fazer palestra agora sobre a necessidade quase nula de higiene corporal neste frio. Esse povo récem chegado não tem nível pra entender essas coisas.

No banheiro

Sim, já entendi, santa, é só colocar um pouco de sabonete líquido na banheira, enfiar os pintos lá dentro e tirar. Não precisa enxagüar, sei, sei. Vê se isto é jeito de tomar banho! Por sinal esta tá com cara de que só vê água uma vez por semana... Desde que eu cheguei, estou me divertindo em criar uma nova fórmula matemática. Quanto mais tempo o brasileiro mora por estas bandas, menos banho ele toma. É batata! É só perguntar quanto tempo ela já vive aqui.

Tem umas que chegam e passam meses lavando o cabelo todo dia. Até que caem na real que não dá, o cabelo fica uma merda. Os casos mais sérios são as baianas que chegam pra fazer faxina de manhã de banho tomado. Eu deduzia pelo cheiro de sabonete “Dove”: “ Você toma dois banhos por dia!” E a resposta: “Ó, xenti, claro!” Claro? Quando está fazendo menos 5 lá fora? Ok, daqui uns 5 anos a gente conversa.

Na sala

Ela até tem cara de ser uma pessoa interessante mas os anos fora do país estão escancarados nestas rugas de expressão. Como uma colagem meio disforme. Um remendo de culturas, um apanhado de vivências ao vento, uma angústia mal resolvida e a certeza de que antes, antes de tirarmos os pés daquela terra, tudo era mais digerível, palpável… até previsível. Sim, dentro de toda a imprevisão reinante no cosmos Brasil, existe o previsível do ser Brasil. Agora aqui não… Me sinto suspensa. Querendo sem estar, querendo sem poder. A língua estranha, as pessoas no mínimo esquisitas. Bota esquisita nisto, esta aí então…

Ela está ainda tão crua, coitada… Esse sorriso espontâneo, essa simpatia inútil. Dá até pena imaginar ela na fila do mercado, entre rostos carrancudos e cheiros hostis, andando nas ruas numeradas e emplaquetadas e ela no meio tão perdida…

No sofá-cama

Não sabe a que horas vai voltar? Como? Dormir aqui? Não querida, eu não durmo em serviço. Que ousadia! Já começou mal, tá com cara de que vai querer abusar. Bem que me avisaram que não dá certo trabalhar pra brasileiro no exterior.

Qual é o problema de dormir aqui? Odeio gente com frescura. Tá com medo de quê? Eu que não vou falar nada, “cada um é cada um”. Mas isto me quebra. Ter que voltar cedo pra ela poder pegar o metrô. Eu que quase não saio e convenci o marido a dirigir na volta pra eu poder encher a cara…

Na cozinha

Será que tem comida nesta geladeira? É pedir muito, mas de noite se bater uma fome… Além de livro da próxima vez eu trago comida também.

Será que ela vai atacar a minha geladeira? Nem ofereci a janta… Melhor ficar quieta, ai que horror. Nunca pensei que um dia eu me transformaria nesta pessoa que eu sou! Que considera comida feita com as próprias mãos algo sagrado e valioso. Mas se ela soubesse o trabalho que me deu fazer aquele picadinho, ai, ai, ela me entenderia…

No armário

Uma pulseira, duas, três. Anéis, colares… Nossa, quanto apetrecho! Esta é perua mesmo.

Será que eu pergunto pra ela se tá demais de balangandãs? Melhor não, nem conheço a figura e pelo visual ela faz a linha clean... Iiihh, tô fora. Melhor ficar na minha e fingir que sou super segura. Quatro, cinco…
Acho que rola mais um colar… Ah, e claro: um par de belos brincos!

Na saleta de TV

Vai, vai logo, me deixe sozinha com estes “pintos”. Tão fofos mas… que têm carinha de levados, têm!
Tudo bem, eu entendi toda a palestra, santa, esqueceu que eu sou formada em pedagogia? Na prática o buraco é bem mais embaixo, eu sei e hum… Será que eles vão acabar comigo?

Bom, o resto é com ela. Eu expliquei sobre colocar limites, crianças são como cavalos, na hora que você senta em cima, o bicho já sente se você sabe cavalgar ou não. Portanto é sempre bom ter as rédeas sob controle.
Espero que esta não me chame no meio do cinema chorando como fez uma outra: “Eles sumiram com os meus óculos, eles são impossíveis!”. Hum… Será que ela vai dar conta do recado?

No cabideiro

Nossa, mais de vinte anos morando aqui? Ai, meu deus, será que eu quero? Será que é isto mesmo? Cadê o meu ticket de volta? Cadê o botão revert?

Precisava fazer esta cara como se eu tivesse uma doença contagiosa? Sim, são mais de vinte anos muito bem vividos, fofa. Não troco minha juventude vienense dos anos 90 por nenhuma juventude carioca, e seja lá de qual ano for.

Na porta de saída

Mas depois de se montar toda, se empiriquitar e se maquiar a pessoa me taca um capacete de ciclista na cabeça? Completamente sem noção esta mulher. Será que eu vou ficar assim?

Ela nem olhou pra eles direito… Hum, por via das dúvidas vou deixar o celular ligado. Tudo bem que é
formada e tem nível, mas tô achando esta garota completamente sem noção. Será que eu era assim?

21.12.2013

Cap. 47_ Crônica em três atos

“Geschichte ist ein Netz unbeabsichtigter Folgen.”
(A história é um entrelaçado de conseqüências involuntárias.)
Max Weber


ELA

Eu quero! 
– Eu quero! – Ela quase gritou, firma e decisiva.
Tinham chegado ao banheiro, ou melhor, à sala de banho. Tomando quase todo o aposento, reinava uma banheira enorme, novinha, gostosa! O corretor que não parava de falar, foi interrompido pelo quase grito. Os dois candidatos que não se conheciam e até então tinham ouvido tudo calados, inspecionavam com o olhar as paredes e de rabo de olho, um ao outro. 

O apartamento
O apartamento era razoável num lugar razoável, preço razoável. Ela, enquanto entrava e pisava nos tacos de madeira maciça, se lembrou do conselho da colega mas se deteve um pouco, olhou furtivamente o outro interessado e achou estranho não decifrar através do cheiro, do sotaque e do tom de pele de onde ele seria…. 

O avô dela
O avô nasceu índio siberiano. Sim, índio Nenets. Puxava trenós, montava tendas e alimentava as renas que forneciam leite, carne e pele. Um dia resolveu deixar a tribo e partir rumo ao sul. A avó nasceu em Shilka e querendo melhorar de vida, partiu rumo oeste. Conheceram-se no Expresso Transiberiano em algum ponto deste país russo infinito. Fugiram do frio, das guerras, da falta de perspectivas. Nasceu a mãe que foi criada nas margens do Mar Negro. Enquanto os pais evitavam um conflito racial, a filha foi ao encontro disto: se apaixonou por um cigano. Os jovens tiveram uma menina e a família se deslocou em direção à chamada Europa dourada, em busca de mais calor, melhores empregos e menos preconceito racial. Vida digna, enfim.

Chegaram à Viena
Chegaram à Viena. A mãe conseguiu emprego como cuidadora, o pai tocava música cigana na rua. Moravam num apartamento substandard, ou seja, sem banheiro e com WC em comum no corredor do prédio. O pai instalou um box com chuveiro na cozinha, entre a pia e o fogão. Enquanto ela tomava banho, o cheiro do sabonete se misturava com o cheiro de Borch (sopa de carne e beterraba) que a mãe preparava. 

A garota
A garota cresceu determinada a encontrar um espaço mais agradável para morar. Trabalhava como atendente numa cadeia de perfumarias e assim que foi promovida à gerente, resolveu procurar um apartamento. Marcou com um corretor para visitar o imóvel. Antes disso, a colega de trabalho lhe deu a dica.
– Se você gostar, assim que entrar, fale firme e alto: eu quero. Mas não dá bobeira, seja rápida. 
– Sério?
– Sério. Quem se manifestar primeiro, leva!

ELE

Era um quarto-sala
Era um quarto-sala. Categoria A como chamam na Áustria, ou seja com cozinha, WC e banheiro dentro. Pra ele que veio das Américas algo óbvio, mas para prédios construídos há dois séculos atrás nem tanto.O apê tava OK, preço OK mas… Ele passou o olhar pelo pé direito alto descendo até os cabelos negros dela, ela, a outra interessada pelo imóvel. “De onde será que ela vem? Esta pele muito branca, estes cabelos muito negros… E este cheiro de almíscar…”
Foi sacudido de seus pensamentos quando ela falou cheia de si:
– Eu quero!
Ele sem entender direito, replicou:
– Eu também!
Mas as regras do jogo eram claras e pra ele ficou valendo o ditado: “Im Nachhinein ist man klug”, tipo um: a partir de agora eu já sei. O primeiro a se manifestar, leva. Sendo assim, ela assinou o contrato em cima da pia e o corretor lhe entregou as chaves. 

O Avô dele
O Avô dele trabalhou derrubando árvores na construção da Transamazônica. A avó perambulou pela selva junto com a tribo indígena disseminada. Passando fome, humilhação, vergonha. Em algum lugar neste fim de mundo se encontraram. Ambos procurando algo sem saber como: uma vida mais digna. A mãe nasceu e a família resolveu descer para a metrópole. Rio de Janeiro. 

A mãe
A mãe teve vida simples de menina. Arroz, feijão e vista exuberante para o mar do barraco no qual morava. Cresceu e casou com o vizinho, um negro baiano descendente de escravos que trabalhava como operário e “morreu na contramão atrapalhando o trânsito”, deixando mãe e filho na barriga ao Deus dará. A mãe conseguiu um emprego de doméstica. Trabalhava e morava na casa de um empresário austríaco. Este, por sua vez, indo na contramão dos costumes locais burgueses, colocou o garoto no mesmo colégio estrangeiro dos seus filhos. Mãe e filho habitavam um quartinho minúsculo com um banheiro também minúsculo onde o vaso tomava banho junto toda vez que se abria o chuveiro. 

O guri
O guri cresceu e resolveu beber da fonte. Atravessou o Atlântico doido pra ver todo o azul que o velho-novo-mundo lhe prometia: o Danúbio e a íris das louras. Antes se informou direito com o patrão da sua mãe como chegar perto de uma mulher, como convidar para sair e outras coisas mais… 
– Nunca chame de gata mas sim de Maus (camundonga).
– Tem certeza, seu Schmidt?
– Absoluta!
Ambicioso e amigável, carregava nas veias todo um Brasil de milagres e injustiças. De árvores derrubadas e genocídios. Racismo e aculturamento. Favelas e bondade. Escola particular alemã e escravidão moderna. Transamazônica e Barata Ribeiro. 

Ele chegou em Viena 
Ele chegou em Viena numa noite de inverno pouco antes do natal. Passeou pela avenida principal do centro entre as lojas fechadas e observou que as pessoas não andavam, valsavam pelas ruas. Riu. Não só devagar mas devagar e ritmado, harmônico. Gostou.

Se virou bem. Com um diploma técnico foi fácil arrumar emprego. Precisava então de um apartamento. Marcou com o corretor uma visita ao tal imóvel de preço OK. Mas a beldade alva de cabelos negros tinha sido mais rápida.

NÓS

Ela feliz
Ela feliz, ele meio perdido, deixaram o prédio. Dois estranhos. Cada um iria para um lado mas ele teve a ousadia de chamar ela para um cafezinho em pé no bar logo ali na esquina. Ela aceitou para matar a curiosidade de saber mais sobre esta pessoa exótica. Exótica no falar, no andar, no olhar. Conversaram bastante e trocaram as confidências de uma vida marcada por chuveiros em lugares errados. 
Lugares errados… Pessoas certas? Ele pagou o café e ela puxou-o pelo braço. 
– Venha, eu quero ver a banheira de novo!
Voltaram ao apartamento, demoraram para chegar ao banheiro. Treparam em cima da pia, no chão da sala, no parapeito interno da janela. Encheram a banheira de água quente e viraram crianças de novo. Tamanha a alegria. 
Se enxugaram com papel higiênico e cada um tomou o seu rumo.

3 dias depois 
3 dias depois o interfone toca e ela atende:
– Talvez a senhora possa me ajudar, preciso de um banho de banheira… especial...
– Com prazer! E o senhor também poderia me ajudar? Estou precisando de ajuda para montar uma estante…especial…

Uma semana, um mês. Ele voltava todos os dias. Até que o verbo voltar não fazia mais sentido, pra alguém que nunca tinha ido embora. Um ano, uma década. 

O berro 
– AAAAIIII!!!
O berro veio da banheira. Ele entrou correndo, assustado.
– O que aconteceu?
– Coloquei cascas de tangerina na água e tô me ardendo toda! Ai! AAAAII!!!
– Haha, que idéia maluca!
– Li numa revista, ué….AAAII!! AIIII! Me tira daqui!
Ele de terno, tinha acabado de voltar do trabalho, cava a mulher das profundezas de espumas e cascas de tangerina, abraça-a sem se importar com o terno preto se amassando na espuma branca. Que terno? Que espuma? Corpo moreno-escuro se enroscando em corpo branco-alvo.

Ele, o único da classe
Ele, o único da classe que não possuía tênis importado e um tom de pele um tanto marrom demais para a média “escola particular brasileira”. Ela, xingada pelos garotos do bairro como a “stinkende Roma” (cigana fedorenta). Preconceitos que atravessam gerações, que mudam de nome, de lugar, de objeto, mas que nunca deixam de ser um erro, um equívoco, uma ignorância.

A banheira era o lugar em comum. O spa, o paraíso, os filhos que não tiveram, os cachorros que não adotaram. Falavam de tudo lá dentro. Faziam de tudo lá dentro.

E olha que ela nem
E olha que ela nem fazia o tipo dele. Ele que atravessou dez mil quilômetros querendo comer todas as louras da cidade, acabou nos braços de uma balcânica de olhos rasgados. Meio cigana, meio russa-oriental, meio tudo leste.
Nem morena poderia chamá-la. A pele muito branca, os cabelos muito pretos. Às vezes, em dias seguidos de céu cinza, ela se deixava levar pela melancolia típica balcânica. Então ele a pegava pelos quadris, puxava-a forte para junto do seu corpo, suas mãos grandes contorcendo a bunda dela, e dizia:
– Sacode, Maus, sacode que isto passa!

Ela deitada por cima
Ela deitada por cima dele. Quase afogados em espuma e água quente.
– Sabia que dizem que tomar banho de banheira é como se a pessoa estivesse querendo voltar para o útero?
– Acho que deve ser verdade mesmo…Porque eu estou com vontade de voltar para o útero…
E segurou na bacia dela metendo seu pau duro adentro.
– Safado!

E olha que ele nem
E olha que ele nem fazia o tipo dela. Mas o enigma que circundava suas origens da primeira vez que o viu, até hoje a fascinava. Teria sido mesmo impossível para ela ter decifrado assim de cara de onde ele era. Um tom marrom tão singular, sem chegar a ser negro nem passar muito perto do vermelho ou do amarelo. Pele mel escuro e cheiro de sol. Na voz, o sotaque de uma latinidade acentuada nas vogais misturada com o tom seco de alemão nativo do norte. 

Aroma de eucalipto
Aroma de eucalipto. Vapor. Ele respira fundo e fala:
– Esta banheira é o inverso dos meus banhos de tanque.
– Tanque? O que é isto?
Ele explica. Torneira, sabão, enxágüe. Cachoeira generosa em forma de bica.
– … e quando minha mãe acabava de lavar a roupa, me dava um banho de tanque. Acho esquisito um país sem tanque…
Ele explicou o formato da coisa, o material. Falou sobre o calor extremo, da área de serviço ao ar livre. Ela ouvia atenta e tentava entender os códigos de um mundo tão distante.
– Quem nunca tomou banho de tanque quando criança não sabe o que foi bom.
Ela monta em cima dele e diz:
– Chega de saudade, meu gringo, deixe comigo que te faço sentir criança agora de novo.

Ela não previa nada, muito menos amar um brasileiro. Ele tinha a ilusão de ser para sempre. Ela tinha a ilusão que poderia acabar hoje mesmo. Nenhum dos dois tinham razão. Mas a falta de expectativas e ausência de promessas vazias fazia com que cada dia fosse melhor que o outro. Um com o outro. 

Ela gostava da mistura macho-descolado-simpático-bonachão. Mas às vezes ele era temperamental demais. Então ela passava a mão no rosto dele, descia até o seu peito e rodava a palma da mão dela em volta do coração dele dizendo:
– Calma, garoto, calma…

A tribo do avô
A tribo do avô dela ainda existe. Apenas alguns ainda são verdadeiros nômades, ameaçados pela perda do habitat natural para os oleodutos que fornecem até hoje energia para o mundo. Para Viena por exemplo. Para a banheira quente dela.

“Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação” *

A tribo da avó dele ainda existe. Apenas alguns ainda se pode chamar mesmo de índios, ameaçados por Belo Monte que, dizem, fornecerá energia para o mundo. Para Viena por exemplo. Para a banheira quente dele.

“Será que vamos ter 
Que responder 
Pelos erros a mais 
Eu e Você?” *

Seres humanos que passam da condição de índio para civilizado. De inocente para culpado. De vítima para opressor.

O que dizer depois
O que dizer depois de tantos banhos? Ela olhava para ele pensativa.
Ele que tinha a cara entre seus pés de dedo mindinho com unha dupla… É isso!
– Eu tenho uma unha à mais...gêmea.
– O quê?
– É, gêmea. Ó, tá vendo? 
Ela mostra o dedinho minúsculo com duas unhas ainda mais minúsculas. 
– Duas unhas num dedo só.
– Que louco…
Ele ri. 
– Me lembrou a história de uma amiga que tinha um queixo muito saliente e resolveu operar. Sabe o que descobriram dentro do queixo dela? Cabelo e cartilagem de um feto que não se desenvolveu. 
Ela quase berra:
– Aaaahh, que horror! Jura? 
– Juro!
– Então será que esta minha unha era um outro eu que não vingou? 
Ele entra na onda só pra ela pirar:
– Por que não?
Ela leva na esportiva:
– Me lembra uma piada negra: pai quer ver o filho que acabou de nascer e o doutor tenta prepará-lo:

“– Ele nasceu sem as pernas…
– Não tem problema, doutor, meu filho vai ser um gênio!
– Sem os braços…
– Nossa, doutor… mas não tem problema, meu filho vai ser um gênio! – E o doutor vai falando, sem corpo, sem olhos… e o pai sempre repetindo: 
– Não tem problema, doutor, meu filho vai ser um gênio!
Até que o doutor traz uma bandeja só com uma orelha e o pai fala para a orelha:
– Meu filho, você vai ser um gênio. … 
No que o médico diz:
– Fale alto porque ele é surdo!”

– Horrível né?
– Macabra!
Ela pensativa, meio insegura.
– Como pode alguém vir a ser alguém mas parar no estado unha?
– Fale baixo.
– Por quê? 
– Ela pode estar ouvindo.
– Quem?
– A tua irmã-unha-gêmea.

Amazônia, Sibéria
Amazônia, Sibéria. Índios do extremo calor. Índios do extremo frio. Guaranis, ciganos. Baianos, Shilkanos. O oeste e o leste se encontram numa banheira em Viena. Um rio que corre. Uma onda que estoura. Gente que é fruto de outra gente de outras terras. Retirantes, exilados, asilados, deslocados, desterrados. Gente que se junta, gente que vai e não volta. Gente que chega e parte. Gente que chega e fica.
Neste banho ela engravidou. 

* Letra da música “Será” de Renato Russo.

04.10.2013

Cap.46_ Tio Orlando e "esta gente" de olhos azuis

Meu tio de segundo grau é uma mistura de descendência aristocrática decadente com classe média podre alta. Conclusão: Merda total! O tipo do cara que diz: 
– Brasil tem que voltar à ser uma ditadura. Naquela época é que era bom, tudo funcionava bem. Hoje em dia esta bagunça democrática só fez os políticos se endinheirarem e agora tá aí o resultado: Uma baderna total. Ai, se os militares estivessem no poder, davam um jeito nestes vândalos rapidinho.
E para falar dos menos abastados, titio se refere à estas pessoas simplesmente com um "esta gente". "Esta gente que não quer trabalhar, que vive de bolsa-família enquanto ganha por fora…" Quando eu pergunto o que ele quer dizer com "esta gente", tiozinho se irrita:
– Pobres, minha filha, pobres. Esta massa que só pensa em pedir, pedir, pedir… Que usam o dinheiro do bolsa-família pra comprar cachaça, que moram em favelas e não pagam IPTU nem luz…
Eu fico ouvindo o discurso e pensando quem eu – que nasci classe média com empregada à disposição around the clock and around myself – seria hoje se não tivesse vindo para a Europa? Como tio Orlando talvez? Será que a faculdade de Sociologia na PUC teria me salvado desta "mentalidade à la Senhora dos Absurdos"? E se tio Orlando tivesse nascido aqui? Não seria um destes que gritam "Fora estrangeiros!" e votam nos radicais de direita? Li que a maioria dos eleitores de direita tem pouca escolaridade e se simpatizam com as idéias direitistas por serem mais simples de entender. Claro, vai sentar e explicar pra tio Orlando sobre direitos humanos, liberdade de expressão, igualdade social e etc.
– Drogados? Cadeia neles. Baderneiros? Cadeia neles. 
É lógico que bato de frente todas as vezes que converso com ele. Mas a escrotidão mora em qualquer alma humana… Veja bem: Eu passo 11 meses por ano cansando a vista no computador, lidando com clientes exigentes, limpando cocô de criança, ariando panelas, empurrando carrinho de compras e chego então finalmente de férias no Brasil. Tio Orlando nos recebe de braços abertos com cervejinha gelada na bandeja (lógico que não é servida por ele mas sim por uma dessas "gentes"), jardim manero pacas…Aaaahhh, só dá pra soltar um: demorô! O ser humano é corrompivel sim. E Deus há de me perdoar quando a corrupção vem acompanhada de um pastelzinho de queijo e um mergulho na piscina rodeada de "grama bacana" (cortada por "esta gente", óbvio). 
E também tem mais, depois de muitos anos – décadas até – morando no "velho mundo", eu estou caindo numa real menos utópica. Depois de passar da fase deslumbramento, minha lua de mel com uma Europa socialista, igualitária e solidária é coisa do passado. Ainda mais com a  Áustria que enche a boca pra dizer que é um país neutro. Pais neutro é meu c* que vende armas pra qualquer rebeliãozinha no oriente médio. País justo é meu c* que oferece roupas à preço de banana feita à base de chicotes no leste do mundo. Pais ecológico é também meu c* que está investindo 300 milhões de euros em Belo Monte. É claro que merda não se faz dentro de casa, a merda vem importada, bem embalada e cheirosa. O sangue e a miséria que ela produziu ficou lá longe, bem longe… 
Então já que meu discurso de ex-brasileira-neo-européia não se sustentava mais nos meus princípios, passei a até ver uma certa autenticidade na escrotinisse de tio Orlando. Afinal ele explorava quem estava debaixo dos teus próprios olhos: Empregadas, jardineiros, cozinheiras, motoristas… E não uma vitima anônima e impalpável que se escondia atrás das camisetas da "Buenoton", ou da energia que ligava a geladeira ou dos rebeldes sem nomes mortos em conflitos com armas "Made in Austria".
Titio foi falando e eu fui deixando:
– Cê acredita que outro dia procurei empregada e apareceu uma que foi logo dizendo: Eu não trabalho aos sábados e domingos, chego só às 9 e saio às 18, preciso de uma hora de almoço, quero carteira assinada, 4 semanas de férias pagas…
Na mesma hora eu quis soltar um "Normalíssimo, né tio?" Mas ele estava empolgadérrimo e eu com a cervejinha na mão à beira da piscina, aquele sol todo me benzendo, corrompidíssima pelas circunstâncias, deixei rolar… Entre goles de Skol e o barulho do pastel crocante, a boca de Tio Orlando se triturava no verbo:
– Aí quando a folgada acabou de falar tudo o que ela exigia, eu perguntei pra ela: "Mas você toca piano? Ah não? Ah, então não serve!" Hahahaha! E mandei a safada picar a mula.– Não aguentei e entrei na gargalhada. 
– Ai, tio, você nã presta! Hahahaha!
Mais sarcasmo impossível, o humor aristocrático decadente de brazão estampado em tecido de chita misturado com piso de mármore carrara-cafona. Eu que saí deste universo, volto à ele totalmente cúmplice. E dá-lhe gargalhadas! 

Passei uma tarde maravilhosa, completamente corrompida com meu próprio bem-estar, um porre ideológico às avessas. E assim passei também todo o mês de férias em casas de tios, avós, amigos, sendo atendida por "esta gente" que me passava as roupas, por "esta gente" que me trazia moqueca, por "esta gente" que arrumava minha cama… Mais que corrompida, fui corroída de bem-estar à preço de salário mínimo.

Acabada as férias, voltei pra minha realidade austríaca "internamente" justa. E precisei de novo de uma faxineira. Nesta situação, tio Orlando certamente diria: "Pais rico é um problema, você contrata alguém e daqui a pouco, quando se dá conta a pessoa já se formou, procura um emprego melhor e te deixa na mão! Brasil é bom por que tem gente que nasceu pra isto: servir, cozinhar, limpar…" Pois é, titio, sem comentários. Entre a tua casa em Camboinhas e o meu apartamento antigo em Viena existem além do oceano, anos luz de justiça social. De faxineiras, operários e caixas de supermercado que moram no mesmo bairro que você e até no mesmo prédio, que senta do teu lado no encontro de classes por que seus filhos frequentam a mesma escola que os nossos. É, tio Orlando "essa gente" aqui tem uma vida mais digna e grama bacana cada um corta a sua.
Mas limpeza uma vez por semana por cinco horinhas eu pago, me dou este "luxo". 
Só que eu já estava de saco cheio de faxineiras brasileiras. Sim, racista total. Afinal de contas a comunidade verde-amarela aqui é do tamanho de um pum. Soltou, todo mundo sabe quem foi. E a mulher limpa as minha sujeiras, sabe o que tem na minha geladeira, o cheiro das minhas comidas e o pior de tudo: O estado das minhas calcinhas! Aí é foda, todo cuidado é pouco!
Uma amiga austríaca me recomendou uma ucraniana, disse que era muito boa e tal. Resolvi experimentar. Quando abri a porta pra recebê-la, dou de cara com um rostinho meigo "capa da capricho". Entre as franjas loiras e o sorriso largo, dois olhos azuis enormes. Pensei: Impossível, esta coisinha linda vai querer subir em escada pra limpar teias de aranha, esfregar vaso sanitário e ariar panelas? No way, sem chance! Olhos azuis redondos brilhavam enquanto explicava o que sabia fazer, onde já tinha trabalhado e quando ela poderia começar… Tão entusiasmada, tão cheia de energia. E eu totalmente atordoada, confrontada pela primeira vez na vida com um exemplar "desta gente" versão olhos azuis. Eu, a "liberal total" sendo preconceituosa às avessas, é isto mesmo? Agarrada nas minhas convicções sociais contraditórias e récem parida pra uma realidade além da grama aparada servida de bandeja, eu só queria sair desta situação, passar uma borracha neste universo de igualdades invertidas que eu nem queria conhecer. Demais pro meu horizonte classe média pseudo legal. Capa Capricho não serve, não podia servir. Com certeza, depois de 5 horas esfregando o chão da cozinha, limpando as janelas e catando 300 mil peças de lego pelo chão, ela vai picar a mula e eu vou ter que procurar outra pessoa de novo, explicar tudo de novo e tal… Imagina, uma bonequinha linda destas se ajoelhar e levar o aspirador até ângulos impossíveis e inalcansáveis? Esfregar privada? Ai, não, não!
Capa Capricho não parava de falar: "Eu sei fazer isto e aquilo, eu posso vir qualquer dia, eu quero, eu consigo, eu preciso…" E passeava pela casa, cozinha, corredores, abajures, mesas, piano. Opa, eu disse piano?
Tio Orlando me veio em mente. Idéia brilhante. Falei fria e seca. Pose de madame com mansão no Morumbi:
– Mas… – soltei o ar como que cansada, ironia e desdén no olhar– Você toca piano?
E ela arreganhou os olhos. Não foi arregalou. Não me corrija por que eu sei o que eu descrevo. Olhos arreganhados perguntam:
– Como assim?
– Piano, você toca? Caso contrário, não serve! – Eu toda ainda tentando segurar o petecão de quem só compra na Daslu.
– Toco sim.
Caí dos meus andares imaginários da cobertura da Ataulfo de Paiva:
– O quêê?
– É, eu toco. Eu estou estudando pra entrar no conservatório de Viena. Meu pai é músico da Orquestra sinfônica da Ucrânia…
– Ju-Jura?
– Sim, quer ouvir? – Sem esperar por resposta, sentou no piano e tocou, tocou, tocou. Trechos de Wagner, Beethowen, Mozart… Capa Capricho terminou, virou-se para mim e perguntou toda animada:
– E aí, quando você quer que eu comece a faxina?
–... 
Agora eram os meus negros olhos que estavam arreganhados... Marquei a faxina pro dia seguinte. Ela foi embora e eu corri pro telefone pra contar pra tio Orlando. Depois que fiz o resumo da Epopéia, titio deu gargalhadas: 
– Ha,ha. Bem feito. Você se esqueceu que estás no berço da cultura mundial e moras na capital internacional da música? Pois bem, aí até faxineira toca piano. Já aqui… este pessoal…– Titio seguiu metendo o malho "nesta gente" . Afastei o fone do ouvido e olhei pro teto. Eu, burra, acabei de servir um prato cheio pro discurso reacionário do grama-bacana. Ou perái, eu, burra? Claro! Meu insight interrompe o monólogo do sr. Orlando:
– Pára, tio, peraí, a culpa foi minha! Eu fiz a pergunta errada. Da próxima vez que eu quiser dispensar uma candidata "estrangeira" pergunto se ela sabe tocar pandeiro, tamborim ou…sambar! – E desliguei o telefone sem me despedir.

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P.s: Doce surpresa: Natascha limpa que é uma maravilha. Seria páreo duro com a Aparecida que além de limpar a casa toda e me levar na escola, me ensinou também a sambar!
Na vida, nada se perde, nada se repete, tudo se transforma. Semana que vem Natascha começa a dar aulas particulares para Thuthu de… piano, é claro! Sambar eles aprendem é com a mãe mesmo :)


P.s 2: Desejo num futuro imediato que "essa gente" no Brasil tenha as mesmas chances que "essa gente" tem por aqui. Tio Orlando que se cuide! 

10.03.2013

Cap. 45_ Manteiga de primeira qualidade

– Como assim “bem provida?” Ela foi é bem comida, porra!
Lina gritava encarando a tela do laptop. O marido que tomava tranquilo seu café da manhã na cozinha, ouvia e pensava:
– Ainda bem que não é comigo.
Ela continuava pagando o maior esporro pro monitor. O marido sem entender: “Será que é skype? Não ouço ninguém falar nada.” Ele já com muitos anos de experiência nas costas, resolveu esperar: “Mulher pra acalmar ou você come na hora ou então se faz de invisível”. Ele tinha acabado de levar as crianças na escola e se preparava pra tomar seu café da manhã na cozinha tranquilo, em ritmo de valsa...
Ela levanta da escrivaninha e começa a andar pelo corredor:
– Esta juventude está perdida mesmo! Não fumam maconha, não tomam LSD e agora mais esta: Não sabem perder o pudor! Isto é que dá se encher de ecstasy e ficar pulando ao som destes drums e drans da vida... Acham que tudo é legal, bacana e limpo! Cadê a sacanagem, pessoal? Cadê a depravação? O que vai ser do mundo daqui a alguns anos? Onde nós vamos parar deste jeito?
Pra variar, ela partiu fundo pro esquema Lavínia de falar, uma coisa puxa a outra que puxa a outra e cai tudo junto. Mas pra isto é sempre bom ter uma vítima por perto. Ela procura o marido pelo apartamento de pé direito alto e estilo art-nouveau, contrastando com sua própria figura tão exótica. Pisando no chão de tábua corrida e abrindo portas de madeira trabalhada. Não, ela não faz parte deste contexto, ela sempre soube disto. E gostava até que fosse assim. A distância certa entre ela e o mundo ao redor.

“Eu não sou da sua rua,
Eu não falo a sua língua,
Minha vida é diferente da sua.” *

“Eu não sou daqui mas fui puxada pra cá, eu sei”. Lina sempre se lembrava das férias passadas em Macarena na casa da tia casada e tão feliz que tinha na parede reproduções de “o Beijo”, um quadro de uma sensibilidade e amor tão singelos e “Danae”, com vasta cabeleira recebendo uma chuva de ouro nas pernas arreganhadas. Klimt na mais sublime tradução de ternura e sacanagem. Ela era capaz de ficar sentada no corredor por horas olhando aqueles dois quadros. A garotinha que admirava aquelas obras queria entrar naquele mundo, entender aquelas “outras palavras” que se traduziam em linhas e cores. Deu milhões de voltas até chegar aqui nesta cidade e mais milhões para chegar no estado em que se encontra: casada e feliz. Era inevitável pensar na tia e em Klimt, a correlação era óbvia demais. Dois ingredientes para um bom casamento que ela mesma teve que descobrir: Romantismo e pornografia, sem dramas nem censuras.



Mas agora, neste momento, ela estava preocupada com a falta do segundo componente desta dualidade ideal: a sacanagem. E continuava procurando o marido pelos corredores do apartamento.
– Onde ele se enfiou? – Ela acha ele (ainda) tranquilo na cozinha saboreando seu melange** e lendo o jornal. E vai logo continuando a palestra sem se dar o trabalho de introduzir o tema:
– Ai que saudade dos tempos perversos! Eu mijava no box e me achava super subversiva. Agora não, xixi no banho passou a ser politicamente correto e até desejável pra economizar a descarga. Ah, perdeu a graça! –
Ele a deixa falar e nem tenta entender o que uma coisa tem haver com qualquer outra, ou aonde ela está querendo chegar. “Viver ultrapassa qualquer entendimento”,  já diria Clarice. “E com uma mulher destas se atropela qualquer entendimento”, ele pensou.

Ela segue em frente. Bateria afinadíssima!
– É como no dia em que fizerem campanha pedindo pra cachorro fazer cocô nas ruas, os donos vão ficar putos, vão correr pro analista e iiihhhh, pode dar até suicídio!
A espuma do melange ainda se desmanchando nos lábios. O semmel quentinho recheado de manteiga de primeira. Tudo em plena sinfonia. De repente adentra um instrumento inusitado e inesperado na composição dele. Trombone? Bumbo? Tamborim nervoso?
– Sem sacanagem o mundo não vive, minha gente! Como pode ser saudável e são, viver numa época em que vibrador sexual é chamado de bastão de massagem? E ainda vem com a cara da Hello Kitty? Hellooou, piraram!

O melange esfriando na xícara. Vontade de suspirar e olhar pra cima, mas ele não é louco de dar esta bandeira. Finge interesse. Ela avança com a bateria. Bumbo mandando ver.
– Como se já não me bastasse o conflito de ser estrangeira, agora mais essa: Conflito com uma nova geração que não tem conflito! O que vai ser do mundo com estes jovens? Meu sobrinho mesmo, sabe o que ele fez?
– Não, o quê?
Ela pega ele pelo braço, que tenta continuar lendo a notícia, dando apenas sua presença auditiva. Pra Lina, muito pouco. Ela segura no queixo dele e faz virar seu rosto em direção ao dela.
O marido lembra da família de Lina. Todos se comportam assim, mães, tios, irmãos: todos surdos, histéricos e carentes de atenção. Almoço de domingo no Brasil é uma loucura, 10 exemplares de Linas andando pela casa berrando e gesticulando. Cutucando, puxando os braços, virando os rostos uns dos outros. Me olhem, me escutem, me sintam!
– Sabe o que ele fez, amor? – O queixo do marido aprisionado nas mãos dela – Casou! Imagina!
– Éééé...
– Como assim, éééé? Você não acha um absurdo? Casar? Nossa geração propagou o amor livre, confrontou a igreja católica, desmascaramos todos estes valores burgueses ridículos... Até a mãe dele nunca casou. Isto é um vexame! Uma afronta aos bons costumes! Digo aos maus-costumes!
Maridão muito esperto e conhecedor da causa, não iria cair na cilada de contestá-la naquele estado. Pandeiro eufórico? Reco-reco frenético?
– É... incrível...
– Imagina entrar na igreja toda de branco, prometer aquilo tudo... Este mundo tá perdido!
– Será que ela casou virgem?
– Lógico que não! Aí seria demais!
– Mas... por que você está falando sobre isto agora, Lina?
– Ah, lembra aquela turma de mestrandos da universidade de Viena, que usaram meu blog para objeto de estudo?
– Sim.
– Pois é, os estudantes traduziram a crônica “A brasileira Wahnsinnada”. Acabei de receber.
– Ah, legal.
– Legal, mas vamos combinar que “bem provida” é diferente de “bem comida”, né?- Gritava a perua descompensada.
– Como assim?
– ”Ordentlich besorgt” não é “bem comida” mas sim bem abastecida, bem provida...
– Ah, é verdade.
– Por exemplo, me diz se você estivesse num bar conversando com um amigo, como você diria para ele que uma mulher tem que ser bem comida em alemão?
– Hum... Eu falaria “gut gepudert”.
– E como eu nunca ouvi isto antes?
– Por que você é bem comida em português, ou eu estou enganado?
– Ah, é verdade, alemão pra bulas e manuais de instrução, português pra amar e brigar.
A fórmula funciona bem entre eles há mais de 15 anos. Até as crianças aderiram ao linguajar peculiar da família. Cada coisa no seu lugar, cada emoção, uma gaveta; cada manobra, uma língua. Como já explicado no "Pretérito do samba"
– Mas o que significa isto? Gepudert?
Ele arregaça as mangas da camisa, deixa os bíceps bem delineados à mostra e faz um movimento como se estivesse socando a mandioca:
– Você sabe como se faz manteiga? Pois é, a gente tem que socar ela assim!
E movimenta os músculos para cima e para baixo tocando o fundo de um panelão imaginário.
– Uau, que poder! Genau total! Me faz virar manteiga!
Os olhos de Lina brilharam como criança aprendendo uma nova letra.
– Mas agora tenho que ir. Os alunos estão me esperando lá na Uni. Tô atrasada.
Ela lhe dá um beijo rápido e ao mesmo tempo aperta-lhe o pau. Ele sempre estremece nestas horas por que nunca acredita que ela tem o total controle deste simples gesto. “Vai que ela esquece e aperta o meu pau na rua ou na casa da minha mãe...”.

No próximo instante ela já está na porta para sair. Como sempre, literalmente enrolada com cachecol, luvas, boinas e como sempre amaldiçoando o inverno.
– Mais de 20 anos morando aqui e não consigo me ajustar a este código invernal! Verdammt! (=raios!) Cadê a outra luva? Bussi, bussi, Schatz! (=beijinhos, tesouro!)
Ela se vira pra jogar um beijo mas o capuz do casaco não acompanha o movimento e ela beija o próprio nylon.
Ele ainda fala em português:
– Quando você voltar, te ensino a fazer manteiga, gustosa!
Ela, já com a porta aberta, só tem tempo de soltar um:
– Aaaahhhhh!!!
Que ecoa pelos corredores do prédio construído com pura poesia vienense de fins do século XIX. Pisos carinhosamente pintados, ornamentos delicadamente trabalhados em gesso e corrimões dançantes recebem o “Aaaahhh” com prazer rejuvenescido. Ela avança descendo as escadas. Maçanetas ondulantes abrem contentes as divisórias de vidro. Aaaaahhh!!!!

Ela inevitavelmente pensa com orgulho que apesar de não fazer parte desta cultura, foi aqui que nasceu a modernidade. Onde Klimt e seus amigos levantaram a Secession, Wittgenstein se entregou de “língua” e alma à filosofia e Freud escrevia à Schnitzler confessando a inveja que sentia do escritor por conseguir descrever tão bem a psique humana em seus romances. Viena, berço da modernidade que se perpetuou em “Altbaus” (prédios antigos).

Foto: www.hiese.de
“Ao tempo sua arte, 
à arte sua liberdade.”

A Altbauwohnung (apartamento antigo) cai de novo na paz original austral. Ele aproveita para acabar de ler o jornal e se diverte ao pensar que isto seria um bom material para uma nova crônica dela: “Lina vai à Universidade ensinar os alunos a traduzir “bem comida”! No mínimo, surreal!”

Dez minutos mais tarde ela liga e fala em alemão:
– Schatz(=tesouro), o tal do gut gepudert, é gepudert com “p” ou com “b”?
– Lina, onde você está?
– No metrô. Fala logo, como se escreve gepudert?
Ele imagina a cena e não contém o riso. Na hora do rush, o metrô lotado e a mulher dele – que fala alto como sempre – querendo saber como se escreve bem comida, ou melhor “bem amanteigada!” Bem humorado e com a dose certa de cafeína no sangue, ele solta um sorriso descompromissado enquanto diz:
– Do jeito que você quiser, gustosa!
O último gole de melange desce tranquilo pela garganta, a sinfonia que antes era apenas uma valsa, ganhou um toque de allegro no meio. Reco-reco ainda dominando o ritmo, surdo se retirando... A manteiga lambendo o semmel... O agogô e a cuíca dando um toque final... E ele pensa quanto tempo deverá demorar pra ela voltar pra casa... O chocalho fecha a cena se despedindo devagarinho...
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“Felicidade não se adquire, felicidade se conquista. 
E você conquistou a tua!”
(Email da tia de Macarena para Lina)

* Música: "Eu não sou da tua rua!" 
Composição: Arnaldo Antunes / Branco Mello. 
Vídeo legal!

** Melange: café expresso com leite espumante.

“Ich habe mich oft verwundert gefragt, woher Sie diese oder jene geheime Kenntnis nehmen konnten, die ich mir durch mühselige Erforschung des Objekts erworben, und endlich kam ich dazu, den Dichter zu beneiden, den ich sonst bewundert. So habe ich den Eindruck gewonnen, dass Sie durch Intuition – eigentlich aber infolge feiner Selbstwahrnehmung – all das wissen, was ich in mühsamer Arbeit an anderen Menschen aufgedeckt habe.”
(Carta de Freud à Schnitzler)